Título de cidadão a Lula gera crise política em Ribeirão Pires
Bastidores apontam pressão do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, após Câmara discutir retirada da homenagem ao presidente
- Publicado: 13/03/2026 13:11
- Alterado: 13/03/2026 14:35
- Autor: Márcio Prado
- Fonte: Assessoria
Em Ribeirão Pires, no ABC Paulista, uma crise política tomou conta dos bastidores do Legislativo municipal após a concessão do título de cidadão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A honraria havia sido aprovada na última semana pela Câmara Municipal em votação conjunta de requerimentos.
Nesta quinta-feira (12/3), porém, o episódio ganhou novos contornos. Segundo relatos de bastidores, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, teria reagido à possibilidade de revogação do título e ameaçado travar repasses federais destinados a Ribeirão Pires.
Aprovação em bloco gerou controvérsia em Ribeirão Pires
A concessão do título em Ribeirão Pires ocorreu durante uma votação em bloco, procedimento em que diversos requerimentos são reunidos em um único pacote e aprovados simultaneamente por meio de uma única deliberação.
Nos bastidores da Câmara de Ribeirão Pires, vereadores afirmaram que a homenagem ao presidente teria sido incluída no meio de outros requerimentos considerados prioritários para a cidade — uma espécie de “jabuticaba legislativa”, segundo relatos informais — o que teria facilitado sua aprovação sem maior debate.
Tentativa de revogação elevou tensão política

Pouco antes do início da sessão desta quinta-feira, vazou a informação de que parlamentares planejavam revogar a concessão do título de cidadão a Lula em meio a articulações políticas intensas e divergências internas dentro do Legislativo municipal.
Segundo interlocutores da Câmara de Ribeirão Pires, a estratégia política incluiria ainda a votação de um novo título honorário, desta vez para o senador Flávio Bolsonaro, apontado como possível pré-candidato à Presidência da República em futuras disputas eleitorais.
A notícia chegou rapidamente aos ouvidos do ministro Luiz Marinho. De acordo com apuração de bastidores, ele teria telefonado para uma liderança política local e advertido que o governo federal poderia suspender repasses de verbas federais para Ribeirão Pires caso a revogação fosse confirmada.
Clima de tensão entre Executivo e Legislativo

O episódio provocou forte mal-estar político entre integrantes do Legislativo municipal e o Executivo local.
Ainda segundo relatos que circularam nos corredores da Câmara, o ministro teria orientado a vereadora petista Fernanda Henrique a votar favoravelmente à concessão do título de cidadão ao senador Flávio Bolsonaro como forma de evitar desgaste político maior.
Contudo, no momento da votação, a vereadora deixou o plenário.
Procurada pela reportagem, Fernanda Henrique negou ter recebido qualquer orientação para votar a favor do título ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ela confirmou, entretanto, que participou de uma audiência com o ministro no mesmo dia e afirmou que ele demonstrava preocupação com a possibilidade de revogação da homenagem concedida a Lula.
Episódio levanta debate sobre interferência política
Caso se confirme a existência de ameaça de bloqueio de recursos federais, o episódio poderá ampliar o debate sobre pressões políticas entre o governo federal e administrações municipais.
Críticos avaliam que a utilização de repasses federais como instrumento de pressão política fragiliza o ambiente institucional e coloca em xeque a autonomia administrativa dos municípios.
O episódio ocorre em meio a um cenário de crescente polarização política no país, no qual decisões institucionais frequentemente são interpretadas à luz da disputa entre diferentes campos políticos.
Márcio Prado

Márcio Prado, mais conhecido como Peninha, carrega há anos o apelido inspirado no personagem dos gibis da Disney. Jornalista com mais de uma década de atuação, ele encontrou no jornalismo investigativo sua vocação, movido pela indignação diante de apurações superficiais e pela determinação em expor esquemas de corrupção, desvios de recursos e práticas ilícitas no poder público e na iniciativa privada. Seu trabalho vai além da publicação direta: muitas vezes contribui de forma anônima com órgãos de investigação, fortalecendo a cidadania e reafirmando o papel da imprensa como fiscal da sociedade.