ABC Cast Conexões com Denardo e a realidade das pessoas com deficiência

Tetraplégico desde 1997, Denardo discute luto, preconceito, acessibilidade e os obstáculos enfrentados diariamente por pessoas com deficiência

Crédito: (Divulgação/ABCdoABC)

A ruptura causada por uma deficiência adquirida não acontece apenas no corpo. Ela reorganiza a forma de viver, de circular, de trabalhar e, principalmente, de existir em uma sociedade que ainda não está preparada para lidar com essas mudanças. Para quem passa por esse tipo de transformação, o desafio passa pela adaptação física, mas vai além, envolve enfrentar estruturas que excluem, ambientes que não acolhem e uma cultura que, muitas vezes, reduz essas trajetórias a narrativas simplificadas de superação.

É nesse ponto que a conversa precisa ir além do discurso fácil. Porque, na prática, o que está em jogo não é apenas a capacidade de seguir em frente, mas a possibilidade real de reconstruir uma vida em um cenário que impõe limites todos os dias. E essa reconstrução não acontece de forma imediata, ela exige tempo, atravessa fases difíceis e passa por decisões que nem sempre aparecem para quem está do lado de fora.

A história do jornalista e palestrante Denardo, começa exatamente nesse ponto de ruptura. Em 1997, um acidente automobilístico interrompeu de forma brusca a vida que ele levava até então e o deixou cadeirante e tetraplégico. Aos 22 anos, com uma rotina ativa e sem qualquer sinal de que algo mudaria, ele viu o corpo parar do pescoço para baixo e foi colocado diante de uma realidade completamente diferente da que conhecia. O que vem depois disso não segue um roteiro previsível, no caso de Denardo, foi um processo longo, marcado por isolamento, dúvidas e pela necessidade de reconstruir a própria identidade. Mais de duas décadas depois, essa trajetória se transforma em ponto central do quarto episódio do ABC Cast Conexões, que aborda o que ele construiu desde então e o que significa, na prática, decidir continuar vivendo quando tudo ao redor parece ter parado.

O tempo do luto que ninguém vê

O impacto de uma transformação tão brusca como a vivida por Denardo, passa por um tempo invisível, pouco discutido, em que a vida deixa de acontecer como antes e ainda não encontrou um novo caminho. Esse intervalo é marcado por dúvidas, negação e afastamento. “A gente tem que passar pelo luto, depois a aceitação, depois a adaptação e depois a reintegração. Cada um tem o seu tempo”, afirma. No próprio processo, esse tempo não foi curto. “Eu demorei cerca de dois anos, dois anos e meio pra sair do meu quarto”, relembra o palestrante.

Esse período também foi atravessado por momentos limite, que raramente aparecem nas narrativas públicas sobre deficiência. “Confesso que eu tive até vontade de ceifar a minha vida, porque eu estava num momento que não queria mais”, diz. A decisão de continuar veio como uma escolha construída aos poucos, dentro de um processo difícil, marcado por perdas concretas e pela necessidade de entender, na prática, como seguir vivendo a partir de uma realidade completamente diferente.

A decisão de viver mudou o rumo da história de Denardo

ABC Cast Conexões - Denardo - PcD - Acessibilidade
Denardo (Reprodução/Redes Sociais)

Em algum momento, Denardo entendeu que permanecer naquele estado significava abrir mão da própria vida. “Eu pensei, não posso ficar aqui esperando as coisas caírem no meu colo. Eu preciso viver”, afirma. Mesmo com limitações físicas, a responsabilidade sobre o próprio caminho se tornou central. “Se eu quisesse ficar ali em cima da cama, sendo alimentado, sendo higienizado, eu ia ficar até hoje. Mas dependeu de mim”, diz.

Em vez de se fixar no que não era mais possível, o foco de Denardo passou a ser direcionado para o que ainda poderia ser construído. “Eu procuro me apegar nas coisas que eu posso, que eu consigo fazer. Não nas coisas que eu não consigo”, explica. A decisão de viver, não eliminou as dificuldades, mas redefiniu a forma de enfrentá-las e abriu espaço para uma reconstrução possível.

A sociedade que fala de inclusão, mas não sustenta na prática

Para quem vive com deficiência, a retomada da própria vida passa por enfrentar um ambiente que ainda não está preparado para garantir o básico. A discussão sobre acessibilidade costuma aparecer em campanhas, discursos institucionais e ações pontuais, mas no cotidiano ela se revela de forma muito mais limitada, sempre atravessada por falhas estruturais e comportamentos que expõem a distância entre o que se diz e o que se pratica.

Denardo descreve esse cenário de forma direta, sem tentar suavizar a experiência. Para ele, o preconceito contra pessoas com deficiência muitas vezes nasce de julgamentos automáticos, construídos antes mesmo de qualquer convivência real. “A gente é preconceituoso por natureza, porque julga aquilo que vê de primeira instância. O problema não é o julgamento. O que não pode é excluir antes de conhecer. A partir do momento em que você exclui uma pessoa só porque ela está em uma cadeira de rodas, aí não é legal”, ressalta.

