O impacto dos algoritmos e influenciadores no orçamento familiar

Com quase 80% das famílias endividadas, facilidade de microtransações e apostas online acende alerta sobre saúde financeira

Crédito: (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

A era digital mudou radicalmente a lógica por trás de cada escolha que fazemos como consumidores. Hoje, raramente começamos uma jornada de compra apenas movidos por uma necessidade imediata; muitas vezes, somos antecipados por algoritmos inteligentes que sugerem produtos e ofertas antes mesmo de termos uma intenção consciente. Segundo Aimãn Mourad, professor de Administração da FEI — instituição que foi pioneira ao lançar o primeiro curso da área no Brasil e na América Latina —, essa tecnologia é capaz de mapear nossas preferências com tal precisão que o consumo acaba sendo provocado por estímulos constantes.

Esse movimento está inserido no que os especialistas chamam de economia da atenção. Nesse modelo de negócio, o tempo e o foco do usuário tornam-se a moeda mais valiosa. Plataformas digitais utilizam notificações incessantes e conteúdos sob medida para manter as pessoas conectadas pelo maior tempo possível. A lógica é simples: quanto mais tempo navegamos, maior é a nossa exposição a anúncios, o que aumenta consideravelmente a probabilidade de uma compra por impulso.

O impacto desse comportamento reflete diretamente na saúde financeira das famílias. Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revelaram que, em janeiro de 2025, o endividamento alcançava 79,5% dos lares brasileiros. Esse cenário evidencia como decisões de consumo rápidas, tomadas em ambientes digitais altamente persuasivos, podem comprometer gravemente o orçamento doméstico. Além disso, o professor da FEI ressalta que a digitalização alterou a nossa percepção psicológica do dinheiro. Através de microtransações, como assinaturas e compras dentro de jogos ou aplicativos, o gasto parece menor do que realmente é. Como cada item possui um valor baixo e o pagamento é imediato, o consumidor tende a ignorar o acúmulo dessas despesas no final do mês.

Essa facilidade é particularmente preocupante para jovens e grupos financeiramente vulneráveis. O uso de carteiras digitais e sistemas de pagamento em um clique remove as barreiras que nos fariam refletir antes de gastar. Esse debate ganhou ainda mais urgência com a ascensão das apostas online, que misturam entretenimento e risco financeiro, levantando questionamentos sobre a ética na publicidade e a responsabilidade de influenciadores digitais.

Atualmente, a inovação tecnológica corre em uma velocidade muito superior à da educação para o consumo e da regulação governamental. O professor Aimãn Mourad alerta que muitos de nós participamos desses ambientes sofisticados sem entender os mecanismos que moldam nossos desejos. Para ele, a discussão essencial do momento não é apenas sobre como vender mais, mas sim sobre os limites éticos e as responsabilidades das plataformas digitais em relação ao bem-estar e ao equilíbrio da sociedade.

  • Publicado: 13/03/2026 11:39
  • Alterado: 13/03/2026 11:39
  • Autor: 13/03/2026
  • Fonte: FEI