Crianças Offline: cadê as brincadeiras ao ar livre? 

No segundo episódio da série “Crianças Offline”, abordamos a diminuição da prática de brincadeiras de rua entre crianças e adolescentes

Crédito: Via IA

No primeira temporada da série de reportagens “Crianças Offline” abordamos sobre tempo de tela, e hoje seguimos para a segunda parte. Bastante comum entre crianças e adolescentes do final dos 90 e início dos anos 2000, menos hoje em dia: as famosas brincadeiras ao ar livre, o poder de socialização já faz parte de uma realidade distante da qual vivemos nos dias atuais. Desconectar-se das telas e puxar a criançada para as ruas, parques, tem sido uma atividade cada vez mais desafiadora.

Brincadeiras ao ar livre que foram passadas de geração em geração, como amarelinha, pega-pega-, queimada, esconde-esconde, não apenas faziam o tempo passar, como também estimulava a criatividade, o desenvolvimento corporal e principalmente, a inclusão. Atualmente, 81% dos adolescentes entre 11 e 17 anos tem se demonstrado insuficientemente ativos, com uma média de declínio de 5% de suas atividades físicas por ano durante o processo de transição da infância para a adolescência, segundo dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

E pasmem, alguns autores chegam a descrever um aumento no tempo sedentário de 25% no período dos 7 aos 15 anos, com maiores mudanças entre os 9 aos 12 anos. Números que surpreendem e alertam para uma realidade que assusta: não é que crianças e adolescentes não realizam brincadeiras ao livre, eles simplesmente não querem mesmo.

“O crescimento das áreas urbanas, a preocupação das famílias com a segurança, a redução de espaços públicos destinados ao lazer e, principalmente, o aumento do tempo dedicado às telas”, elenca o pedagogo David Santos, como fatores que levaram crianças e adolescentes brincarem menos.

Falta de espaço público ou de iniciativa dos pais?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças e adolescentes (de 5 a 17 anos) pratiquem, em média, pelo menos 60 minutos de atividade física por dia, com intensidade moderada a vigorosa. Porém, a realidade atual vai contra a recomendação, uma vez que espaços disponíveis como paços esportivos, playgrounds, áreas da natureza como praias, parques, encontram-se vazios. Sendo mais direto: é mais fácil uma criança ou adolescente saber como desbloquear a tela de um smartphone do que arremessar uma bola.

A falta de incentivo dos pais são fatores de riscos, especialmente no sentido de colaborar para o desenvolvimento. A realidade é que ao ver a criança chorando já não é mais o brinquedo, o sentar no chão e realizar uma atividade lúdica, mas sim é onde o eletrônico vence o jogo. 

Fabiana Silva Dias, professora no Centro de Assistência Social São Pedro Cassap (CASSAP), em Mauá, compartilha os desafios impostos por crianças, que em sua maioria, estão cada vez mais conectadas. “Elas não tem muito interesse não [participar de brincadeiras ao ar livre]. Fico abismada em ver que eles são fissurados em tela. Uma das crianças pega meu celular tentando destravar”, revela a educadora.

“Entre brincar e ficar na tela, eles preferem ficar assistindo. Esse ano o que eu tenho presenciado são crianças que não tem iniciativa de brincar, alguns nem se levantam do tatame. Eu não observo iniciativa”, complementa Fabiana. 

Neste sentido o pedagogo David Santos complementa que: “o principal alerta é que estamos formando uma geração que se movimenta menos, convive menos presencialmente e vivencia menos experiências fundamentais para seu desenvolvimento integral. Isso pode refletir no aumento de problemas relacionados à saúde mental, dificuldades de convivência e prejuízos ao aprendizado”.

Professora explica quais brincadeiras ao ar livre faça parte do cronograma de aulas

No segundo episódio do “Crianças Offline”, discutimos a preocupação acerca da inatividade física entre crianças e adolescentes – (Freepik)

A falta de atividade física, definido como analfabetismo físico é definido em pesquisa da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), como falta de confiança, competência e motivação para se envolver com atividades físicas significativas. Como é diagnosticado este analfabetismo físico? É caracterizado por incompetências motoras básicas como correr, pular, arremessar, agilidade, equílibrio e coordenação.

E daí entra a necessidade de professores de Educação Física, pediatras e até mesmo os pais direcionarem estratégias educacionais, pedagógicas, motivacionais e sociais eficazes para que jovens inativos possam aprender o valor da atividade física.

