Lula protagoniza virada histórica e conquista 4º mandato

Após reverter a derrota no primeiro turno, Lula vence Flávio Bolsonaro e amplia sua marca histórica como o único presidente eleito quatro vezes pelo voto popular

Crédito: (Divulgação/Ricardo Stuckert)

Aos 80 anos, às vésperas de completar 81, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou neste domingo (25) sua quarta vitória em uma eleição presidencial, um resultado sem precedentes na história democrática brasileira. A reeleição veio depois de uma disputa contra Flávio Bolsonaro (PL), marcada por uma recuperação que parecia improvável até os últimos dias de campanha. O presidente conseguiu reverter a desvantagem registrada no primeiro turno e permanecerá no Palácio do Planalto até 2030, acrescentando um novo capítulo a uma trajetória política iniciada nas fábricas do ABC Paulista.

A vitória possui uma dimensão histórica particular. Desde a redemocratização, nenhum candidato que terminou o primeiro turno de uma eleição presidencial atrás do adversário havia conseguido inverter o resultado na votação decisiva. Lula rompeu essa sequência e ampliou o recorde que já lhe pertencia desde 2022, quando se tornou o primeiro brasileiro eleito três vezes para a Presidência. Agora, com quatro vitórias nas urnas, também caminha para completar 16 anos à frente do Executivo federal, somados os períodos de 2003 a 2010 e de 2023 a 2030.

O resultado reafirma a capacidade eleitoral de um político que atravessou transformações profundas no país e em sua própria trajetória. Lula chegou à Presidência como o primeiro operário eleito para o cargo, deixou o governo em 2010 com índices recordes de aprovação, foi preso durante a Operação Lava Jato, teve suas condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e retornou ao poder em 2022, derrotando o então presidente Jair Bolsonaro. Quatro anos depois, voltou a enfrentar um integrante da família Bolsonaro e conquistou outra vitória, desta vez após uma campanha em que precisou recuperar terreno entre o primeiro e o segundo turnos.

Da infância pobre às greves do ABC Paulista

Lula
(Divulgação/Ricardo Stuckert)

A trajetória de Lula começou longe dos centros de decisão política. Nascido em 27 de outubro de 1945, em uma família de trabalhadores rurais de Garanhuns, no interior de Pernambuco, Luiz Inácio da Silva foi o sétimo dos oito filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, conhecida como dona Lindu. Ainda criança, deixou o Nordeste com a mãe e os irmãos em uma viagem de 13 dias em um caminhão pau de arara, rumo a São Paulo, onde o pai havia migrado anteriormente em busca de emprego.

A família passou por Santos antes de se estabelecer na região metropolitana de São Paulo. Após a separação dos pais, dona Lindu assumiu a criação dos filhos em condições financeiras difíceis, experiência que se tornaria uma das principais referências pessoais e políticas de Lula. Durante a infância e a adolescência, ele conciliou os estudos com diferentes atividades remuneradas, trabalhando como vendedor ambulante, engraxate, auxiliar de tinturaria e office boy. Aos 14 anos, conseguiu emprego em uma fábrica de parafusos e, posteriormente, ingressou em um curso de torneiro mecânico do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Foi na indústria metalúrgica que Lula encontrou a profissão que definiria sua entrada na vida pública. Aos 17 anos, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente com uma prensa. A experiência como trabalhador industrial, em um período de expansão econômica e concentração de fábricas no ABC Paulista, aproximou-o das discussões sobre salários, condições de trabalho e organização sindical. Em 1969, incentivado pelo irmão Frei Chico, começou a frequentar o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, entidade da qual se tornaria presidente em 1975.

As greves metalúrgicas do final da década de 1970 projetaram Lula nacionalmente e transformaram o ABC Paulista em um dos principais centros de contestação à ditadura militar. A mobilização reuniu milhares de trabalhadores em assembleias, paralisações e negociações salariais, desafiando as restrições impostas à atividade sindical. A resposta do regime incluiu intervenções nas entidades representativas e, em 1980, a prisão de Lula com base na Lei de Segurança Nacional.

A experiência sindical também modificou sua compreensão sobre a política institucional. Em declaração recuperada pela reportagem da Folhapress, Lula recordou que inicialmente rejeitava o envolvimento partidário: “No sindicato, adorava encher a boca pra falar: não gosto de política e não gosto de quem gosta de política. (…) Daí eu descobri que não dava pra fazer nada fora da política”. A mudança de perspectiva contribuiu para a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, com a participação de sindicalistas, movimentos sociais, setores progressistas da Igreja Católica e intelectuais.

