Peaky Blinders retorna em filme que consagra o fenômeno Shelby
O novo longa-metragem da Netflix marca a volta de Cillian Murphy ao papel de Thomas Shelby e explora a conexão do personagem com o público brasileiro.
- Publicado: 21/03/2026 10:32
- Alterado: 21/03/2026 10:33
- Autor: Gabriel de Jesus
- Fonte: Netflix
A estreia de Peaky Blinders: O Homem Imortal na última sexta-feira (21/03), na Netflix, traz de volta a figura magnética de Thomas “Tommy” Shelby. A cena de abertura define o tom do retorno: Shelby entra em um pub, desarma um soldado hostil com uma granada e reafirma a autoridade que o tornou um fenômeno mundial entre 2013 e 2022. Para além das telas, o líder da gangue de Birmingham encontrou uma ressonância inesperada nas periferias do Brasil e no imaginário masculino digital.
Do trauma da guerra à ascensão no crime
A trajetória dos Peaky Blinders começa com o trauma. Tommy e seus irmãos, Arthur e John, retornaram da Primeira Guerra Mundial para uma Birmingham devastada. A busca por prosperidade através de apostas ilegais e estratégia implacável é o motor da série.
O ator Cillian Murphy, vencedor do Oscar em 2024, destaca a psicologia do personagem:
“Esses homens foram cuspidos de volta à sociedade após a guerra e lidavam com traumas terríveis. O Tommy é obstinado. Ele transforma isso em uma ambição implacável”, afirma Murphy.
O impacto de Peaky Blinders nas periferias brasileiras
Embora ambientada na Inglaterra dos anos 1920, a mística dos Peaky Blinders atravessou o oceano. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, a figura de Shelby tornou-se um arquétipo de resiliência. Segundo Marx Saraiva, pesquisador da Unifesp, há uma identificação direta com a luta pela ascensão social em ambientes hostis.
Essa influência é nítida na cultura urbana nacional:
- Música: Hits de funk e trap, como “Tropa do Shelby” e “Arte Como Crime”, utilizam samples da dublagem e referências visuais da gangue.
- Estética: O corte de cabelo “disfarçado” com as laterais raspadas tornou-se padrão em barbearias periféricas.
- Linguagem: O lema “frio e calculista” transformou-se em uma filosofia de vida viralizada.
O rapper Ami$h, do coletivo Covil do Flow, reforça que a conexão não é com o crime, mas com a sobrevivência:
“O lance é ser alguém que vai contra o sistema em prol de ajudar a família, de ter ambição de fazer dinheiro. No nosso meio, precisa ser frio e calculista”, diz o músico.
Masculinidade e o fenômeno dos sigmas
Fora das comunidades, a imagem de Thomas Shelby alimenta o debate sobre a masculinidade contemporânea. Nas redes sociais, o personagem é frequentemente associado ao conceito de “homem sigma” — indivíduos introspectivos e independentes.
Para a especialista Maria Carolina Medeiros, da FGV, esse fenômeno reflete uma crise de identidade:
“Os homens perderam o protagonismo que estavam acostumados a ter. Talvez esses personagens encarnem a dualidade que o homem moderno está sentindo. Eles estão órfãos de modelos de masculinidade.”
O acerto de contas em O Homem Imortal
No novo filme, a trama de Peaky Blinders foca no conflito geracional. Tommy precisa lidar com o distanciamento do filho, Duke (Barry Keoghan), enquanto enfrenta a ameaça de agentes fascistas que tentam cooptar a influência da família Shelby. O longa expõe o preço da “frieza”: a solidão de um homem que sacrificou tudo pelo poder.