“A gente proporciona momentos lúdicas, como brincadeiras. A gente senta com eles, organiza cantinhos com panelinhas, de cabeleireiros, e utilizam a gente para se desenvolverem a brincadeira. Tem o cantinho da leitura, onde motivamos eles realizam leitura em voz altura, e também brincadeiras ao ar livre, as antigas que conhecemos, como coelho sai da toca”, explica professora Fabiana.

“O crescimento das áreas urbanas, a preocupação das famílias com a segurança, a redução de espaços públicos destinados ao lazer e, principalmente, o aumento do tempo dedicado às telas”, elenca o pedagogo David Santos, como fatores que levaram crianças e adolescentes brincarem menos. Ele complementa que a rotina infantil superestruturada também sufoca o tempo livre: “A rotina infantil tornou-se mais estruturada, com agendas cheias de compromissos, reduzindo o tempo destinado ao brincar espontâneo, que é essencial para o desenvolvimento”.

Brincadeiras de Rua Clássicas e Coletivas

Crianças Offline aborda como ainda brincadeiras de rua podem despertar o interesse pelo lazer - (Reprodução)
Crianças Offline aborda como ainda brincadeiras de rua podem despertar o interesse pelo lazer – (Reprodução)
  • Taco ou Bets: Jogo de equipe que desafia a coordenação motora e agilidade. Utiliza dois tacos e uma bolinha (de borracha ou tênis) para defender alvos (como garrafas pet ou latas) posicionados em duas bases a cerca de 15 metros de distância. Os rebatedores tentam rebater os arremessos e cruzar os tacos no centro do campo para somar pontos.
  • Cabra-cega: Uma brincadeira clássica de grupo perfeita para estimular a percepção espacial e auditiva. O participante da vez, com os olhos vendados, deve tentar encontrar e tocar os demais companheiros orientando-se apenas pelos sons emitidos por eles.
  • Escravos de Jó: Excelente para trabalhar o ritmo, a concentração e a coordenação motora fina e grossa. Sentadas em roda, as crianças cantam a cantiga popular enquanto passam um pequeno objeto (como uma pedrinha ou tampinha de garrafa) para o colega ao lado, seguindo a coreografia da música.
  • Batatinha-frita, 1, 2, 3: Jogo dinâmico que trabalha a agilidade e o autocontrole (equilíbrio). Um líder fica de costas e dita a frase; enquanto ele fala, os outros participantes correm em sua direção. Assim que o líder se vira de frente, todos devem permanecer imóveis como estátuas. Quem se mover deve retornar à linha de partida.

Diretrizes de atividade física por faixa etária

Para orientar as famílias a resgatarem as brincadeiras ao ar livre e combaterem o comportamento sedentário, a Sociedade Brasileira de Pediatria estabelece diretrizes específicas divididas por idade:

Crianças de 0 a 2 anos de idade

  • Bebês devem ser incentivados a serem ativos, mesmo que por curtos períodos, várias vezes ao dia.
  • Bebês que ainda não começaram a se arrastar/engatinhar devem ser encorajados a serem fisicamente ativos alcançando, segurando, puxando e empurrando, movendo a cabeça, corpo e membros durante as rotinas diárias e durante atividades supervisionadas no chão, incluindo tempo em decúbito frontal.
  • Bebês que conseguem se arrastar/engatinhar devem ser encorajados a serem tão ativos quanto possível em um ambiente seguro, supervisionado e estimulante.
  • Crianças que conseguem andar sozinhas devem ser fisicamente ativas todos os dias durante pelo menos 180 minutos em atividades que podem ser fracionadas durante o dia e ocorrerem em ambientes fechados ou ao ar livre. Os 180 minutos podem incluir atividades leves, como ficar de pé, movendo-se, rolando e brincando, além de atividades mais energéticas como saltar, pular e correr.
  • Crianças dessa faixa etária não devem permanecer em comportamentos sedentários por longos períodos, exceto quando estão dormindo. O comportamento sedentário representa o tempo em que as crianças estão fazendo muito pouco movimento físico, como passear de carro ou ficar no carrinho de bebê. Permanecer em comportamentos sedentários por longos períodos não é benéfico para a saúde e para o desenvolvimento da criança e deve ser evitado.
  • Até os dois anos de vida recomenda-se que o tempo de tela (TV, tablet, celular, jogos eletrônicos) seja ZERO.

