Polícia Federal prepara divisão para combater bets ilegais
Reestruturação prevê áreas para investigar bets ilegais, manipulação esportiva e lavagem com criptoativos após a proibição nacional das apostas no país
- Publicado: 02/10/2026 12:35
- Alterado: 02/10/2026 12:35
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: ABCdoABC
A proibição das bets no Brasil deve provocar uma reorganização dentro da Polícia Federal para ampliar a capacidade de investigar o mercado clandestino de apostas. A corporação prepara uma estrutura permanente dedicada ao setor, que também deverá alcançar casos de manipulação de resultados esportivos e esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo ativos virtuais.
A proposta foi formalizada pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e encaminhada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, segundo apuração publicada pela Folha de S.Paulo. O plano prevê a criação de uma Divisão de Repressão a Apostas Ilegais dentro de uma reformulação mais ampla das áreas responsáveis pelo enfrentamento financeiro ao crime organizado.
A movimentação ocorre uma semana depois da edição da Medida Provisória 1.394/2026, que proibiu em todo o território nacional a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa. A medida alcança tanto apostas esportivas das bets, quanto jogos online.
Polícia Federal quer estrutura permanente contra bets e apostas ilegais

A reorganização proposta pela Polícia Federal vai além da criação de uma unidade para investigar bets e plataformas clandestinas. O novo organograma também prevê uma Divisão de Repressão à Manipulação de Resultados Esportivos e um serviço especializado em crimes de lavagem de dinheiro envolvendo ativos virtuais, como criptomoedas.
Essas estruturas ficariam ligadas a uma nova Coordenação-Geral de Repressão à Lavagem de Dinheiro e Recuperação de Ativos, subordinada à Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor). A proposta ainda contempla uma área específica para recuperação de ativos. O trabalho envolve a localização e investigação de patrimônio relacionado a crimes, além do acompanhamento da administração e destinação de bens alcançados pelas investigações.
Segundo a apuração da Folha, o desenho apresentado pela Polícia Federal prevê 17 unidades administrativas, com o aproveitamento de três estruturas que já existem. O impacto financeiro mensal estimado para a reorganização é de R$ 44,9 mil.
Governo tenta fechar espaço para mercado clandestino
A necessidade de ampliar a fiscalização ganhou outra dimensão depois que o governo federal decidiu proibir as apostas de quota fixa. A MP 1.394, publicada em 25 de setembro, interrompeu o modelo regulatório que estava em funcionamento no país e estabeleceu regras para a retirada das empresas do mercado.
As apostas esportivas haviam sido legalizadas em 2018. A regulamentação do setor foi posteriormente estabelecida pela Lei 14.790/2023 e implementada pelo Ministério da Fazenda, com exigências para que empresas fossem autorizadas a operar nacionalmente. Com a mudança de setembro de 2026, a exploração das bets passou a ser proibida. O governo também criou um comitê interinstitucional para coordenar a fiscalização e o combate à oferta e à publicidade ilegal dessas plataformas.
A dimensão desse mercado paralelo começou a aparecer nos primeiros dias após a mudança. Em 29 de setembro, os ministérios da Justiça e da Fazenda informaram ter solicitado a derrubada de 5.209 domínios relacionados a apostas irregulares.
Também foram solicitadas remoções de páginas e perfis utilizados para divulgação das plataformas. O cronograma federal estabeleceu 5 de outubro como prazo para retirada de publicidade e sites notificados e 6 de outubro para que lojas de aplicativos retirem 186 aplicativos identificados pelas autoridades.
Investigações já movimentam bilhões em bloqueios

A Polícia Federal já atuava contra bets, apostas clandestinas e manipulação de resultados antes da proposta de uma divisão permanente. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Justiça, a corporação realizou 12 operações relacionadas a essas práticas entre março de 2023 e agosto de 2026.
As investigações resultaram em pelo menos 73 mandados de busca e apreensão e 15 mandados de prisão em diferentes estados e no Distrito Federal. Nesse período, a PF solicitou à Justiça o sequestro de aproximadamente R$ 4,17 bilhões em bens e valores relacionados aos casos investigados.
Em maio de 2026, a corporação já havia criado um grupo temporário para atuar em investigações sobre manipulação de resultados, fraudes relacionadas a bets, apostas e plataformas ilegais. A previsão inicial era de funcionamento durante um ano. A estrutura agora proposta busca transformar parte dessa atuação em unidades permanentes. A reformulação ainda precisa percorrer a tramitação administrativa do governo federal antes de sua implementação.