Entre o “Brasil” e o “Vai Brasa” existe um abismo

Novo uniforme da seleção brasileira com “Brasil” e “Vai Brasa” gera desconexão com a torcida

Crédito: Divulgação

Em toda minha vida assistindo futebol, acompanhando a seleção brasileira, jamais pensei que algo me causaria revolta e perplexidade. Quando vi o anúncio da vestimenta amarelinha com o tal “Brasa” e o grito “Vai Brasa”, minha vontade foi de rasgar o novo uniforme.

Tanto eu quanto você, caro leitor, temos a certeza absoluta de que em nenhuma Copa do Mundo — nem mesmo nas cinco conquistas — alguém jamais gritou “Vai Brasa” nas arquibancadas, nos bares ou nas ruas pintadas de verde e amarelo. O que ecoava era o “Vai Brasil!”, o “Hexa vem!”, o hino cantado a plenos pulmões. Era identidade, era pertencimento, era algo que não precisava ser explicado, mas apenas sentido.

E é aí que mora o problema.

Não se trata apenas de uma frase nova estampada na camisa. Trata-se de uma tentativa artificial de recriar algo que nunca deixou de existir: a conexão do povo com a seleção. O “Brasa” não nasce das arquibancadas, não vem da várzea, não vem da resenha entre amigos. Ele vem de uma sala de marketing.

E quando o futebol vira produto antes de ser paixão, o resultado costuma ser esse estranhamento quase imediato.

Depois da polêmica recente envolvendo ideias mirabolantes para o uniforme, como a sugestão de uma camisa vermelha, que felizmente foi abandonada parecia que o bom senso tinha voltado a campo. Mantiveram a tradicional amarelinha, resgataram o azul, cores que contam histórias e carregam memórias afetivas de gerações.

Mas aí resolveram inventar um gritoE talvez seja justamente isso que incomoda tanto: ninguém pediu por ele.

O torcedor brasileiro nunca precisou de um slogan para torcer. A nossa relação com a seleção sempre foi visceral, caótica, às vezes até contraditória — mas nunca artificial. A gente critica, se irrita, se afasta… mas quando a bola rola em Copa, estamos lá de novo, grudados na tela, como se nada tivesse acontecido.

Porque o amor pelo Brasil não precisa de campanha publicitária. Ele só precisa de bola na rede.

No fim das contas, o “Vai Brasa” não ofende — ele só não representa. E talvez o maior erro seja esse: tentar criar um novo jeito de torcer para um povo que sempre soube exatamente como fazer isso

Às vésperas de uma Copa do Mundo onde a galera discute se Neymar deve ir ao Mundial ou não, se iremos passar das quartas ou não, o que menos agrega neste momento é uma alcunha que desconecta completamente o povo brasileiro a sua seleção.

  • Publicado: 25/03/2026 17:14
  • Alterado: 25/03/2026 17:15
  • Autor: Gabriel de Jesus
  • Fonte: ABCdoABC