Pandemia: brasileiros apontam inseguranças em caso de nova crise
Pesquisa Datafolha mostra que maioria da população teme falta de estrutura e aponta desconfiança em autoridades diante de futuras crises sanitárias, como a pandemia
- Publicado: 22/03/2026 09:40
- Alterado: 22/03/2026 09:41
- Autor: Suzana Rezende
- Fonte: Datafolha
A maioria dos brasileiros avalia que o país ainda não está pronto para enfrentar uma nova pandemia, segundo pesquisa Datafolha encomendada pelo Instituto Todos pela Saúde. O levantamento indica que persiste uma sensação de vulnerabilidade após a crise da Covid-19, com percepção limitada de avanços estruturais na área da saúde pública.
Maioria vê país despreparado
De acordo com os dados, 53% dos entrevistados afirmam que o Brasil não está preparado para uma futura epidemia ou pandemia. Outros 28% consideram que o país está pouco preparado. Em contrapartida, apenas 18% avaliam que há organização suficiente para lidar com uma nova emergência sanitária, enquanto 1% não soube opinar.
A pesquisa ouviu 2.002 pessoas com mais de 16 anos em todo o país, nos dias 10 e 11 de novembro de 2025. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Os números refletem um cenário de desconfiança generalizada e indicam que a experiência da Covid-19 — que causou mais de 700 mil mortes no Brasil — ainda não se traduziu, para a população, em maior capacidade de resposta institucional.
Especialistas apontam falhas estruturais
Para especialistas, o problema vai além da percepção popular e envolve lacunas históricas. O médico Gerson Penna, diretor-presidente do Instituto Todos pela Saúde, afirma que o Brasil carece de instrumentos institucionais e legais para lidar com crises sanitárias.
Segundo ele, enquanto outros países ampliaram suas estruturas de saúde pública nas últimas décadas, o Brasil não acompanhou esse ritmo. Penna destaca que a criação de centros especializados cresceu globalmente, mas o país segue atrasado nesse processo.
A professora Deisy Ventura, da Faculdade de Saúde Pública da USP, avalia que o tema deveria ter sido tratado como prioridade desde o início do atual governo federal. Para ela, faltou uma análise consistente da resposta à pandemia de Covid-19, o que compromete o aprendizado institucional.
Medo de novas crises persiste
O levantamento também mostra que o receio de novas pandemias é elevado entre os brasileiros. Quase metade dos entrevistados (49%) declara alto nível de preocupação com futuras crises sanitárias, enquanto 36% relatam preocupação moderada.
Além disso, 46% afirmam que se sentiriam menos seguros em uma nova pandemia do que se sentiram durante a Covid-19, indicando aumento da percepção de risco.
O ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão avalia que essa apreensão é compartilhada pela comunidade científica. Segundo ele, há consenso de que uma nova pandemia deve ocorrer, embora não seja possível prever quando.
Especialistas também apontam fatores que ampliam esse risco, como conflitos internacionais, reemergência de doenças e o avanço do negacionismo científico.
Propostas para melhorar resposta a emergências
Diante desse cenário, há consenso sobre a necessidade de fortalecer a estrutura de resposta do país. A pesquisa aponta que nove em cada dez brasileiros se sentiriam mais seguros se o Brasil contasse com um centro nacional de controle de doenças.
A proposta prevê a criação de uma instituição permanente, vinculada ao Ministério da Saúde, com autonomia operacional e participação de estados, municípios e entidades técnicas. O objetivo seria coordenar ações de preparação, resposta e recuperação em crises sanitárias.
Além disso, especialistas defendem a aprovação de uma lei nacional para enfrentamento de emergências sanitárias. Atualmente, o país não possui um marco legal permanente, o que obriga a adoção de medidas provisórias em situações de crise.
Desinformação e confiança em fontes
Outro ponto destacado pela pesquisa é a dificuldade da população em identificar fontes confiáveis de informação. Seis em cada dez brasileiros (61%) relatam ter enfrentado dúvidas sobre em quem confiar durante a pandemia.
Apesar disso, médicos e profissionais de saúde aparecem como as fontes mais confiáveis, citados por 58% dos entrevistados. Em seguida estão organizações internacionais, como a OMS (41%), e órgãos governamentais (40%).
Por outro lado, políticos são mencionados por apenas 3% como fonte de confiança, evidenciando o baixo nível de credibilidade nesse grupo.
A busca por informação, no entanto, é ampla: 99% dos entrevistados afirmam recorrer a algum meio durante crises sanitárias, utilizando, em média, quatro canais diferentes, como unidades de saúde, televisão, redes sociais e sites de notícias.
Especialistas alertam que o ambiente informacional ainda é marcado pela desinformação, o que pode dificultar a resposta a futuras pandemias e comprometer a adesão da população a medidas de saúde pública.