O Agente Secreto mistura realidade e ficção sobre a ditadura
O filme O Agente Secreto usa a disputa por carros elétricos nos anos 70 para retratar a relação obscura entre empresários e a ditadura.
- Publicado: 14/03/2026 17:46
- Alterado: 14/03/2026 17:46
- Autor: Gabriel de Jesus
- Fonte: ABCdoABC
A nova obra do diretor Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, utiliza o suspense para explorar as complexas relações entre o empresariado e o regime militar nos anos 1970. Com quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Wagner Moura, o longa imagina uma disputa tecnológica por carros elétricos em meio à crise do petróleo de 1975.
Na trama, o protagonista Armando (Wagner Moura) dirige um centro de pesquisas na UFPE que desenvolve um protótipo de veículo elétrico. A iniciativa desperta a fúria de Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli), um empresário influente e conselheiro da Eletrobras, que passa a perseguir o acadêmico para proteger seus próprios investimentos internacionais.
A metáfora do poder empresarial nos anos 1970
Embora a perseguição específica por tecnologia elétrica seja um elemento de ficção em O Agente Secreto, ela reflete a simbiose histórica entre grandes corporações e o Estado autoritário. Segundo o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, autor de Estranhas Catedrais, o filme acerta ao mostrar o papel ativo dos empresários na sustentação do regime.
“A dinâmica do poder dos empresários não se manifestava exatamente daquela forma [como no filme], mas o longa funciona como uma metáfora do poder que esses agentes tinham”, afirma Campos.
O historiador ressalta que as empreiteiras da época eram formadas por quadros técnicos que mantinham laços estreitos com os militares para garantir contratos bilionários em obras de infraestrutura, como o metrô de São Paulo e o aeroporto do Galeão.
Crise do petróleo e o cenário econômico do filme
O pano de fundo de O Agente Secreto é o choque do petróleo de 1973, que quadruplicou o preço do barril. Naquele período, o Brasil produzia apenas 20% do combustível que consumia. O governo de Ernesto Geisel respondeu com o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), priorizando investimentos em estatais e energia nuclear, enquanto fontes alternativas
| Indicador Econômico (1975-1980) | Dado Estatístico |
| Investimento de Estatais no PIB | 47,3% |
| Produção Nacional de Combustível | ~20% |
| Meta de Crescimento do II PND | 10% ao ano |
A realidade por trás da ficção de O Agente Secreto
A relação “nebulosa” entre o público e o privado, central em O Agente Secreto, é corroborada por registros históricos. A jornalista Malu Gaspar, em A Organização, detalha como empresas como a Odebrecht buscavam apoio direto de generais para vencer licitações contra concorrentes.
Para Vinicius Muller, professor do Insper, a falta de transparência é o que define essa era: “Em governos autoritários, a relação é mais nebulosa, porque as informações não são divulgadas como em uma democracia”, explica. Assim, O Agente Secreto não apenas entretém, mas provoca uma reflexão sobre as raízes da estrutura empresarial brasileira.