Violência contra a mulher pauta encontro de saúde em Santo André
Especialistas debatem no Hospital Estadual Mário Covas estratégias conjuntas de acolhimento e proteção de vítimas na região do ABC.
- Publicado: 19/05/2026 14:13
- Alterado: 19/05/2026 14:13
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: FUABC
O enfrentamento à violência contra a mulher reuniu profissionais de saúde, segurança pública e assistência social no Hospital Estadual Mário Covas (HEMC), em Santo André. O encontro ocorreu no dia 15 de maio, data que marca a regulamentação do Serviço Social no Brasil, para discutir estratégias conjuntas de proteção às vítimas e fortalecer a rede de apoio regional.
A quarta edição do evento técnico na unidade hospitalar debateu as fragilidades sociais que emergem durante o adoecimento e a internação. O diretor-geral do complexo, Murilo Dib, destacou a urgência do tema frente aos desafios atuais da sociedade. “O tema é muito relevante, apesar dos grandes avanços que já existem, pois ainda é um problema social muito grande“, afirmou o gestor.
Profissionais que atuam na linha de frente relatam que o cuidado clínico isolado não resolve o ciclo de agressões que muitas pacientes sofrem. A supervisora do Serviço Social do HEMC, Viviane Adorno, explicou a necessidade de interlocução constante. “O assistente social atua justamente nas fragilidades sociais e familiares que emergem durante a internação, o tratamento e a reabilitação“, detalhou a especialista.
Casos de internação prolongada exigem articulação rápida com a rede socioassistencial para garantir uma alta hospitalar segura e evitar o retorno ao ambiente hostil. Esse fluxo de atendimento integrado visa reduzir os impactos da violência contra a mulher, criando uma ponte entre o paciente, seus familiares e os equipamentos públicos de proteção.
Atuação policial e rede de apoio
O trabalho da segurança pública integra essa engrenagem de proteção e acolhimento municipal. A investigadora-chefe da Delegacia de Defesa da Mulher de Santo André, Marisa Silva, apresentou a realidade operacional do combate aos crimes de gênero. A policial detalhou o fluxo de registro de ocorrências, coleta de provas e pedidos de medida protetiva.
A dependência emocional e estrutural dificulta o rompimento das agressões por parte de muitas vítimas. “Todos os dias recebemos na delegacia mulheres querendo retirar o boletim de ocorrência“, revelou Marisa. A investigadora relatou apreensões recentes que ilustram a gravidade dos casos, incluindo armas improvisadas com alto potencial lesivo retiradas das mãos de agressores.
Estrutura psicológica e violência contra a mulher
O atendimento especializado complementa a ação policial ao oferecer suporte contínuo para quem decide denunciar. A psicóloga e coordenadora do serviço Vem Maria, Solange Fernandes Ferreira, apresentou o histórico do equipamento municipal criado em 1998. A unidade opera 12 horas diárias e oferece plantão da Defensoria Pública para assistência jurídica gratuita.
Estatísticas reforçam a vulnerabilidade de grupos específicos dentro do cenário nacional de crimes de gênero. Solange citou que, dos 1.492 casos de feminicídio registrados em 2024, 63,6% das vítimas eram negras. “Não dá para fazer essa conversa sem falar de racismo também”, pontuou a psicóloga ao contextualizar o viés racial nas agressões sofridas no país.
A desconstrução de estruturas sociais opressivas exige esforço coletivo e contínuo dos agentes públicos. A troca de experiências entre o ambiente hospitalar, as delegacias e os centros de referência evidencia que a escuta qualificada e a integração de serviços são as principais ferramentas no combate à violência contra a mulher.