Eduardo Leite força PSD a escolher um lado
PSD tenta se vender como alternativa, mas ainda oscila entre posicionamento, conveniência e velhos fantasmas da política brasileira
- Publicado: 25/03/2026 18:03
- Alterado: 25/03/2026 18:03
- Autor: João Pedro Mello
- Fonte: ABCdoABC
Ao tratar, nesta tarde, da candidatura do PSD à Presidência, Eduardo Leite acabou escancarando um dilema interno do partido. A fala de Eduardo Leite tem aquele ar de reunião de condomínio onde ninguém quer assumir o problema, mas todo mundo sabe que o barulho vem do mesmo apartamento.
O governador do Rio Grande do Sul, colocou o Partido Social Democrático (PSD), diante de um espelho que ainda não reflete um rosto claro para o eleitor. Aqui é menos sobre quem será candidato e mais sobre o que o partido pretende ser quando crescer — se é que pretende crescer sem muletas ideológicas.
O discurso dele tenta erguer uma espécie de manifesto identitário, algo raro num ambiente político que costuma trocar de pele mais rápido que aplicativo atualiza versão. Ao dizer que a primeira candidatura presidencial do PSD será “definidora”, Eduardo Leite admite, sem rodeios, que o partido ainda não tem uma identidade sólida. É uma sigla em construção, quase um rascunho com pretensões de obra final.
Mas o ponto central não está na candidatura em si. Está na encruzilhada. E ela é mais moral do que eleitoral. Ao mencionar indulto, anistia e a escolha entre polos, Eduardo Leite desenha o verdadeiro dilema: o PSD quer ser um partido com posição ou apenas um ponto de encontro confortável para quem evita confronto?
PSD entre o discurso e a prática: Eduardo Leite x Ronaldo Caiado

O PSD gosta de se vender como uma espécie de “centro funcional”, uma zona de conforto política onde tudo cabe e nada explode. É um partido que opera bem no pragmatismo, mas sofre quando precisa de narrativa. E eleição presidencial não é planilha, é roteiro. E roteiro exige personagem.
Eduardo Leite tenta oferecer esse personagem: um Brasil “diferente”, sem adesão automática a polos. A ideia é sedutora, quase poética, mas tropeça na realidade. No Brasil, quem não escolhe lado costuma ser engolido pelos lados. O centro vira intervalo comercial.
Ao colocar Ronaldo Caiado como contraponto, ainda que de forma elegante, Eduardo Leite escancara a disputa interna. Não é apenas sobre nomes, é sobre direção. Caiado representa uma linha mais alinhada a um campo político tradicionalmente mais conservador. Leite tenta puxar para um discurso mais moderado, quase técnico, com pitadas de projeto nacional.
O discurso pode até soar técnico, mas a prática já começou a desenhar fronteiras mais duras. Leite já deixou claro que não será candidato a vice caso o PSD escolha Ronaldo Caiado para a presidência. O que sem dúvidas é bem mais do que uma decisão pessoal, é um recado direto: não há espaço para conciliação confortável entre projetos que caminham em direções diferentes.
O problema é que o PSD, historicamente, nunca teve alergia a conveniências. E conveniência raramente combina com identidade firme. Fica parecendo aquele amigo que muda de opinião dependendo de quem paga a conta.
A falsa neutralidade como estratégia
A fala sobre “não adesão a um polo ou outro” soa bem no papel, mas na prática é um campo minado. Neutralidade, em política, muitas vezes é apenas um nome elegante para indecisão estratégica. E eleitor, convenhamos, não costuma se apaixonar por indecisão.
Eduardo Leite tenta vender a ideia de uma alternativa real de poder. Mas alternativa precisa de contraste. Precisa dizer o que não é. E aí entra a parte mais delicada: ao criticar indulto e anistia, ele dá sinais claros de posicionamento, mesmo tentando parecer acima da disputa.
Ou seja, o discurso de neutralidade já nasce com lado. Só não admite em voz alta. É como quem diz “não sou ciumento”, enquanto revisa o celular do outro escondido.
O PSD, nesse cenário, parece viver uma crise de sinceridade política. Quer ser independente, mas não quer perder trânsito. Quer ter discurso, mas sem fechar portas. E política sem porta fechada vira corredor — muita gente passando, pouca gente ficando.
Ronaldo Caiado como teste de realidade

Ronaldo Caiado entra nessa história como mais do que um possível candidato. Ele funciona como um teste de realidade para o PSD. Se o partido optar por ele, assume uma identidade mais clara, ainda que divisiva. Se não optar, terá que explicar o que exatamente quer representar.
Leite reconhece convergências e divergências, mas deixa implícito que o ponto de ruptura é mais profundo. Não é sobre políticas públicas específicas, é sobre o tipo de país que se quer projetar. E, principalmente, sobre como esse projeto dialoga com o momento político atual.
A menção direta à anistia não é mero espirro de fala casual. É bem mais do que isso, trata-se de um marcador ideológico. Um divisor de águas. E ao trazer isso para o centro da discussão, Eduardo Leite força o PSD a sair do conforto técnico e entrar no campo simbólico, onde decisões custam mais caro.
E aí mora o risco. Porque, ao sair do meio, o partido precisa escolher onde pisa. Ou seja, o ato de “escolher”, fatalmente implica perder alguma coisa. Entretanto, no Brasil, geralmente, perde-se apoio de um lado enquanto se tenta conquistar o outro.
Um partido em busca de si mesmo

No fundo, o discurso de Eduardo Leite é menos sobre 2026 e mais sobre identidade. É um chamado interno, quase um ultimato elegante: o PSD precisa decidir o que quer ser antes de decidir quem vai ser seu candidato.
E essa decisão não será limpa nem consensual. Vai envolver disputa, desgaste e, inevitavelmente, contradições. Porque o PSD é, por natureza, um partido de convivência ampla. E convivência ampla nem sempre combina com coerência rígida.
Eduardo Leite tenta empurrar o partido para um lugar de definição. Um lugar onde discurso e prática não sejam primos distantes. Resta saber se o PSD quer esse tipo de compromisso ou se prefere continuar sendo o espaço onde tudo cabe — inclusive a falta de identidade.
No fim, a questão não é se o PSD terá um candidato. Isso é quase inevitável. A questão é se terá um rosto reconhecível ou apenas mais uma figura genérica tentando parecer novidade num cenário que já viu esse filme algumas vezes.
E, como todo bom roteiro político brasileiro, a dúvida permanece no ar: o PSD vai escolher um caminho ou vai tentar caminhar em todos ao mesmo tempo — até tropeçar no próprio discurso?