Essa lógica se repete em diferentes situações, da ocupação indevida de vagas destinadas a pessoas com deficiência até espaços que, mesmo abertos ao público, não permitem autonomia básica. “Já tive restaurante que eu consegui entrar, mas não tinha acesso à mesa. Eu tive que ser alimentado, sendo que é uma coisa que eu posso fazer”, relembra. Ao mesmo tempo, ele ressalta que o problema também está na ausência de fiscalização das próprias leis existentes. “A lei existe, é boa, faz sentido. Mas não existe fiscalização. E esse é o grande mal do nosso país”, pontua.

Amor, escolha e o preconceito que ninguém admite

Quando o assunto é relacionamento, a deficiência expõe um tipo de preconceito mais silencioso, mas igualmente presente. A pessoa com deficiência muitas vezes é vista a partir de uma lógica limitada, que reduz sua vida afetiva a gratidão, dependência ou exceção. Essa visão errônea interfere diretamente na forma como os vínculos são construídos e, principalmente, na liberdade de escolha.

Denardo viveu esse processo na prática e relata que, ao longo dos anos, enfrentou desde a dificuldade de se relacionar ao julgamento sobre suas próprias decisões. “Eu não aceitava menos do que eu quisesse. Eu precisava estar feliz e fazer a outra pessoa feliz”, diz. Em diferentes momentos, ao encerrar relacionamentos, ouviu críticas que não estariam presentes em outras situações. “Amigo meu falava que eu era louco, que a menina fazia tudo por mim. Mas não é isso. Se eu quiser alguém para cuidar de mim, eu tenho uma cuidadora, tenho minha família. Relacionamento não é isso. As pessoas não se conformavam. Como assim terminar? Ela te trata tão bem”, relembra. Ao longo desse caminho, a decisão de não aceitar menos do que desejava também se tornou parte da construção da própria autonomia de Denardo, reafirmando que a vida afetiva de qualquer pessoa deve ser condicionada à possibilidade real de viver relações completas, com liberdade e escolha.

A vida que se reconstrói também precisa ser contada

ABC Cast Conexões - Denardo - PcD - Acessibilidade
Denardo (Reprodução/Redes Sociais)

A reconstrução da própria trajetória precisa ser vivida, sentida e também comunicada. Para Denardo, esse movimento ganhou forma na arte, especialmente no audiovisual, como uma maneira de traduzir experiências que nem sempre cabem em discursos diretos. O curta-metragem Aparente-Mente (2024) nasce desse lugar, a partir de uma necessidade pessoal em dar forma a vivências que atravessam o cotidiano de muitas pessoas com deficiência. “Eu escrevi o roteiro com as coisas que eu estava vivendo, com o que acontecia comigo, que era justamente o preconceito em relação aos relacionamentos”, relembra.

A história permaneceu guardada por muito tempo até encontrar as condições necessárias para sair do papel por meio de um edital público. Quando finalmente conseguiu transformar o projeto em filme, a intenção nunca esteve ligada a grandes circuitos ou reconhecimento comercial. “Foi mais para mostrar para a sociedade e para os meus amigos o que eu passei, o que eu passava e o que outras pessoas com deficiência passam”, afirma ao explicar que o principal objetivo do curta era provocar identificação e ampliar a discussão sobre experiências que ainda permanecem invisíveis para grande parte da sociedade.

O impacto do filme, está justamente na identificação que ele gera. Ao trazer para a tela situações reais, muitas vezes ignoradas ou suavizadas no discurso público, Denardo constrói uma narrativa que confronta o espectador com uma realidade concreta. “As pessoas assistem e comentam, falam que é uma história verdadeira, que acontece mesmo. E isso já me traz o resultado que eu esperava, que não era comercial, era pessoal”, diz.

Denardo transformou sua presença em uma forma de ampliar discussões que ainda seguem ausentes da maior parte dos espaços públicos brasileiros. Em um país onde pessoas com deficiência continuam enfrentando barreiras físicas, sociais e culturais diariamente, ocupar ambientes de comunicação, arte e debate também é uma forma de reivindicar existência, autonomia e pertencimento.

Ao longo da conversa, Denardo deixa claro que inclusão não acontece apenas por leis ou campanhas institucionais, mas pela presença real das pessoas com deficiência nos espaços onde historicamente elas foram invisibilizadas. “Só assim que a sociedade vai mudar. Só assim que as infraestruturas vão mudar, os preconceitos vão mudar. É só a gente ir dando a cara a tapa para que isso aconteça. Cada vez mais na mídia, na televisão, no jornal, no podcast, em todos os lugares, eu acho que a gente precisa marcar presença”, finaliza.

Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

ABC Cast Conexões - Denardo - Abrão Dib - PcD - Acessibilidade
Denardo, Abrão Dib e Thiago Quirino (Divulgação/ABCdoABC)

A entrevista com o jornalista e palestrante Denardo, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação especial de Abrão Dib, fundador do Diário PcD e presidente da Associação Nacional de Apoio às Pessoas com Deficiência (ANAPcD). A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal. A direção geral é de Alex Faria, fundador do veículo, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Assista ao episódio completo:

Além do canal no YouTube, a entrevista pode ser acessada pelo SpotifyDeezerAmazon Music e também no Apple Podcasts.

  • Publicado: 09/05/2026 10:40
  • Alterado: 09/05/2026 10:40
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC