Morre Jürgen Habermas, filósofo alemão aos 96 anos

O mundo se despede de Jürgen Habermas, o filósofo da ação comunicativa, que faleceu aos 96 anos na Alemanha. Confira seu legado democrático.

Crédito: Reprodução/X-Twitter

Jürgen Habermas, um dos sociólogos e filósofos mais influentes do século 20 e 21, faleceu neste sábado (14), aos 96 anos. A notícia foi confirmada pela editora Suhrkamp Verlag. O pensador morreu em Starnberg, na Alemanha, deixando um legado inestimável sobre a democracia, a ética e a importância da comunicação nas sociedades modernas.

O legado da Escola de Frankfurt e a Teoria Crítica

Herdeiro e transformador da Escola de Frankfurt, Jürgen Habermas dedicou sua vida a entender como a razão e o diálogo poderiam salvar as democracias do autoritarismo. Diferente de seus antecessores, como Adorno e Horkheimer, ele buscou uma visão mais otimista, porém vigilante, sobre a capacidade humana de se entender através da linguagem.

Em sua obra-prima, Teoria da Ação Comunicativa (1981), o filósofo defendeu que a emancipação social depende da autorreflexão e do diálogo livre de dominação. Para Jürgen Habermas, uma sociedade só é verdadeiramente democrática quando suas leis e instituições estão abertas à livre discussão e deliberação coletiva.

Trajetória: Da Juventude Hitlerista ao combate ao antissemitismo

Nascido em 1929, em Dusseldorf, a trajetória de Jürgen Habermas foi marcada pelas cicatrizes da história alemã. Na adolescência, chegou a integrar a Juventude Hitlerista, mas o choque com a revelação dos crimes nazistas no pós-guerra mudou o curso de sua vida.

“Vimos de repente que havíamos vivido em um sistema político criminoso”, declarou o filósofo em entrevista histórica em 1986.

Essa percepção o tornou um guardião rigoroso contra o antissemitismo e o autoritarismo. Richard Bernstein, professor da Universidade de Nova York, destacou em certa ocasião a sensibilidade ímpar de seu amigo: “Nunca conheci um não judeu mais sensível — intelectual e pessoalmente — do que ele a esse assunto”.

Superação pessoal e a filosofia da fala

Um aspecto marcante de sua biografia foi a fissura palatina congênita. As cirurgias e a dificuldade de fala na infância não o impediram de se tornar um comunicador global; pelo contrário, essa limitação física o sensibilizou para a importância vital da comunicação humana, tema central de sua obra.

Ciência, tecnologia e os desafios da biotecnologia

Ao longo de sua carreira, Jürgen Habermas também foi um crítico ferino do tecnicismo — a ideia de que a tecnologia e os interesses empresariais devem ditar o rumo da sociedade. Ele alertou que o crescimento econômico não deve ser confundido com o bem-estar da humanidade.

Em 2003, no livro O Futuro da Natureza Humana, ele questionou os limites éticos da biotecnologia e do sequenciamento do genoma, temendo que o avanço científico sem amarras éticas pudesse comprometer a autodeterminação individual.

  • Publicado: 14/03/2026 12:59
  • Alterado: 14/03/2026 12:59
  • Autor: 14/03/2026
  • Fonte: Suhrkamp Verlag