Museu Judaico de São Paulo abre mostra com 60 obras

O espaço cultural resgata meio século de vanguarda onde o Museu Judaico de São Paulo reúne acervo pioneiro da artista Gretta Sarfaty a partir do dia 13

Crédito: Divulgação

Cinco décadas de experimentação estética rompem o silêncio da representação feminina na capital. O Museu Judaico de São Paulo inaugura no dia 13 de novembro a exposição Diáfana, retrospectiva monumental que reúne mais de 60 trabalhos históricos de Gretta Sarfaty, ícone incontornável da arte feminista e da body art no país. O projeto ocupa o segundo subsolo da instituição até 11 de abril de 2027, exibindo instalações, fotografias raras, fotólitos manipulados, registros de performance e vídeos autorais criados entre 1976 e 2023.

A curadoria assinada por Patricia Wagner estrutura a visitação como uma jornada de fricção entre intimidade e exibicionismo. Sarfaty converteu a própria carne em instrumento de insurgência conceitual em pleno regime militar, recusando o papel passivo de musa para assumir o protagonismo criador. A montagem no Museu Judaico de São Paulo joga luz sobre essa trajetória corajosa, confrontando padrões conservadores ao tratar a identidade e a maturidade como territórios instáveis de criação permanente.

O próprio título da mostra sintetiza os artifícios visuais explorados pela criadora. Superfícies reflexivas, espelhos com distorção, gases, vapores, vidros e rendas atuam como filtros deliberados que fragmentam o olhar do público, comprovando que qualquer retrato carrega ausências fundamentais.

Museu Judaico de São Paulo expõe cinco décadas de vanguarda

Museu Judaico de São Paulo abre mostra com 60 obras
Museu Judaico de São Paulo – (Foto: Fernando Siqueira)

A trajetória cosmopolita da artista explica a densidade das séries reunidas na galeria subterrânea. Nascida em Atenas em 1947 e radicada no Brasil desde 1955, Sarfaty transitou com desenvoltura pelos círculos de vanguarda em Paris, Milão, Londres e Nova York, antecipando debates sobre autonomia corporal que apenas recentemente ganharam as salas de leilão mundiais:

  • A seminal série Auto-Photos (1976), com manipulações manuais em negativos fotográficos de matriz analógica;
  • A fase performática e gestual de Evocative Recollections (1978–1981), com experimentações corporais diretas;
  • Os desdobramentos conceituais de Metamorphic Recollections (1981–1985) e o misticismo cabalístico de Kabbalah (1985);
  • As indagações maduras de Reflections of a Woman (1991–1997) e a escultura espacial Inside the Box (2023).

As criações da artista integram acervos de ponta do circuito museológico global, figurando nas coleções do MASP, da Pinacoteca de São Paulo, do Instituto Inhotim, do Museo Reina Sofía e do Museu de Serralves. A parceria institucional com a Central Galeria viabilizou a reunião dessas peças dispersas em uma narrativa unificada:

“O que se vê depende também daquilo que se interpõe entre o olhar e seu objeto. A pesquisa tensiona os limites entre presença e ausência, intimidade e exposição, corpo e representação artística.”

Essa dimensão política da carne reverbera com força renovada no ambiente urbano contemporâneo. A exposição mostra como a artista desarmou o voyeurismo masculino há cinquenta anos, inventando linguagens que continuam desafiando os discursos prontos das redes digitais.

Estrutura do MUJ e programação acessível

A sede da entidade cultural abriga o maior patrimônio documental judaico da América Latina, distribuído em quatro pavimentos dedicados ao diálogo intercultural, à defesa dos direitos fundamentais e ao combate sistemático ao preconceito. A estrutura dispõe de biblioteca especializada com mais de mil volumes catalogados, cafeteria típica comandada por chefs convidados e espaços de debate:

  • Edifício adaptado com rampas e elevadores para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida;
  • Ingressos acessíveis tabelados a R$ 24 (inteira) e R$ 12 (meia-entrada);
  • Acesso totalmente gratuito aos sábados para todo o público espontâneo;
  • Funcionamento contínuo de terça a domingo, das 10h às 18h, com última entrada às 17h30.

O endereço na Rua Martinho Prado, número 128, no bairro da Bela Vista, situa a mostra a poucos passos das estações centrais de metrô. Os bilhetes com reserva de horário podem ser emitidos previamente pelo portal digital da instituição para evitar filas na bilheteria.

A retrospective resgata o pioneirismo de uma das mentes mais radicais da arte nacional. Ao oferecer um panorama crítico e completo dessas criações históricas, o Museu Judaico de São Paulo reafirma a relevância da vanguarda feminista na formação da sensibilidade estética do país.

  • Publicado: 06/11/2026 07:25
  • Alterado: 06/11/2026 07:29
  • Autor: Leonardo Nogueira
  • Fonte: Assessoria