Protesto no ABC expõe falta de apoio a entregadores de app

Com apenas 4 pontos de apoio em 7 cidades, categoria denuncia descaso da Keeta e 99Food enquanto iFood centraliza suporte insuficiente

Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

O barulho característico dos escapamentos e as buzinas em coro não eram apenas sinais de trânsito intenso na tarde desta quinta-feira (19). Em São Bernardo do Campo, dezenas de entregadores de app (aplicativo) transformaram o trajeto entre o Outlet Premium Imigrantes e o bairro Demarchi em um palco de reivindicação

Sob uma chuva persistente, a categoria parou para cobrar o básico: o direito a um banheiro, um copo de água potável e um local seguro para aquecer a própria marmita.

O movimento joga luz sobre um vácuo logístico em uma das regiões economicamente mais ativas do estado. O Grande ABC, que abriga milhares de profissionais do delivery, sofre com uma carência crônica de infraestrutura urbana voltada para esses entregadores de app. 

A denúncia central do protesto é o desequilíbrio: enquanto novas plataformas como a Keeta entram agressivamente no mercado e gigantes como a 99 mantêm operações consolidadas, o investimento em suporte físico para os entregadores de app não acompanha o ritmo do lucro.

Entregadores de app
Entregadores se reúnem em São Bernardo durante protesto. (Imagem: Redes Sociais)

O oásis insuficiente do iFood

Atualmente, o iFood é a única empresa que mantém estruturas próprias na região, os chamados Pontos de Apoio (PDAs). A reportagem apurou que existem apenas quatro dessas unidades para atender as sete cidades do ABC: duas em São Bernardo (uma própria no bairro Anchieta e uma parceria no Taboão), uma em Santo André e outra em São Caetano do Sul. Esses locais servem de suporte estratégico inclusive para campanhas governamentais focadas nos entregadores de app.

O entregador Raphael Bortolin, que atua na região, reconhece a qualidade desses espaços, mas aponta a falha na escala. “Pela minha experiência em Santo André, é tudo bem organizado, higiênico, tem micro-ondas e até geladeira. É bem acolhedor“, relata. 

No entanto, a geografia da região joga contra a dignidade. Para um entregador que está no centro de Diadema ou Mauá, rodar quilômetros para acessar um banheiro oficial significa perder tempo de trabalho e, consequentemente, dinheiro. “Dependendo de onde você está, fica inviável ir até o ponto. Às vezes não dá tempo“, completa Bortolin.

As concorrentes pedem carona

Entregador - Keeta - entregadores de app
Keeta não dispõe de pontos de descanso para entregadores da marca na região. (foto: Divulgação)

Um dos pontos mais sensíveis da denúncia é o que podemos chamar de carona estrutural. Como o iFood afirma que seus pontos são abertos a todos os entregadores de app, independentemente do aplicativo, empresas como Keeta e 99Food acabam sendo beneficiadas por uma estrutura que não ajudaram a construir ou financiar.

Boa parte dos entregadores de app trabalha para outras plataformas simultaneamente para fechar a renda. Você pode chegar lá (no ponto de apoio do iFood, carregar o celular e usar o banheiro sem ser barrado“, explica o profissional de entrega. No entanto, essa hospitalidade corporativa esconde a inércia das concorrentes. 

A 99Food, ao ser questionada pela reportagem do ABCdoABC, esquivou-se de detalhar investimentos próprios no ABC, enviando uma nota genérica da Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia), que menciona parcerias com estabelecimentos, sem listar um único endereço funcional focado ao descanso dos entregadores de app na região.

Já a Keeta, que opera há pouco mais de quatro meses em São Bernardo do Campo e tem sido alvo de críticas pela falta de diálogo com a categoria, optou pelo silêncio absoluto. Até o fechamento desta reportagem, a empresa não se manifestou sobre a ausência de infraestrutura para seus parceiros.

