Do Brasil Colônia à atualidade, mitos e verdades sobre aleitamento materno
I Curso Preparatório para Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC) do Complexo de Saúde Irmã Dulce
- Publicado: 13/04/2012 23:29
- Alterado: 13/04/2012 23:29
- Autor: Nádia Almeida
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Do ato natural das mães indígenas ao preconceito das portuguesas vindas da Europa no período colonial, passando pela comercialização de amas de leite negras durante a escravatura, a história do aleitamento materno no Brasil foi abordada pela pediatra Marisa da Matta Aprile no I Curso Preparatório para Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC) do Complexo de Saúde Irmã Dulce na última quinta-feira (12). Entre o século 16 e os dias atuais, quando pesquisas científicas revelam as múltiplas funções e propriedades do leite humano, aspectos históricos-culturais ainda influenciam a prática da amamentação. Entender a história brasileira ajuda os profissionais que estão sendo treinados a identificar mitos e derrubá-los, orientando melhor pacientes e famílias.
“Recebemos a influência de três culturas, três civilizações e três continentes”, observa Aprile. No Brasil encontrado por Pero Vaz de Caminha, o aleitamento materno era comum entre as indígenas nativas. Mas, ao receber os colonizadores europeus, o que era natural passou a ser mal visto, já que as portuguesas traziam consigo preconceitos e tentaram substituir as “saloias”, camponesas da periferia de Lisboa que serviam como amas de leite, pelas indígenas. Como as indígenas eram tidas como selvagens, logo foram trocadas por escravas negras e se instalou um lucrativo comércio.
Mitos e lendas povoavam o imaginário popular. “As escravas foram amas de leite até surgir o conceito de que pelo leite, embora fosse um alimento, eram transmitidos virtudes e maus hábitos”, prosseguiu a médica. Com o passar do tempo e avanços na saúde, tais afirmações foram derrubadas, mas algumas ainda resistem, como a de que o aleitamento materno enfraquece o corpo da mulher e compromete a beleza, prejudicando a estética das mamas.
Práticas antigas, como oferecer chupeta para “acalmar” o bebê, somadas ao avanço industrial e a introdução da mão-de-obra feminina nas fábricas, elevaram a incidência de desmame precoce. A mamadeira surge então como “símbolo de modernidade” e, anos depois, o leite industrializado se populariza, com “um bombardeio de propaganda”. Aumento de partos hospitalares com rotinas inadequadas, berçários nas maternidades, desinformação profissional e programas de distribuição de leite em pó incentivavam o desmame.
A partir dos anos 80 esse cenário começou a mudar com a criação de bancos de leite humano, parto humanizado e alojamento conjunto nas maternidades. Iniciava-se uma mobilização social pelo aleitamento, cujo êxito implicava numa responsabilidade coletiva, com o reconhecimento da superioridade do leite materno.
Do ponto de vista da saúde, Aprile acentua que ele é perfeito como único alimento nos primeiros seis meses de vida e eficaz na prevenção da mortalidade infantil, protegendo o delicado organismo do bebê contra infecções e alergias. Favorece o desenvolvimento da criança, previne doenças crônicas futuras e promove o vínculo afetivo entre mãe e filho. Além disso, é prático e gratuito.
De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que idealizou a IHAC com a Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1990, estudos demonstram que o aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida pode evitar, anualmente, mais de 1,3 milhão de mortes de crianças menores de 5 anos nos países em desenvolvimento. Amamentar imediatamente após o nascimento pode reduzir 22% a mortalidade neonatal (até o 28º dia de vida) nos países em desenvolvimento. No Brasil, do total de mortes de crianças com menos de 1 ano, 65,6% ocorrem no período neonatal e 49,4% na primeira semana de vida.