Lula reúne 1,6 milhão de espectadores no Flow e provoca rivais

Após a Globo cancelar o debate, Lula escolheu o Flow, enquanto Flávio Bolsonaro fez live com aliados; transmissões marcaram a reta final da campanha

Crédito: (Reprodução/YouTube)

O debate presidencial que deveria colocar candidatos frente a frente na última quinta-feira antes das eleições não aconteceu. No lugar dos púlpitos da TV Globo, a principal disputa política da noite de 1º de outubro ocorreu diante das câmeras do YouTube. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou por cerca de 1h40 minutos com Igor 3K no Flow Podcast, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) reuniu aliados em uma transmissão própria. Sem confronto direto entre os dois principais candidatos, cada campanha procurou ocupar seu espaço na internet a três dias do primeiro turno.

Às 22h40, 1.640.193 pessoas acompanhavam simultaneamente Lula no canal do Flow, enquanto a transmissão de Flávio registrava 534.560 espectadores. O canal oficial do presidente mantinha outras 153.683 pessoas conectadas à entrevista naquele mesmo instante. Os números representam uma fotografia da audiência naquele horário e não o total de pessoas que passaram pelas transmissões nem a média de público durante a noite. Levantamentos feitos em outros momentos registraram números diferentes e picos superiores para os dois candidatos.

O tamanho do público devolveu ao Flow um protagonismo que o programa já havia experimentado na campanha de 2022. Naquele ano, Lula chegou a mais de 1 milhão de espectadores simultâneos durante a disputa do segundo turno contra Jair Bolsonaro. Quatro anos depois, voltou ao programa como presidente da República e candidato à reeleição, desta vez diante de perguntas sobre decisões tomadas no próprio governo, denúncias envolvendo pessoas próximas, relações com o Congresso, crise no Banco Master, Supremo Tribunal Federal e apostas on-line.

A entrevista de 2026 também carregou um componente que não existia quatro anos antes. Lula escolheu o Flow depois de decidir que não participaria do último debate da Globo, encerrando o primeiro turno sem comparecer aos confrontos televisivos entre os presidenciáveis. Flávio, que inicialmente participaria do programa, anunciou a desistência poucas horas antes e preferiu fazer uma live.

Sem debate, candidatos buscaram audiência própria

Live Flávio Bolsonaro
(Reprodução/YouTube)

O cancelamento da Globo não ocorreu apenas pelas ausências. Decisões judiciais tomadas próximo ao horário do programa alteraram regras previamente estabelecidas. Uma delas impediu a emissora de exibir o púlpito vazio de Lula. Outra interferiu na composição dos participantes. A Globo afirmou que as mudanças de última hora provocaram insegurança jurídica e interferiram na liberdade da emissora para organizar o encontro. Parte dos candidatos já estava nos estúdios quando recebeu a informação de que o debate não seria realizado.

Lula havia comunicado sua ausência anteriormente. Flávio desistiu no próprio dia. A decisão dos dois retirou do último debate antes da votação os candidatos que concentravam as maiores intenções de voto nas pesquisas daquele momento. Em vez de dividirem o mesmo palco, passaram a noite em transmissões paralelas.

No Flow, Igor 3K começou justamente perguntando por que Lula estava ali e não na Globo. O presidente respondeu inicialmente em tom descontraído, dizendo gostar mais do apresentador do que da emissora, e depois apresentou uma crítica ao modelo dos debates. Disse considerar inadequada a distribuição de tempo entre candidaturas com desempenhos eleitorais muito diferentes e reclamou de encontros que, em sua avaliação, favorecem ataques e frases destinadas a circular como cortes nas redes sociais.

Do outro lado do YouTube, Flávio utilizou a live para atacar Lula, criticar a Justiça Eleitoral e mobilizar apoiadores. Participaram da transmissão aliados como Nikolas Ferreira e Carlos Bolsonaro. O senador pediu um “voto de revolta” e afirmou que pretendia derrotar o presidente já no primeiro turno. A live também recuperou acusações contra Lula, algumas delas classificadas como falsas em checagem realizada pela Agência Lupa durante a transmissão.

A noite terminou, portanto, sem a dinâmica que caracteriza um debate. Lula não precisou responder diretamente a Flávio, Flávio não foi confrontado pelo presidente e os demais candidatos perderam a oportunidade de questionar os dois no mesmo ambiente. O eleitor recebeu duas transmissões construídas em formatos diferentes e voltadas a públicos que podiam escolher qual delas acompanhar.

Banco Master levou a conversa para dentro do governo

Passada a explicação sobre a ausência na Globo, a entrevista entrou em assuntos mais desconfortáveis para o presidente. Um deles foi a crise envolvendo o Banco Master. Igor perguntou se o caso poderia ser considerado a maior crise brasileira. Lula respondeu que ainda não, embora tenha admitido que o episódio pode ganhar dimensão maior, e citou outros períodos graves da história do país, entre eles o golpe militar de 1964.