A sobrevivência no improviso dos entregadores de app

99food - entregadores de app
A 99Food disse usar estrutura de parceiros. (foto: Wagner Alvarez)

Na falta de redes de apoio oficiais, o cotidiano do entregador é ditado pelo improviso. A busca por uma tomada ou um banheiro vira uma negociação diária com donos de bares e frentistas de postos de gasolina. A tecnologia, que deveria facilitar o trabalho, torna-se um peso: 

Noventa por cento dos motoboys levam um powerbank de casa. Não compensa ficar parado carregando o celular porque os pedidos continuam tocando e você não pode deixar o aparelho sozinho“, revela Raphael Bortolin.

Para quem utiliza a bicicleta, como é o caso de Bortolin, o cenário de chuva enfrentado no protesto de quinta-feira beira o insuportável. Além do cansaço físico extremo, há o risco iminente de acidentes. “Tudo fica mais pesado. O asfalto fica escorregadio e os carros muitas vezes não te veem. Você tem que pilotar por você e pelos outros. É um desgaste gigante, tanto físico quanto mental“, desabafa o ciclista.

O futuro da regulação do serviço no ABC

O protesto em São Bernardo não é um fato isolado, mas o sintoma de uma pressão crescente por regulamentação municipal. Especialistas apontam que, enquanto as plataformas tratarem os pontos de apoio como benefícios opcionais e não como normas de saúde e segurança do trabalho, a cena de entregadores almoçando em calçadas sob chuva continuará sendo parte da paisagem urbana do ABC.

A categoria promete novas mobilizações caso as empresas mencionadas não apresentem um cronograma de instalação de estruturas próprias. Por enquanto, os entregadores de app do ABC seguem pedalando e pilotando em um cenário onde a eficiência do algoritmo contrasta drasticamente com a precariedade do suporte humano.

O que dizem as plataformas de entrega?

iFood - Entregador de Delivery - entregadores de app
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Em nota enviada ao ABCdoABC, o IFood declarou:

O iFood reconhece a importância dos Pontos de Apoio para a rotina de entregadores e entregadoras e mantém o compromisso de ampliar o suporte oferecido aos parceiros, contribuindo para mais conforto e estrutura no dia a dia de trabalho.

Atualmente, a empresa conta com 41 Pontos de Apoio em 21 cidades do Brasil, incluindo espaços próprios e parcerias com instituições públicas e privadas. Em São Bernardo do Campo, por exemplo, são duas unidades: um ponto próprio, localizado na Rua Olegário Herculano, 200 (Anchieta), e outro, recém-inaugurado, em parceria com o Pastel da Mi, na Avenida do Taboão, 4370.

Os espaços próprios oferecem água potável, banheiros, áreas de descanso e pontos de recarga de celular. Em algumas localidades, também há geladeira e micro-ondas. As estruturas são abertas a todos os entregadores, inclusive de outras plataformas, reforçando o papel dos Pontos de Apoio como uma iniciativa voltada ao bem-estar de toda a categoria.

Por meio da Amobitec, a plataforma 99Food emitiu o seguinte comunicado:

As empresas associadas da Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia) possuem uma rede de pontos de apoio no país por meio de parcerias com estabelecimentos comerciais que oferecem sua estrutura para pausas aos motoristas/entregadores durante viagens ou retiradas de pedidos a serem entregues.  

O suporte também se observa em parcerias com estabelecimentos para manutenção dos veículos, postos de abastecimento, assim como operadoras de internet móvel.    

As plataformas seguem em colaboração para discutir esse tema com as autoridades, buscando soluções que atendam os trabalhadores adequadamente e dentro da demanda e da oferta de serviços de cada localidade.” 

A plataforma Keeta também foi procurada para se manifestar sobre as reivindicações dos entregadores de app, mas até o fechamento desta reportagem, não obtivemos retorno.

  • Publicado: 20/03/2026 18:35
  • Alterado: 20/03/2026 18:35
  • Autor: 20/03/2026
  • Fonte: ABCdoABC