Jejum prolongado: impactos no corpo exigem atenção médica; Deputado fica 8 dias em greve de fome
Deputado Glauber Braga encerrou greve de fome após oito dias, expondo os riscos do jejum prolongado e reacendendo o debate sobre os limites do corpo humano em situações extremas.
- Publicado: 18/04/2025 16:35
- Alterado: 18/04/2025 16:35
- Autor: Suzana Rodrigues
- Fonte: FolhaPress
O jejum prolongado, prática que vem sendo discutida tanto por motivos políticos quanto de saúde, pode provocar uma série de reações no organismo. Quando a ingestão de alimentos é suspensa por dias, o corpo entra em modo de emergência metabólica, alterando seu funcionamento natural para preservar energia. Médicos alertam para os riscos envolvidos, especialmente quando a prática é feita sem acompanhamento adequado.
Corpos cetônicos assumem o papel de combustível cerebral
Durante as primeiras 24 horas sem comer, o organismo consome suas reservas de glicogênio – forma de energia armazenada no fígado e músculos. Passado esse período, o corpo passa a utilizar gordura como principal fonte energética, através da produção de corpos cetônicos. Esses compostos, gerados no fígado, se tornam o combustível predominante para o cérebro, já que a glicose, sua fonte usual, está em escassez.
“Esse processo provoca sinais claros de desaceleração metabólica, como cansaço, sensação de frio e perda de força”, explica o endocrinologista Ricardo Barroso, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM-SP). Ele observa ainda que o excesso de corpos cetônicos pode causar um hálito com odor característico, conhecido como “hálito cetônico”.
Greve de fome e riscos à saúde: o caso do deputado Glauber Braga
O jejum ganhou os holofotes recentemente com a greve de fome do deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ). Em protesto contra um processo de cassação que enfrenta na Câmara dos Deputados, Braga passou oito dias sem se alimentar, consumindo apenas soro e isotônicos sob rigoroso acompanhamento médico.
O movimento começou no dia 9 de abril e foi encerrado em 17 de abril, após o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidir suspender o processo por 60 dias. A decisão adiou a análise do caso para o segundo semestre e levou o parlamentar a encerrar o protesto.
Segundo especialistas, o corpo humano pode resistir de 30 a 60 dias sem ingestão calórica, desde que bem hidratado. A médica nutróloga Marcella Garcez, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), ressalta que, apesar dessa resistência, a fase de inanição – que começa após três dias sem alimentos – exige atenção, pois o organismo começa a consumir suas reservas internas com mais intensidade.
Perigos metabólicos e reintrodução alimentar
Um dos principais desafios do jejum prolongado é manter o equilíbrio de líquidos e eletrólitos. A hidratação adequada torna-se essencial para evitar falhas renais, desidratação e desequilíbrios eletrolíticos. Os rins, primeiros a sofrerem com a escassez de nutrientes, podem entrar em colapso se não houver suporte clínico.
Além dos rins, órgãos como o fígado, o coração e o cérebro também sofrem. A privação prolongada de energia compromete a atividade cardíaca e pode alterar o funcionamento neurológico, resultando em fadiga intensa e instabilidade emocional. “Com o tempo, o fígado também se desgasta ao tentar manter a produção de energia com recursos limitados”, destaca Barroso.
Ao retomar a alimentação, os cuidados devem ser redobrados. Garcez recomenda iniciar com líquidos e alimentos leves, evitando açúcares simples em excesso, que podem desencadear a chamada síndrome da realimentação – condição potencialmente grave que ocorre quando o organismo, despreparado, recebe uma carga abrupta de nutrientes.
Embora casos extremos, como o do escocês Angus Barbieri, que passou mais de um ano em jejum sob vigilância médica, entrem para os livros de recordes, médicos reforçam que esse tipo de conduta não deve ser reproduzida sem suporte técnico rigoroso.