O presidente defendeu que as investigações alcancem todos os envolvidos, independentemente da posição ocupada. O assunto também permitiu que Lula atacasse Flávio Bolsonaro, mencionando relações do adversário com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e outros episódios que se tornaram pauta durante a campanha.

A entrevista, entretanto, não ficou restrita às relações do adversário com o caso. Igor levou para a conversa nomes próximos ao próprio presidente. Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, foi questionado durante o programa. Lula afirmou que, caso o filho tenha cometido algum delito, deverá responder e disse que não haverá proteção da Polícia Federal. Também negou conhecer Roberta Luchsinger, personagem de investigações recentes.

Esse trecho diferenciou a conversa de uma entrevista concentrada apenas na estratégia eleitoral. O presidente precisou responder a questões que atingem sua família e pessoas associadas ao seu entorno político, ao mesmo tempo em que cobrava investigação sobre adversários.

Lula propôs rever indicação de ministros do STF

O Supremo Tribunal Federal ocupou outro trecho relevante. Igor questionou Lula sobre o caráter político das indicações para a Corte, já que os ministros são escolhidos pelos presidentes da República e posteriormente submetidos ao Senado.

Lula respondeu que os Poderes precisam respeitar suas atribuições e recordou que ministros indicados durante seus próprios governos tomaram decisões contrárias ao PT no julgamento do mensalão. Na sequência, foi além da defesa do modelo atual e falou em uma nova reforma do Judiciário. Entre as possibilidades citadas, defendeu que a escolha para o Supremo deixe de depender exclusivamente do presidente e passe a envolver um conselho.

A proposta apareceu em meio a uma eleição na qual o STF voltou a ocupar posição central no confronto político. Lula também mencionou os ataques de bolsonaristas à Corte e relacionou parte dessa ofensiva à prisão de Jair Bolsonaro. Trata-se da interpretação apresentada pelo presidente durante a entrevista, contestada por adversários que atribuem suas críticas ao tribunal a decisões e à atuação de seus ministros.

Emendas parlamentares entraram na mira

A relação com o Congresso apareceu quando Lula tratou das emendas parlamentares. O presidente afirmou que o mecanismo precisa ser modificado e disse que aguardará o resultado das eleições para discutir mudanças. “Nós vamos aguardar o resultado eleitoral, mas precisamos mudar esse mecanismo das emendas parlamentares”, declarou.

Uma alteração nessa área não depende apenas da Presidência. As emendas fazem parte da disputa entre Executivo e Legislativo pelo controle do Orçamento e mudanças relevantes exigiriam negociação com deputados e senadores, além da observância das regras constitucionais.

A declaração é especialmente significativa porque antecipa um possível ponto de conflito para o próximo mandato presidencial. Caso seja reeleito, Lula terá de negociar justamente com o Congresso qualquer tentativa de rever a distribuição e execução desses recursos.

Bets renderam cobrança sobre decisão na reta final

Outro tema que chegou à mesa foi a decisão do governo de agir contra as apostas on-line. Igor questionou por que Lula tomou a medida tão próximo da eleição. O presidente disse que não conhecia a dimensão do problema e que conversas com pessoas afetadas pelo endividamento mudaram sua percepção sobre a urgência da questão. Também afirmou acreditar que o Congresso não derrubará a medida e indicou disposição para disputar politicamente sua manutenção.

O assunto aproximou a entrevista de uma discussão que atravessa economia, saúde e regulação. Em vez de aparecer apenas como promessa eleitoral, Lula precisou explicar por que uma decisão de forte repercussão foi tomada somente nos últimos dias antes da votação.

Margem Equatorial, Trump e petróleo

A conversa também passou pela exploração de petróleo na Margem Equatorial. Lula defendeu o projeto, disse que a atividade ocorre distante de territórios indígenas e aproveitou o assunto para provocar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Se der certo o petróleo na Margem Equatorial, o Trump vai morrer de inveja”, afirmou.

Trump apareceu novamente quando Igor perguntou sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil. Lula contestou o argumento utilizado pelo governo norte-americano e citou o superávit dos Estados Unidos na relação comercial bilateral.

A Margem Equatorial é objeto de disputa ambiental e econômica no Brasil. O governo defende o potencial de exploração como ativo estratégico, enquanto organizações ambientais questionam os riscos para ecossistemas da região. A fala de Lula no Flow reiterou a posição favorável à exploração sob autorização e fiscalização ambiental.