Três derrotas antes da primeira vitória presidencial

A entrada de Lula na política eleitoral ocorreu em 1982, quando disputou o governo de São Paulo e terminou em quarto lugar. Naquele ano, incorporou oficialmente o apelido Lula ao nome. Em 1986, foi eleito deputado federal constituinte com aproximadamente 651 mil votos, a maior votação individual do país para a Câmara naquela eleição. Sua atuação política, entretanto, permaneceu fortemente vinculada à organização partidária e à construção de uma candidatura nacional.

Em 1989, na primeira eleição presidencial direta após a ditadura, Lula chegou ao segundo turno, mas foi derrotado por Fernando Collor de Mello. Voltou a disputar a Presidência em 1994 e 1998, quando perdeu para Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, ainda no primeiro turno. As três derrotas evidenciaram os limites eleitorais do PT naquele período e impulsionaram uma mudança de estratégia para a campanha seguinte, com ampliação de alianças e uma tentativa de aproximação com setores empresariais.

A transformação ganhou forma em 2002. Lula escolheu o empresário José Alencar como vice-presidente, divulgou a Carta ao Povo Brasileiro, na qual assumiu compromissos com a estabilidade econômica e o cumprimento de contratos, e profissionalizou a campanha com a participação do publicitário Duda Mendonça. A combinação permitiu ao petista ampliar sua base de apoio e vencer José Serra (PSDB) no segundo turno, com 52,8 milhões de votos e 61,3% dos votos válidos.

A posse, em janeiro de 2003, levou pela primeira vez um ex-operário metalúrgico à Presidência da República. O acontecimento teve forte significado para o movimento sindical e para a região do ABC, onde Lula havia construído sua liderança. A chegada ao Planalto também representou uma mudança de posição para o PT, que passou da oposição à responsabilidade de administrar o governo federal, negociar com o Congresso e responder diretamente pelas políticas econômicas e sociais do país.

Dois mandatos, combate à fome e recorde de aprovação

O primeiro governo Lula colocou o combate à fome entre suas prioridades. O programa Fome Zero deu origem a uma política mais ampla de transferência de renda, posteriormente estruturada no Bolsa Família, que se tornou uma das principais marcas sociais da administração petista. Na economia, o governo preservou elementos centrais da política macroeconômica adotada na gestão Fernando Henrique Cardoso, incluindo metas de inflação, câmbio flutuante e compromisso com resultados fiscais.

A combinação de programas sociais, expansão do crédito e crescimento econômico contribuiu para ampliar a popularidade do presidente, embora seu primeiro mandato tenha enfrentado uma crise política de grandes proporções. Em 2005, o escândalo do mensalão, envolvendo um esquema de compra de apoio parlamentar no Congresso Nacional, atingiu dirigentes do PT e integrantes do governo, provocando a saída de José Dirceu da Casa Civil. Mesmo com o desgaste, Lula recuperou apoio eleitoral e foi reeleito em 2006, derrotando Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno.

O segundo mandato foi marcado pela expansão de investimentos em infraestrutura e por um período de crescimento econômico, apesar dos efeitos da crise financeira internacional de 2008. Entre 2007 e 2010, a economia brasileira cresceu, em média, aproximadamente 4,6% ao ano. O desempenho, associado à melhora de indicadores sociais e ao fortalecimento do mercado de trabalho, contribuiu para a elevada aprovação do presidente no encerramento de seu segundo governo.

Em 2010, Lula deixou a Presidência com 83% de aprovação segundo o Datafolha e 87% segundo o Ibope, patamares históricos nas respectivas pesquisas. A projeção internacional também havia crescido. Em 2009, durante um encontro de líderes, o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, comentou a popularidade do brasileiro: “Esse é o cara. Eu adoro esse cara. O político mais popular do mundo”. Na eleição seguinte, Lula conseguiu transferir parte de seu capital político para Dilma Rousseff, que venceu a disputa presidencial e seria reeleita em 2014.

A sucessão, contudo, não garantiu estabilidade duradoura ao PT. O segundo mandato de Dilma foi interrompido pelo impeachment de 2016, quando Michel Temer assumiu a Presidência. Paralelamente, as investigações da Operação Lava Jato atingiram Lula e outras lideranças políticas e empresariais, alterando profundamente o ambiente político brasileiro e colocando o ex-presidente no centro de uma disputa judicial com consequências diretas para sua trajetória eleitoral.

Prisão, anulação das condenações e retorno ao Planalto

Lula foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em processos relacionados à Lava Jato e preso em abril de 2018, quando liderava pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial daquele ano. Permaneceu 580 dias na prisão, até ser solto em novembro de 2019. Posteriormente, o Supremo Tribunal Federal anulou suas condenações, restabelecendo seus direitos políticos. A decisão permitiu que voltasse a disputar a Presidência em 2022.

