Feminicídio cresce 4,7% em 2025 e expõe ineficiência da proteção do estado
Levantamento aponta que a maioria das vítimas são mulheres negras mortas em casa por parceiros.
- Publicado: 04/03/2026 11:28
- Alterado: 04/03/2026 11:28
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: ABCdoABC
Uma em cada oito mulheres mortas no Brasil já tinha proteção judicial garantida. Os feminicídios recentes escancaram a ineficiência estatal e um padrão cruel de violência letal. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou dados alarmantes nesta quarta-feira (4).
A pesquisa avaliou crimes motivados por questões de gênero em 16 estados brasileiros. Cerca de 13,1% das vítimas possuíam uma Medida Protetiva de Urgência (MPU) ativa na hora do crime. A Justiça interveio formalmente em 148 episódios sem sucesso.
Como os feminicídios expõem o gargalo na segurança

A diretora-executiva do Fórum, Samira Bueno, alerta para a gravidade estrutural da situação. O poder público reconhece o perigo formalmente quando expede a decisão judicial.
“Quando existe uma medida protetiva ativa, o risco já foi formalmente reconhecido pelo Estado. Não estamos falando de uma violência invisível ou desconhecida. Se, mesmo assim, ocorre o feminicídio, isso indica que a resposta institucional não foi suficiente para interromper a escalada da violência.”
O obstáculo real aparece de forma brutal na execução prática da Lei Maria da Penha. Aproximadamente 86,9% das mulheres mortas não tinham qualquer proteção vigente. Isso demonstra a barreira extrema imposta às vítimas para conseguir formalizar denúncias e evitar novos feminicídios.
Perfil das vítimas escancara desigualdade racial

O novo relatório traça um retrato doloroso das vítimas. Em 2025, o país contabilizou 1.568 mortes motivadas por gênero. Esse número representa um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior.
A análise de 5.729 ocorrências registradas entre 2021 e 2024 mostra a cor da violência. Cerca de 62,6% das vítimas eram negras, contra 36,8% de mulheres brancas. Essa sobrerrepresentação liga a letalidade diretamente às desigualdades raciais e sociais do país.
Mulheres negras enfrentam maior vulnerabilidade socioeconômica historicamente. Elas acessam menos os serviços públicos de amparo, facilitando a rota para os feminicídios sem intervenção estatal prévia.
O perigo mora em casa e tem rosto conhecido
O agressor quase sempre faz parte do convívio íntimo da vítima. Oito em cada dez mulheres perdem a vida pelas mãos do atual parceiro (59,4%) ou do ex-companheiro (21,3%). Apenas 4,9% dos assassinatos envolvem autores desconhecidos.
Os dados consolidados revelam padrões estatísticos perturbadores sobre a execução dos crimes:
- Faixa etária: Metade das vítimas tinha entre 30 e 49 anos; jovens de 18 a 29 anos representam 29,4%.
- Cenário letal: 66,3% dos assassinatos ocorreram dentro da própria residência da mulher.
- Armas utilizadas: 48,7% envolveram armas brancas (facas, machados) e 25,2% o uso de armas de fogo.
Casos recentes em São Paulo ilustram essa tragédia continuada. Tainara Souza Santos foi atropelada e arrastada pelo ex-namorado. Meses depois, sua amiga Priscila Versão também perdeu a vida nas mãos de um ex-companheiro, evidenciando a escalada fatal.
A proximidade facilita a ação criminosa no ambiente doméstico. Samira Bueno destaca que a dinâmica dos feminicídios utiliza objetos banais do cotidiano para tirar vidas.
“Não estamos falando, na maior parte dos casos, de armas sofisticadas. Muitas vezes é uma faca de cozinha, um machado ou um objeto que já está dentro da residência.”
A urgência de acreditar na palavra da mulher

Desde 2015, o Brasil perdeu mais de 13.703 mulheres pela intolerância de gênero. A defensora pública Rosana Leite Antunes de Barros aponta um desafio histórico estrutural. A sociedade ainda resiste em dar crédito imediato aos relatos femininos de perigo.
“Por muito tempo as mulheres foram desacreditadas em suas vivências, inclusive, com o apagamento na história. As estatísticas, diga-se de passagem, com subnotificações, estão a externar o quanto as mulheres precisam se creditadas em suas palavras, vidas e vivências.”
O peso de uma denúncia não pode depender de evidências em vídeos ou áudios virais para gerar empatia. A solicitação de socorro e o relato de ameaça exigem ação governamental imediata e rigorosa.
A estrutura de acolhimento falha de forma fatal sem um investimento integrado em segurança, saúde e justiça. Combater a epidemia de feminicídios exige escuta ativa, fiscalização real das medidas protetivas e punição imediata aos agressores.