Selic alta pressiona empresas endividadas e trava crédito

Queda mais lenta da Selic amplia riscos para companhias e reduz apetite de investidores no mercado de renda fixa

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A perspectiva de redução mais gradual da taxa básica de juros no Brasil, Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia), tem ampliado os desafios enfrentados por empresas altamente endividadas. Mesmo com o início do ciclo de queda do Selic, o patamar ainda elevado mantém pressionados os custos financeiros e dificulta a renegociação de dívidas no mercado.

Juros elevados mantêm pressão sobre empresas

A recente redução da Selic para 14,75% ao ano, primeiro movimento de corte desde meados de 2024, ainda não representa alívio significativo para companhias com alto nível de endividamento. Especialistas apontam que o atual cenário combina juros elevados com inflação próxima de 4%, o que impacta diretamente a capacidade financeira das empresas.

Nesse contexto, diversas companhias brasileiras têm recorrido à reestruturação de dívidas. Entre os casos recentes estão grandes grupos de setores variados, como varejo, energia, aviação e saúde, evidenciando que o problema não está restrito a um único segmento da economia.

O principal fator de endividamento está na dinâmica entre receitas e despesas financeiras. Enquanto o faturamento das empresas tende a acompanhar a inflação, o custo das dívidas segue fortemente influenciado pela taxa de juros, o que reduz margens e compromete o caixa.

Endividamento consome geração de caixa

Levantamentos do mercado indicam que o peso da dívida sobre o caixa das empresas permanece elevado. Em média, cerca de 60% da geração de caixa das companhias analisadas por agências de risco é destinada ao pagamento de juros.

Mesmo em um cenário mais otimista, com a Selic encerrando 2026 em torno de 12,5% ao ano, a expectativa é de que mais da metade da geração de caixa continue comprometida com despesas financeiras.

Esse quadro aumenta a preocupação de credores, especialmente investidores estrangeiros, que passam a exigir maior retorno para compensar o risco ou, em alguns casos, optam por direcionar recursos para outros mercados.

A percepção de risco também tem impacto direto na credibilidade das empresas brasileiras no mercado de capitais, o que pode dificultar novas captações.

Mercado de crédito mostra sinais de cautela

O ambiente de incerteza já começa a refletir no mercado de renda fixa. Após um 2025 de forte atividade, com emissões que somaram R$ 737,7 bilhões no mercado local, analistas projetam desaceleração para este ano.

Estimativas indicam uma possível queda de 20% a 25% no volume de emissões, impulsionada pelo menor apetite dos investidores por ativos considerados mais arriscados.

No mercado internacional, embora o desempenho recente tenha sido positivo, também há sinais de cautela diante do aumento das incertezas globais e domésticas, incluindo fatores como eleições, crescimento econômico moderado e tensões geopolíticas.

Recuperações judiciais e extrajudiciais em alta

O número de empresas em recuperação judicial também tem crescido, reforçando o cenário financeiro. No quarto trimestre de 2025, havia 5.680 companhias nesse processo, alta de 7,5% em relação ao trimestre anterior e de 24,3% na comparação anual.

Além disso, recuperações extrajudiciais — realizadas diretamente com credores — têm ganhado destaque, inclusive envolvendo grandes empresas.

Esses movimentos surpreenderam parte dos investidores, principalmente pelo ritmo de deterioração de algumas companhias. Em certos casos, títulos que eram negociados próximos ao valor de face sofreram quedas abruptas após anúncios de reestruturação de dívida.

Diferença entre empresas aumenta

O cenário atual tem ampliado a diferença entre empresas consideradas sólidas e aquelas com maior risco financeiro. Companhias com balanços mais equilibrados continuam encontrando demanda por seus títulos, enquanto outras enfrentam maior resistência do mercado.

Essa discrepância se reflete nos preços dos ativos. Papéis de empresas mais endividadas vêm sendo negociados com descontos significativos, enquanto títulos de companhias com menor alavancagem permanecem estáveis.

Indicadores financeiros ajudam a explicar essa diferença. A relação entre dívida líquida e geração de caixa é um dos principais parâmetros observados pelos investidores. Empresas com índices mais elevados tendem a sofrer maior desvalorização de seus títulos.

Setores mais pressionados

Embora o problema seja disseminado, alguns setores apresentam maior nível de preocupação. O varejo enfrenta impacto do endividamento das famílias, o setor de energia lida com ajustes na geração, e a indústria petroquímica sofre com preços baixos prolongados.

Já o setor de saúde tem chamado atenção pelo volume de revisões negativas de crédito, refletindo dificuldades específicas enfrentadas por empresas da área.

Perspectivas para o mercado

Apesar dos desafios, o mercado de crédito ainda demonstra resiliência no curto prazo. Especialistas avaliam que os níveis atuais de inadimplência corporativa permanecem administráveis, mas alertam para riscos futuros.

A tendência é de manutenção das emissões no primeiro semestre, antes de um possível aumento da volatilidade associado ao período eleitoral. No entanto, o custo do crédito pode subir, refletindo a maior percepção de risco.

Nesse cenário, a disponibilidade de recursos passa a ser tão relevante quanto o seu custo. Para empresas endividadas, o acesso ao financiamento tende a se tornar mais seletivo, exigindo maior disciplina financeira e transparência na gestão.

A evolução da Selic continuará sendo um fator determinante para o ambiente de crédito. Uma queda mais lenta dos juros prolonga o endividamento sobre as empresas e pode influenciar diretamente o ritmo de recuperação do setor corporativo brasileiro.

  • Publicado: 22/03/2026 08:47
  • Alterado: 22/03/2026 08:47
  • Autor: 22/03/2026
  • Fonte: FolhaPress