Liderança feminina fortalece as instituições

Debate sobre a presença feminina em cargos de comando revela a necessidade de ambientes de decisão mais maduros e diversos

Crédito: Arquivo pessoal

O debate contemporâneo sobre a ascensão feminina a postos de comando transcende as estatísticas e mergulha em reflexões complexas sobre poder, autoridade e os obstáculos subjetivos que persistem no ambiente corporativo e institucional. Embora o número de mulheres em cargos de decisão tenha avançado, especialistas destacam que a percepção social sobre o exercício dessa liderança ainda é pautada por disparidades. A juíza federal Alessandra Belfort, pesquisadora das interações entre emoção e processos decisórios, argumenta que estereótipos históricos continuam a moldar a interpretação da autoridade feminina, fazendo com que o acesso ao cargo seja apenas o primeiro de muitos desafios de legitimação.

Em sua pesquisa de mestrado em Psicologia Forense pela Universidade Tuiuti do Paraná, Belfort investiga como o componente emocional influencia as escolhas, especialmente no Judiciário. Ela combate o estigma persistente de que as mulheres seriam “emocionais demais” para deliberações complexas, esclarecendo que a ciência moderna desmente a suposta oposição entre razão e emoção. Para a magistrada, as emoções são ferramentas organizacionais que auxiliam na avaliação de riscos e na interpretação de contextos, sendo componentes intrínsecos a qualquer decisão humana, independentemente do gênero de quem a toma.

A disparidade interpretativa torna-se evidente na forma como comportamentos idênticos são lidos pela sociedade. Segundo a pesquisadora, enquanto a intensidade e a firmeza em um homem são frequentemente associadas a uma liderança convicta, as mesmas características em uma mulher costumam ser rotuladas como desequilíbrio emocional. Esse cenário impõe às profissionais uma carga extra de autovigilância estética e comportamental, forçando-as a equilibrar constantemente sua postura para não parecerem nem excessivamente rígidas, nem demasiadamente sensíveis, uma exigência que raramente recai sobre seus pares masculinos com a mesma força.

Belfort defende que a autoridade deve ser compreendida como a capacidade de assumir responsabilidades e conduzir processos, e não como a ausência de sentimentos. Ela reforça que, na psicologia forense, as decisões não são atos puramente mecânicos, mas processos influenciados por valores e experiências. Portanto, a diversidade de perspectivas em cargos de liderança não é apenas uma questão de representatividade simbólica, mas um mecanismo que enriquece as instituições. Ao integrar diferentes visões de mundo, os processos decisórios tornam-se mais maduros, conscientes e conectados com a complexa realidade social brasileira.

  • Publicado: 23/03/2026 14:52
  • Alterado: 23/03/2026 14:52
  • Autor: 23/03/2026
  • Fonte: Alessandra Belfort