Lula critica ONU e cobra reforma do Conselho de Segurança
Presidente aponta falhas da ONU diante de conflitos globais, critica gastos militares e defende maior representatividade de países da América Latina e África
- Publicado: 22/03/2026 09:19
- Alterado: 22/03/2026 09:19
- Autor: Suzana Rezende
- Fonte: FolhaPress
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez críticas à atuação da Organização das Nações Unidas (ONU) durante discurso realizado neste sábado (21), em Bogotá, na Colômbia. Segundo ele, o Conselho de Segurança da entidade tem falhado em sua principal missão de manter a paz internacional.
Durante participação no Fórum de Alto Nível entre a Celac e a África, Lula afirmou que o órgão, criado para evitar guerras, atua de forma contrária.
“O Conselho de Segurança da ONU e seus membros permanentes foram criados para tentar manter a paz, e são eles que estão fazendo as guerras”, declarou.
O presidente também demonstrou insatisfação com o que classificou como inércia da organização diante de conflitos recentes.
“Estou indignado com a passividade”, afirmou.
Conselho de Segurança é alvo de críticas e pedido de reforma
Lula destacou que o Conselho de Segurança não conseguiu avançar na resolução de conflitos em regiões como Gaza, Ucrânia, Líbia, Iraque e Irã. Para ele, o cenário internacional reflete uma lógica de poder baseada na força militar e econômica.
“Quem tem mais canhão, mais navio, mais avião e mais dinheiro se acha dono do mundo”, disse.
O presidente voltou a defender mudanças estruturais no órgão, com ampliação da participação de países da América Latina e da África. Ele questionou a falta de atualização na composição do conselho.
“Quando é que a ONU vai convocar uma reunião extraordinária para que a gente decida qual é o papel dos membros do Conselho de Segurança? Por que não se renova?”, questionou.
Gastos militares contrastam com aumento da fome
Outro ponto abordado no discurso foi o aumento dos gastos militares globais. Lula afirmou que o mundo vive o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial.
Segundo ele, os investimentos em armamentos contrastam com a persistência da fome em escala global.
“Enquanto se gastou no ano passado US$ 2,7 trilhões em armas e guerras, ainda temos 630 milhões de pessoas passando fome”, declarou.
Dados recentes indicam que os gastos militares globais atingiram mais de US$ 2,6 trilhões em 2025, o maior patamar desde a Segunda Guerra. Já a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura estima que entre 638 milhões e 720 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2024.
Lula relembra acordo com o Irã e critica potências
O presidente também mencionou negociações diplomáticas com o Irã realizadas em 2010, quando esteve em Teerã ao lado do então líder turco Abdullah Gül. Segundo Lula, o acordo sobre enriquecimento de urânio foi posteriormente desconsiderado por potências ocidentais.
“Depois de alguns anos, foram fazer outro acordo pior do que aquele que a gente tinha feito”, afirmou.
Ele criticou ainda a construção de narrativas que justificam ações militares.
“Nós não podemos viver mais num mundo de mentiras”, disse, ao citar argumentos utilizados pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump.
Disputa por minerais e risco de nova dependência
Lula também abordou a disputa global por minerais críticos e terras raras, alertando para o risco de uma nova forma de exploração econômica sobre países em desenvolvimento.
Segundo ele, nações da América Latina e da África precisam evitar repetir padrões históricos de dependência.
“[Com os minerais críticos] é a chance de Bolívia, África e América Latina não aceitar ser apenas exportadora”, afirmou.
O presidente defendeu que investimentos estrangeiros estejam associados à instalação de cadeias produtivas locais, como forma de gerar desenvolvimento econômico.
Brasil propõe reunião sobre o Atlântico Sul
Ao final do discurso, Lula afirmou que o Brasil organizará uma reunião ministerial da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul no dia 9 de abril. O objetivo é discutir a preservação da região como área livre de disputas geopolíticas.
A proposta reforça a posição do governo brasileiro em defesa de soluções multilaterais e maior protagonismo de países emergentes nas decisões internacionais.