Crianças de 3 a 5 anos de idade

  • Crianças dessa faixa etária devem acumular pelo menos 180 minutos de atividade física de qualquer intensidade distribuída ao longo do dia, incluindo uma variedade de atividades em diferentes ambientes e que desenvolvam a coordenação motora.
  • Brincadeiras ao ar livre e ativas, andar de bicicleta, atividades na água, jogos de perseguir e jogos com bola são as melhores maneiras para essa faixa etária se movimentar.
  • A partir dos três anos de idade atividades físicas estruturadas, como natação, danças, lutas, esportes coletivos, entre outras, também podem ser paulatinamente incluídas.
  • Comportamentos sedentários devem ser fortemente evitados e recomenda-se que o tempo de tela seja limitado em 2 horas por dia, sendo que quanto menos tempo gasto frente às telas será melhor.

Crianças e adolescentes de 6 a 19 anos de idade

  • Crianças e adolescentes dessa faixa etária devem acumular pelo menos 60 minutos diários de atividades físicas de intensidade moderada a vigorosa. Atividades de intensidade moderada a vigorosa são aquelas que fazem a respiração acelerar e o coração bater mais rápido, tais como pedalar, nadar, brincar em um playground, correr, saltar e outras atividades que tenham, no mínimo, a intensidade de uma caminhada.
  • A prática de atividade física superior a 60 minutos fornece inúmeros benefícios adicionais para a saúde.
  • Atividades de intensidade vigorosa, incluindo aquelas que são capazes de fortalecer músculos e ossos, devem ser realizadas em, pelo menos, três dias por semana. Para a população pediátrica essas atividades podem ser não estruturadas, como brincadeiras que incluam saltos, atividades de empurrar, puxar e apoiando/suportando o peso corporal.
  • Atividades de flexibilidade envolvendo os principais movimentos articulares devem ser realizadas pelo menos três vezes por semana.
  • Crianças e adolescentes devem ser encorajados a participar de uma variedade de atividades físicas agradáveis e seguras que contribuam para o desenvolvimento natural, tais como, caminhadas, andar de bicicleta, praticar esportes diversos, se envolver em jogos e brincadeiras tradicionais da comunidade em que estão inseridas. Estas atividades melhoram os aspectos físico, emocional e social.
  • Assim como para crianças de 3 a 5 anos de idade, comportamentos sedentários devem ser evitados e recomenda-se que o tempo de tela seja limitado em 2 horas por dia, sendo que quanto menos tempo gasto frente às telas será melhor. Porém, este limite não deve levar em consideração o tempo destinado ao uso de computador para realização de tarefas escolares.

Guia Prático: Como os pais podem agir?

Diretriz FamiliarAção Prática Recomendada
Parceria ProfissionalConverse ativamente com o pediatra e com o professor de Educação Física para identificar se o comportamento do seu filho aponta para o Transtorno do Déficit de Exercício.
Exemplo AtivoReserve momentos no fim de semana para fazer passeios ecológicos, andar de bicicleta ou praticar esportes em família.
Estímulo ao Ar LivreIncentive a criança a brincar em parques e praças com amigos, estimulando o desenvolvimento cognitivo e motor.
Apoio e ElogioValorize os primeiros passos e iniciativas físicas do seu filho, promovendo autoconfiança nos gestos motores.
Controle de SedentarismoLimite o tempo de sofá e telas a no máximo duas horas diárias, estimulando conversas frequentes sobre os benefícios da vida ativa.
Rotina no LarDelegue tarefas domésticas compatíveis com a idade (arrumar o quarto, organizar brinquedos), mantendo o jovem em movimento.
Igualdade de GêneroEvite disparidades culturais e ofereça o mesmo incentivo para que meninos e meninas pratiquem esportes e atividades físicas.

Abaixo, resumimos as orientações práticas propostas pelo manual da SBP para que os responsáveis integrem hábitos mais ativos na rotina familiar:

Crianças Offline

No episódio anterior do "Crianças Offline" falamos sobre tempo de tela - (Freepik)
No episódio anterior do “Crianças Offline” falamos sobre tempo de tela – (Freepik)

A série de reportagens especial do ABCdoABC, “Crianças Offline“, tem abordado e continuará, temas que são relevantes para professores, gestores escolares, pediatras, sociedade de forma geral. A preocupação com a formação de crianças e adolescentes também é um ponto de discussão e debate absolutamente necessário em nosso país e sobretudo na região.

Para a próxima semana o terceiro episódio do “Crianças Offline” irá abordar saúde mental e desenvolvimento infantil, como quadros de ansiedade, isolamento e conflitos no convívio social e familiar. 

  • Publicado: 14/07/2026 22:33
  • Alterado: 14/07/2026 22:34
  • Autor: Gabriel de Jesus
  • Fonte: ABCdoABC