A eleição daquele ano ocorreu em um país profundamente polarizado. Lula enfrentou Jair Bolsonaro (PL), então presidente da República, e venceu por 50,9% a 49,1% dos votos válidos, na menor diferença percentual já registrada em um segundo turno presidencial brasileiro. Além de conquistar seu terceiro mandato, tornou-se o primeiro candidato a derrotar um presidente em exercício que buscava a reeleição desde a introdução dessa possibilidade no sistema político nacional.

O retorno ao Palácio do Planalto, em janeiro de 2023, foi apresentado pelo governo como um processo de reconstrução institucional e retomada de políticas públicas. Ao longo do terceiro mandato, indicadores de emprego, renda, pobreza e insegurança alimentar apresentaram melhora, enquanto o governo enfrentou dificuldades para equilibrar as contas públicas em um contexto de endividamento e juros elevados. A administração também obteve vitórias legislativas, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para rendimentos mensais de até R$ 5 mil e mudanças na jornada de trabalho.

A gestão, entretanto, não ficou imune a crises. As investigações sobre descontos associativos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS atingiram o governo e provocaram a saída do então ministro da Previdência, Carlos Lupi. Segundo as apurações, o esquema atravessou diferentes administrações federais e cresceu durante o terceiro mandato de Lula, até ser desarticulado em uma operação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União.

Esse conjunto de resultados e controvérsias acompanhou Lula na tentativa de conquistar mais quatro anos no poder. Diferentemente de 2022, quando enfrentou um presidente em exercício, o petista chegou à eleição de 2026 na condição de candidato à reeleição, tendo de defender o desempenho de sua própria administração. O adversário, Flávio Bolsonaro, representava a continuidade eleitoral do grupo político liderado por seu pai, mantendo a polarização entre petismo e bolsonarismo no centro da disputa presidencial.

A virada de 2026 e o recorde de quatro eleições

Lula
(Divulgação/Ricardo Stuckert)

A vitória deste domingo acrescenta um feito inédito à trajetória de Lula. Pela primeira vez desde a redemocratização, um candidato que terminou o primeiro turno de uma eleição presidencial em segundo lugar conseguiu superar o adversário na etapa decisiva. A reversão ocorreu contra Flávio Bolsonaro, que havia chegado à votação final em vantagem e cuja candidatura reuniu parte expressiva do eleitorado conservador.

Com o resultado, Lula passa a ser o único presidente brasileiro eleito quatro vezes pelo voto direto. A marca o distingue inclusive de Getúlio Vargas, que permaneceu no poder por aproximadamente 18 anos e seis meses, mas chegou à Presidência por diferentes caminhos institucionais. Vargas assumiu inicialmente após a Revolução de 1930, foi escolhido indiretamente em 1934, instaurou a ditadura do Estado Novo em 1937 e venceu apenas uma eleição presidencial direta, em 1950.

Ao concluir o quarto mandato, Lula terá acumulado 16 anos na Presidência, tornando-se o governante que permaneceu por mais tempo no cargo por meio de eleições diretas em períodos democráticos. O recorde não elimina as diferenças entre os contextos históricos, mas dimensiona a longevidade de uma liderança que participou de praticamente todas as disputas presidenciais decisivas desde o fim da ditadura militar.

A idade também impõe um horizonte diferente ao novo governo. Lula completa 81 anos em 27 de outubro e chegará aos 85 no encerramento do mandato, em dezembro de 2030. Como foi reeleito, não poderá disputar novamente a Presidência em 2030. Uma eventual candidatura em 2034, quando terá 89 anos, dependeria de uma decisão política futura e de condições pessoais que não podem ser antecipadas.

A quarta vitória não encerra, portanto, os desafios de Lula. O presidente terá de administrar uma sociedade dividida, negociar com o Congresso Nacional e responder às expectativas criadas durante a campanha, ao mesmo tempo em que enfrentará questões fiscais, econômicas e sociais acumuladas ao longo de seu terceiro mandato. A reversão eleitoral demonstrou sua capacidade de mobilização, mas o resultado das urnas não antecipa o desempenho da próxima gestão.

Para o ABC Paulista, onde Lula se projetou como líder sindical, o resultado também recupera uma história que começou muito antes de sua primeira eleição presidencial. Foi nas assembleias metalúrgicas de São Bernardo do Campo que o torneiro mecânico se transformou em uma liderança nacional, enfrentou a ditadura e participou da criação de um partido que chegaria ao poder duas décadas depois. Quase meio século após aquelas greves, o antigo presidente do sindicato retorna às urnas para conquistar um quarto mandato, desta vez depois de protagonizar uma virada inédita na história das eleições presidenciais brasileiras.

  • Publicado: 25/10/2026 21:20
  • Alterado: 25/10/2026 21:20
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: TSE