Grande ABC formaliza política regional de cannabis medicinal

Assinatura em Ribeirão Pires transforma experiência local em diretriz conjunta para ampliar acesso a tratamento, pesquisa e articulação pública na região

Crédito: (Divulgação/Agência GABC)

O Grande ABC deu neste sábado um passo político raro em uma agenda ainda cercada por resistência institucional no Brasil. Durante a abertura da ExpoABC, em Ribeirão Pires, foi assinada a Política Regional de Cannabis Medicinal, iniciativa que passa a organizar, em escala regional, uma discussão que até aqui avançava de forma fragmentada entre municípios, entidades e experiências locais.

Na prática, a formalização desse compromisso tira o debate da esfera exclusivamente terapêutica ou simbólica e o reposiciona como pauta de saúde pública, articulação intermunicipal, pesquisa, formação técnica e também desenvolvimento regional. O movimento ocorre em um território que já abriga uma experiência pioneira no país e que agora tenta transformar um caso municipal em referência política ampliada.

A assinatura aconteceu durante evento promovido pela Associação Flor da Vida, com apoio da Prefeitura de Ribeirão Pires e da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, reunindo especialistas, gestores públicos, pacientes e representantes da sociedade civil em torno do uso medicinal da cannabis e de seus efeitos concretos sobre a vida de famílias que dependem desse tipo de tratamento.

Ribeirão Pires deixa de ser caso isolado e passa a influenciar a região

Grande ABC - Cannabis Medicinal
(Divulgação/Agência GABC)

A construção da política regional de cannabis medicinal não nasce do zero e se apoia diretamente na experiência de Ribeirão Pires, município que abriga a primeira clínica pública de cannabis medicinal do Brasil e que vem se consolidando como uma referência nacional nesse campo.

Durante o evento, também foi celebrado o aniversário da unidade, que já realizou a entrega de mais de 1.800 frascos de óleo, atendendo cerca de 240 famílias. Os tratamentos alcançam pacientes com diferentes condições, entre elas TEA, Alzheimer, Parkinson, epilepsia e fibromialgia, o que ajuda a dimensionar o alcance social da política já implementada no município.

Esse histórico foi central para que a experiência deixasse de ser lida como exceção administrativa e passasse a inspirar uma tentativa mais estruturada de expansão regional. Em vez de manter a política restrita a um município, a proposta agora é criar ambiente institucional para que outras cidades da região possam discutir caminhos semelhantes, a partir de uma base já testada.

Ao comentar a assinatura, o prefeito de Ribeirão Pires e presidente do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, Guto Volpi, afirmou que “estamos falando de uma política pública construída com responsabilidade e diálogo”, ao destacar que a proposta busca ampliar a conversa com associações terapêuticas, incentivar pesquisa e enfrentar o tema sem reduzi-lo a preconceitos ou simplificações.

Cannabis Medicinal no centro da agenda que de saúde, acesso e desenvolvimento

Um dos pontos mais relevantes da nova política regional está justamente no fato de ela não tratar a cannabis medicinal apenas como tema clínico. O que se consolidou neste sábado foi uma agenda mais ampla, que conecta cuidado em saúde, formação de rede, debate técnico e também potencial econômico e científico.

Essa leitura apareceu de forma explícita ao longo do encontro, que reuniu nomes como o deputado estadual Eduardo Suplicy, o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, a vice-prefeita de Rio Grande da Serra, Vilma Marcelino, além de parlamentares, secretários municipais e representantes de instituições ligadas à pauta.

Nos debates, a ênfase esteve na necessidade de ampliar o acesso ao tratamento e enfrentar um dos principais gargalos ainda existentes no país, que é a distância entre o potencial terapêutico reconhecido da cannabis medicinal e a dificuldade concreta de transformar esse uso em política pública acessível, regulamentada e continuada.

Nesse sentido, a formalização da política regional tenta dar lastro institucional a uma pauta que costuma depender demais de decisões isoladas, da judicialização ou da atuação de associações. Ao ganhar escala regional, o tema passa a ter mais força para circular entre redes de saúde, gestores e formuladores de políticas públicas.

Articulação regional tenta transformar pauta em política duradoura

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(Imagem/Freepik)

A construção da política de cannabis medicinal envolveu uma rede de instituições e entidades que ajudou a tirar a proposta do campo exclusivamente governamental. A iniciativa foi estruturada pela Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC e contou com apoio da Prefeitura de Ribeirão Pires, do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, da Associação Flor da Vida, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá e de outras instituições parceiras.

Essa composição ajuda a explicar por que a assinatura tem peso maior do que um gesto protocolar. O que está sendo desenhado é uma base política e institucional para dar continuidade à pauta, ampliar adesões e tentar consolidar a cannabis medicinal como tema permanente dentro da agenda pública regional.

O presidente da Agência de Desenvolvimento, Aroaldo da Silva, afirmou durante o encontro que “é possível expandir e maximizar essa política”, ao defender o papel da articulação entre poder público, entidades e experiências já em andamento para ampliar o acesso ao tratamento nos municípios.

Ele também chamou atenção para um ponto central do debate, que é a necessidade de avançar na conscientização de equipes médicas e da população, condição indispensável para que a política de cannabis medicinal não se limite ao discurso institucional e consiga, de fato, chegar a quem precisa.

  • Publicado: 30/03/2026 07:20
  • Alterado: 30/03/2026 07:33
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: Agência GABC