Tributação de apostas pode inflacionar mercado clandestino

A nova carga fiscal sobre plataformas legalizadas ameaça o setor. Especialistas alertam para a migração massiva de usuários ao crime organizado.

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A tributação de apostas virou a engrenagem central do governo para financiar a PEC 18/2025. O projeto destina 30% da arrecadação líquida das cotas fixas ao Fundo Nacional de Segurança (FNS). O papel aceita tudo. A realidade do mercado digital reage de forma brutal. O Estado gastou 153 bilhões de reais com segurança em 2025. Esse montante representa um terço do PIB nacional.

O custo da legalidade e a tributação de apostas

O marco regulatório exige sacrifícios financeiros gigantescos das empresas de apostas licenciadas. Operadoras desembolsam 30 milhões de reais apenas em taxa de outorga. Elas precisam manter 5 milhões de reais congelados como reserva garantidora. O crime organizado não paga impostos e ignora o compliance. A carga fiscal iniciou em 12% sobre a receita bruta (GGR). O Congresso já aprovou uma escalada perigosa. O imposto saltará para 13% em 2026, 14% em 2027 e baterá 15% em 2028.

Essa pressão fiscal rápida e progressiva gera forte insegurança jurídica. O advogado Guilherme Sadi, especialista em iGaming, detalha o desequilíbrio competitivo e o tamanho do rombo nos cofres públicos.

“As casas clandestinas não cumprem nenhuma formalidade e continuam faturando. O mercado ilegal representa de 40% a 50% no Brasil, totalizando até 40 bilhões de reais anualmente. Isso traz uma perda fiscal de 10 bilhões de reais.”

Rastreio financeiro e a rota das criptomoedas

Derrubar sites irregulares virou um jogo infinito de gato e rato na internet. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) já eliminou 25 mil domínios ilegais. O fraudador simplesmente registra um novo endereço e volta a operar no dia seguinte. O estrangulamento verdadeiro exige asfixiar o fluxo de caixa na origem. A Portaria 566/2025 proíbe instituições de pagamento de abrirem contas para empresas sem licença.

O Banco Central ajuda no monitoramento do sistema bancário interno. O problema real reside nas fronteiras invisíveis da rede mundial de computadores. Plataformas sediadas no exterior utilizam gateways de pagamento internacionais. Elas aceitam ativos virtuais de forma indiscriminada. O peso punitivo do Estado perde força quando o dinheiro foge para carteiras de criptomoedas não rastreáveis pelas autoridades brasileiras.

Responsabilidade criminal e proteção de dados

A lei aperta o cerco contra quem divulga o mercado paralelo. Influenciadores digitais respondem de forma solidária pelos prejuízos causados aos seguidores que utilizam casas não licenciadas. A punição vai de advertências e multas severas de até 2 bilhões de reais à responsabilização criminal e cível.

O ambiente regulado entrega segurança real e auditável ao consumidor. Maurício Morishita, especialista em Direito Tributário, reforça a importância das travas tecnológicas exigidas pela Lei nº 14.790. Redes clandestinas ignoram o princípio do jogo responsável. Plataformas legalizadas aplicam bloqueios imediatos:

  • Identificação obrigatória do apostador (KYC) para frear a lavagem de dinheiro.
  • Ferramentas de autocontrole para estabelecer limites de perdas e autoexclusão.
  • Sistemas inteligentes de monitoramento de comportamento compulsivo.
  • Proibição absoluta de acesso para grupos vulneráveis e menores de 18 anos.

O futuro da fiscalização no ecossistema digital

A sobrevivência do setor depende de cooperação internacional contínua e repressão ativa às big techs. Lojas de aplicativos como Google e Apple precisam barrar softwares irregulares em suas plataformas. O Brasil necessita atingir os intermediários financeiros globais para secar a fonte da contravenção. Aumentar a carga sobre quem joga limpo financia a segurança pública apenas na teoria. Na prática diária, o desequilíbrio na tributação de apostas entrega o mercado de bandeja para as mãos do crime organizado.

  • Publicado: 23/03/2026 17:48
  • Alterado: 23/03/2026 17:49
  • Autor: 23/03/2026
  • Fonte: ABCdoABC