Cannabis medicinal rompe barreiras e bate recorde no Brasil
O acesso ao tratamento avança no país com quase 200 mil autorizações da agência reguladora, mas a alta judicialização expõe falhas sistêmicas no modelo de saúde
- Publicado: 23/03/2026 17:03
- Alterado: 23/03/2026 17:03
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: ABCdoABC
Cannabis medicinal transformou o acesso à saúde e quebrou um paradigma histórico em 2025. O governo brasileiro concedeu quase 200 mil autorizações para a importação desses tratamentos ao longo do ano. Essa marca impressionante revela o esgotamento de um modelo arcaico. Pacientes com dores crônicas ou distúrbios neurológicos buscam alívio imediato e driblam a burocracia comprando medicamentos no exterior.
Os números da cannabis medicinal no Brasil
Os números absolutos de cannabis medicinal escancaram a nova realidade clínica. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu exatamente 194.682 permissões. O volume representa um salto de 16,3% em comparação ao ano de 2024. A plataforma Cannect, focada em terapias integrativas, obteve esses dados inéditos diretamente do governo federal utilizando a Lei de Acesso à Informação.
O pico da procura ocorreu em outubro. A agência federal liberou 19.710 pedidos apenas neste mês. O perfil de consumo também mudou rapidamente. Os brasileiros importam uma variedade imensa de formatos que facilitam a administração diária do tratamento e aumentam a adesão terapêutica.
Os formatos mais procurados pelos brasileiros
- Extratos e óleos com alta concentração de CBD.
- Formulações full spectrum com a planta inteira.
- Cápsulas de dosagem rigorosamente controlada.
- Terapias orais inovadoras em formato de gomas (gummies).
A agência registrou tímidas 850 autorizações em 2015, ano em que a primeira resolução sobre o tema entrou em vigor. A evolução constante culminou nos atuais recordes de importação. A regulamentação da RDC 660 sustenta juridicamente toda essa via de acesso excepcional para uso estritamente pessoal.
A consolidação da cannabis medicinal nas clínicas

Médicos e dentistas ampliam diariamente o uso da terapia canabinoide para gerenciar o transtorno do espectro autista (TEA), o Parkinson e a epilepsia refratária. O CEO da Cannect, Allan Paiotti, detalha a maturidade técnica que o mercado brasileiro atingiu neste último ciclo.
“Os dados mostram que a planta deixou de ser uma alternativa marginal e passou a ocupar um espaço mais consolidado na prática clínica. O crescimento das autorizações indica um amadurecimento do mercado e uma maior confiança por parte de médicos e pacientes, com perspectivas de expansão responsável, mais opções terapêuticas e segurança no uso.”
A restrição estatal imposta em setembro de 2023 testou a força do setor. O governo proibiu a importação de flores in natura, gerando uma retração temporária nas autorizações. O mercado reagiu rápido. A diversificação dos óleos e das formulações comestíveis garantiu a retomada do crescimento e blindou os pacientes contra a interrupção de seus cuidados médicos.
A importação de cannabis medicinal exige prescrição habilitada e uma liberação válida por dois anos.. Esse caminho difere frontalmente da compra local. A RDC 327/2019 rege os produtos de prateleira vendidos no Brasil, que sofrem com impostos altos e oferta restrita nas drogarias.
O caminho clínico mais seguro e econômico

O excesso de burocracia afasta muita gente que não dispõe de recursos financeiros ilimitados. O Dr. Rafael, especialista na área médica, esclarece qual é a rota mais segura e econômica para quem precisa iniciar o tratamento com cannabis medicinal sem gastar dinheiro à toa.
“O primeiro passo é entender que não é ‘produto de prateleira’, é tratamento e exige prescrição, critério clínico e acompanhamento. Na prática, o caminho mais viável começa com um profissional legalmente habilitado, como médico ou dentista, e vale checar se ele está regularizado no conselho. Isso não é só burocracia, é segurança clínica e também economia.”
O salto para as prateleiras de todos os bairros depende de uma mudança política profunda. A transformação do cuidado exige método. O médico Rafael lista as exigências científicas e governamentais necessárias para popularizar o tratamento.
“Para virar ‘medicamento comum’, precisa seguir a lógica de qualquer fármaco. Mais evidência clínica robusta, padronização de qualidade e farmacovigilância, além de previsibilidade produtiva para reduzir custos. O salto é transformar o cuidado de saúde de verdade, com evidência, qualidade e acesso, para deixar de ser nicho.”
Judicialização e o mercado bilionário

O faturamento projetado para o setor de cannabis medicinal beirou a marca de R$ 1 bilhão em 2025. O Anuário de 2025 identificou 873 mil brasileiros utilizando compostos derivados da planta, espalhados por mais de 85% dos municípios do país.
Terapias complexas ultrapassam facilmente a casa dos milhares de reais todos os meses. Famílias inteiras recorrem aos tribunais para forçar o custeio. A advogada especialista em Direito da Saúde, Anna Júlia Goulart, explica detalhadamente as quatro rotas legais de acesso vigentes no Brasil.
“A autorização e o acesso ocorrem, precipuamente, por quatro vias legais: a importação direta, a aquisição em farmácias com autorização sanitária, o fornecimento por meio de associações de pacientes que agora contam com um sandbox regulatório, e a via judicial, que atua como mecanismo de garantia.”
O peso do SUS na garantia de direitos

O Sistema Único de Saúde (SUS) absorve essa demanda crescente através de decisões proferidas por juízes. A advogada Anna Júlia Goulart detalha os pré-requisitos exigidos pelos tribunais quando o paciente processa o Estado.
“Quando não há legislação local ou o paciente não se enquadra nos protocolos existentes, o SUS pode ser compelido judicialmente a fornecer o tratamento. Nesses casos de judicialização, exige-se o preenchimento dos requisitos de laudo médico fundamentando a imprescindibilidade do produto, ineficácia dos fármacos já disponibilizados pelo SUS e a incapacidade financeira do paciente.”
A expansão da Cannabis Medicinal reflete um ritmo de emissões impressionante. O mapeamento federal de 2025 comprova a alta demanda mensal e a constância nas aprovações do governo.
- Janeiro: 14.045
- Fevereiro: 14.554
- Março: 14.485
- Abril: 15.771
- Maio: 17.156
- Junho: 14.303
- Julho: 16.312
- Agosto: 15.834
- Setembro: 16.955
- Outubro: 19.710
- Novembro: 18.570
- Dezembro: 16.687
A importação resolve o problema individual, mas a judicialização expõe a ferida aberta da saúde pública. O futuro da medicina canabinoide exige a criação urgente de protocolos estatais unificados. A garantia de um acesso justo, seguro e imediato à cannabis medicinal definirá a qualidade de vida de toda uma geração de pacientes crônicos no Brasil.