Educação, feminicídio e medicamentos pelo SUS

Nem toda a entrevista ficou concentrada nas crises políticas. Lula voltou a apresentar a educação como uma de suas prioridades e citou a expansão de universidades e institutos federais realizada em seus governos. Ao tratar da violência contra mulheres, mencionou o Pacto contra o Feminicídio, articulado entre Executivo, Congresso e STF, e uma medida relacionada ao pagamento de benefício pelo INSS a mulheres com medidas protetivas em casos de violência doméstica.

Igor também perguntou sobre medicamentos emagrecedores no SUS. Lula afirmou que eventual distribuição não ocorrerá indiscriminadamente e deverá seguir critérios e procedimentos médicos. Quando a conversa chegou ao custo das políticas públicas, o apresentador questionou o impacto sobre as contas do governo. Lula respondeu recorrendo à própria experiência como trabalhador e defendeu maior contribuição dos mais ricos, mencionando também a entrada em vigor da reforma tributária em 2027.

Um recado para jovens e outro para quem já passou dos 70

Na reta final da conversa, Lula utilizou o alcance do programa para falar diretamente com grupos de eleitores. Pediu que pessoas com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo, compareçam às urnas. “O Brasil não parou porque você fez 70 anos. Então, é preciso que você vote”, disse.

Aos jovens, respondeu à insatisfação com a política defendendo participação direta. Disse que também havia sido rebelde e sugeriu que quem considera insuficientes as respostas atuais participe de partidos e procure interferir nas decisões públicas.

Os dois recados têm peso eleitoral evidente a três dias da votação. Lula também demonstrou confiança de que o resultado poderá ser definido já no domingo, enquanto sua campanha tenta ampliar comparecimento e mobilização na última etapa do primeiro turno

Quatro anos depois, outro Lula diante do Flow

A comparação com 2022 ajuda a compreender a dimensão política da entrevista. Na primeira passagem de Lula pelo Flow durante uma campanha presidencial, ele era ex-presidente, havia recuperado os direitos políticos e disputava o segundo turno contra Jair Bolsonaro. A entrevista ultrapassou 1 milhão de espectadores simultâneos e discutiu aborto, drogas, corrupção, Petrobras, Lava Jato, economia, Neymar e a aliança com Geraldo Alckmin.

Naquela ocasião, Lula negou que pretendesse criar banheiros unissex nas escolas, declarou-se contrário ao aborto, disse que a discussão sobre legalização de drogas caberia ao Congresso ou ao Supremo e voltou a atacar a atuação de Sergio Moro na Lava Jato. Também pediu aos brasileiros que comparecessem ao segundo turno.

Em 2026, as perguntas mudaram porque a posição de Lula mudou. Ele chegou ao Flow não como um ex-presidente tentando retornar ao Planalto, mas como presidente em busca de mais um mandato. Isso trouxe para a mesa decisões tomadas durante os últimos quatro anos e cobranças sobre pessoas próximas ao governo.

O formato permaneceu semelhante. Sem cronômetro apertado e sem adversário no estúdio, Igor pôde alternar temas durante cerca de 100 minutos. Lula teve tempo para elaborar respostas, fazer provocações e mudar de assunto sem a dinâmica de réplica característica de um debate.

Confira a live completa:

A disputa pela audiência também virou notícia

Enquanto Lula respondia no Flow, Flávio tentava construir sua própria alternativa ao debate cancelado. A live do candidato do PL reuniu aliados e funcionou simultaneamente como mobilização de apoiadores e espaço para ataques ao presidente.

Às 22h40, quando a Veja registrou as duas transmissões, o Flow tinha 1,64 milhão de espectadores simultâneos, e Flávio, 534,5 mil. O canal de Lula acrescentava outros 153,6 mil à entrevista. Posteriormente, outros levantamentos registraram picos de aproximadamente 1,7 milhão para Lula e 900 mil para Flávio. Na manhã desta sexta-feira (2), a entrevista de Lula no Flow já acumulava 9,8 milhões de visualizações no YouTube, ampliando a repercussão do conteúdo após o encerramento da transmissão ao vivo.

O dado mais relevante não está apenas em qual transmissão registrou o maior número. A três dias da eleição presidencial, os dois candidatos que dominavam a disputa trocaram o confronto presencial por canais nos quais controlavam melhor as condições de exposição. Lula respondeu a um entrevistador durante uma conversa longa. Flávio falou ao lado de aliados. Os candidatos que compareceriam à Globo perderam o último espaço previsto para questioná-los diretamente.

Essa configuração encerrou a agenda de debates do primeiro turno sem que Lula e Flávio se enfrentassem. A Associated Press destacou que foi a primeira vez em duas décadas que os principais candidatos evitaram um confronto direto nessa etapa da eleição.

  • Publicado: 02/10/2026 07:30
  • Alterado: 02/10/2026 08:19
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC