Eduardo Leite força PSD a escolher um lado

PSD tenta se vender como alternativa, mas ainda oscila entre posicionamento, conveniência e velhos fantasmas da política brasileira

Crédito: (Montagem/ABCdoABC)

Ao tratar, nesta tarde, da candidatura do PSD à Presidência, Eduardo Leite acabou escancarando um dilema interno do partido. A fala de Eduardo Leite tem aquele ar de reunião de condomínio onde ninguém quer assumir o problema, mas todo mundo sabe que o barulho vem do mesmo apartamento.

O governador do Rio Grande do Sul, colocou o Partido Social Democrático (PSD), diante de um espelho que ainda não reflete um rosto claro para o eleitor. Aqui é menos sobre quem será candidato e mais sobre o que o partido pretende ser quando crescer — se é que pretende crescer sem muletas ideológicas.

O discurso dele tenta erguer uma espécie de manifesto identitário, algo raro num ambiente político que costuma trocar de pele mais rápido que aplicativo atualiza versão. Ao dizer que a primeira candidatura presidencial do PSD será “definidora”, Eduardo Leite admite, sem rodeios, que o partido ainda não tem uma identidade sólida. É uma sigla em construção, quase um rascunho com pretensões de obra final.

Mas o ponto central não está na candidatura em si. Está na encruzilhada. E ela é mais moral do que eleitoral. Ao mencionar indulto, anistia e a escolha entre polos, Eduardo Leite desenha o verdadeiro dilema: o PSD quer ser um partido com posição ou apenas um ponto de encontro confortável para quem evita confronto?

PSD entre o discurso e a prática: Eduardo Leite x Ronaldo Caiado

Eduardo Leite - PSD
Eduardo Leite (Divulgação/PSDB)

O PSD gosta de se vender como uma espécie de “centro funcional”, uma zona de conforto política onde tudo cabe e nada explode. É um partido que opera bem no pragmatismo, mas sofre quando precisa de narrativa. E eleição presidencial não é planilha, é roteiro. E roteiro exige personagem.

Eduardo Leite tenta oferecer esse personagem: um Brasil “diferente”, sem adesão automática a polos. A ideia é sedutora, quase poética, mas tropeça na realidade. No Brasil, quem não escolhe lado costuma ser engolido pelos lados. O centro vira intervalo comercial.

Ao colocar Ronaldo Caiado como contraponto, ainda que de forma elegante, Eduardo Leite escancara a disputa interna. Não é apenas sobre nomes, é sobre direção. Caiado representa uma linha mais alinhada a um campo político tradicionalmente mais conservador. Leite tenta puxar para um discurso mais moderado, quase técnico, com pitadas de projeto nacional.

O discurso pode até soar técnico, mas a prática já começou a desenhar fronteiras mais duras. Leite já deixou claro que não será candidato a vice caso o PSD escolha Ronaldo Caiado para a presidência. O que sem dúvidas é bem mais do que uma decisão pessoal, é um recado direto: não há espaço para conciliação confortável entre projetos que caminham em direções diferentes.

O problema é que o PSD, historicamente, nunca teve alergia a conveniências. E conveniência raramente combina com identidade firme. Fica parecendo aquele amigo que muda de opinião dependendo de quem paga a conta.

A falsa neutralidade como estratégia

A fala sobre “não adesão a um polo ou outro” soa bem no papel, mas na prática é um campo minado. Neutralidade, em política, muitas vezes é apenas um nome elegante para indecisão estratégica. E eleitor, convenhamos, não costuma se apaixonar por indecisão.

Eduardo Leite tenta vender a ideia de uma alternativa real de poder. Mas alternativa precisa de contraste. Precisa dizer o que não é. E aí entra a parte mais delicada: ao criticar indulto e anistia, ele dá sinais claros de posicionamento, mesmo tentando parecer acima da disputa.

Ou seja, o discurso de neutralidade já nasce com lado. Só não admite em voz alta. É como quem diz “não sou ciumento”, enquanto revisa o celular do outro escondido.

O PSD, nesse cenário, parece viver uma crise de sinceridade política. Quer ser independente, mas não quer perder trânsito. Quer ter discurso, mas sem fechar portas. E política sem porta fechada vira corredor — muita gente passando, pouca gente ficando.

Ronaldo Caiado como teste de realidade

Ronaldo Caiado se manifestou pelas redes sociais - PSD - Eduardo Leite
Ronaldo Caiado (José Cruz/Agência Brasil)

Ronaldo Caiado entra nessa história como mais do que um possível candidato. Ele funciona como um teste de realidade para o PSD. Se o partido optar por ele, assume uma identidade mais clara, ainda que divisiva. Se não optar, terá que explicar o que exatamente quer representar.

Leite reconhece convergências e divergências, mas deixa implícito que o ponto de ruptura é mais profundo. Não é sobre políticas públicas específicas, é sobre o tipo de país que se quer projetar. E, principalmente, sobre como esse projeto dialoga com o momento político atual.

A menção direta à anistia não é mero espirro de fala casual. É bem mais do que isso, trata-se de um marcador ideológico. Um divisor de águas. E ao trazer isso para o centro da discussão, Eduardo Leite força o PSD a sair do conforto técnico e entrar no campo simbólico, onde decisões custam mais caro.

E aí mora o risco. Porque, ao sair do meio, o partido precisa escolher onde pisa. Ou seja, o ato de “escolher”, fatalmente implica perder alguma coisa. Entretanto, no Brasil, geralmente, perde-se apoio de um lado enquanto se tenta conquistar o outro.

Um partido em busca de si mesmo

PSD - Partido Social Democrático - Eduardo Leite
(Divulgação/PSD)

No fundo, o discurso de Eduardo Leite é menos sobre 2026 e mais sobre identidade. É um chamado interno, quase um ultimato elegante: o PSD precisa decidir o que quer ser antes de decidir quem vai ser seu candidato.

E essa decisão não será limpa nem consensual. Vai envolver disputa, desgaste e, inevitavelmente, contradições. Porque o PSD é, por natureza, um partido de convivência ampla. E convivência ampla nem sempre combina com coerência rígida.

Eduardo Leite tenta empurrar o partido para um lugar de definição. Um lugar onde discurso e prática não sejam primos distantes. Resta saber se o PSD quer esse tipo de compromisso ou se prefere continuar sendo o espaço onde tudo cabe — inclusive a falta de identidade.

No fim, a questão não é se o PSD terá um candidato. Isso é quase inevitável. A questão é se terá um rosto reconhecível ou apenas mais uma figura genérica tentando parecer novidade num cenário que já viu esse filme algumas vezes.

E, como todo bom roteiro político brasileiro, a dúvida permanece no ar: o PSD vai escolher um caminho ou vai tentar caminhar em todos ao mesmo tempo — até tropeçar no próprio discurso?

  • Publicado: 25/03/2026 18:03
  • Alterado: 25/03/2026 18:03
  • Autor: João Pedro Mello
  • Fonte: ABCdoABC