ABC Cast Conexões com Luiz Vicente analisa o colapso da mobilidade urbana
Especialista em mobilidade e colunista do ABCdoABC, Luiz Vicente discute os impactos do trânsito e as falhas do modelo urbano nas cidades
- Publicado: 25/04/2026 07:55
- Alterado: 25/04/2026 07:55
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: ABCdoABC
Poucos temas são tão presentes no cotidiano quanto a mobilidade urbana, mas ao mesmo tempo tão pouco enfrentados em sua raiz. No Grande ABC e na cidade de São Paulo, o deslocamento molda o dia inteiro de quem trabalha, estuda ou depende do transporte público. O tempo gasto no trânsito, a imprevisibilidade dos trajetos e a crescente dependência do carro revelam um modelo que já não responde à dinâmica das cidades e que se repete há anos sem mudanças estruturais.
É dentro desse cenário que o ABC Cast Conexões chega ao segundo episódio de sua segunda temporada propondo uma discussão mais aprofundada sobre o tema. A escolha do convidado não é casual, programa recebe o professor e pesquisador Luiz Vicente Figueira de Mello Filho para tratar da mobilidade como um reflexo direto das decisões urbanas, políticas e sociais que moldaram a região e o país ao longo do tempo.
Luiz Vicente, aliás, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC, e acompanha há anos as transformações e os impasses do setor, analisando desde o transporte público até os impactos das novas tecnologias e da organização das cidades. Com formação em engenharia e atuação acadêmica consolidada, incluindo pesquisa em nível de pós doutorado na área de transportes e vínculo com a Unicamp, Luiz construiu, durante o epsódio, uma leitura que combina base técnica e observação direta da realidade urbana.
O Brasil que acumulou regras e perdeu eficiência na mobilidade

O Brasil não chegou ao atual cenário por falta de regra ou ausência de planejamento. Ao contrário, acumulou ao longo dos anos um volume expressivo de leis, diretrizes e políticas públicas voltadas à mobilidade urbana. Existe estrutura normativa, existe orientação técnica e existe um histórico consistente de formulação. Ainda assim, a realidade das ruas segue pressionada por congestionamentos, perda de eficiência no transporte coletivo e deslocamentos cada vez mais longos.
O problema aparece justamente na execução. O sistema não acompanha a dinâmica das cidades e passa a operar em descompasso com a demanda real. O resultado é um modelo que, mesmo estruturado no papel, perde eficiência no uso cotidiano e empurra cada vez mais pessoas para soluções individuais.
De acordo com Luiz Vicente, “Se nós pegarmos tudo o que nós temos de leis, é uma coisa assustadora, quer dizer, tem uma quantidade enorme, porém na prática, o que acontece? Nós não estamos vendo isso. E o que nós presenciamos muito é uma série histórica de congestionamentos cada ano que passa, pós pandemia, esse aumento cada vez maior. Por quê? Porque é aquela questão, o individual prevalecendo muitas vezes do coletivo, e aí não há mágica, não há infraestrutura viária, não há construção que você se possa fazer para resolver isso, a não ser quando nós estamos falando do transporte público”, afirma o especialista.
A comparação com outros países ajuda a dimensionar o problema, mas também evidencia que a diferença não está na falta de recursos ou de legislação. De acordo com Luiz, “O que nós vemos é exatamente o oposto. E essa é a cerne da questão. Quando nós vamos a um outro país, no hemisfério norte, ficamos vislumbrados, como funciona, o transporte público é maravilhoso. E por que aqui não funciona? Porque dinheiro, legislação, nós temos. Mas nós não temos a questão relacionada que muito vem a ver na segurança pública. O individualismo, dentro desse protecionismo, acaba, na verdade, inviabilizando o coletivismo”, afirma.
Quando o trânsito passa a definir o dia das pessoas

Outro tema abordado por Luiz Vicente, foi o avanço dos congestionamentos, afinal ele não se limita ao tempo perdido no deslocamento pois interfere diretamente na rotina, no rendimento e na forma como as pessoas atravessam o dia. O trajeto entre casa e trabalho passa a consumir energia antes mesmo da jornada começar e continua pesando no retorno, quando o desgaste já se acumulou.
Com o aumento da circulação após a pandemia, os deslocamentos voltaram a pressionar a mobilidade em níveis ainda mais elevados. O trânsito se mantém como uma constante, e o impacto deixa de ser pontual para se tornar parte da rotina. O tempo gasto nas vias reduz o tempo disponível fora do trabalho e amplia a sensação de cansaço, afetando não apenas o deslocamento, mas o próprio funcionamento do dia.
Luiz Vicente chama atenção para a dimensão desse cenário ao analisar a evolução progressiva dos congestionamentos. “A cidade de São Paulo, do primeiro trimestre de 2025 para o primeiro trimestre de 2026, teve um aumento de 36% nos congestionamentos. A cidade está parada, congestionada, e se você não tem essa mobilidade que você deveria ter, que impacta diretamente na produtividade das pessoas, se você chega estressado e cansado no seu trabalho, o que você vai produzir? Lembrando que você tem que voltar ainda para casa”, pontuaLuiz.
O ABC e as soluções que não avançaram

Quando pensamos no recorte específico da mobilidade no Grande ABC, entendemos que ela carrega características próprias, ligadas à formação industrial da região e à centralidade do automóvel ao longo das últimas décadas. Essa construção ajudou a consolidar um modelo em que o transporte individual ocupa espaço relevante, enquanto o transporte coletivo enfrenta dificuldades para acompanhar a dinâmica dos deslocamentos entre cidades próximas, mas pouco integradas.
Dentro desse cenário, algumas tentativas de reorganizar o sistema de mobilidade chegaram a surgir, apontando caminhos diferentes para o transporte coletivo. Uma delas foi a criação de um modelo de ônibus sob demanda, que conectava São Bernardo à região da Berrini, em São Paulo, com uma proposta mais alinhada ao comportamento atual dos usuários. Luiz Vicente resgata essa experiência ao destacar que “Aquela foi uma proposta mais moderna de transporte, em que a pessoa escolhia o assento, sabia exatamente onde o ônibus iria parar e tinha previsibilidade de horário. Mas, mesmo recolhendo taxas e funcionando, rapidamente as prefeituras cortaram essa alternativa”, contou o especialista.
É importante ressaltar que a interrupção desse modelo não ocorreu por falta de adesão ou inviabilidade operacional, mas por barreiras institucionais que impedem a evolução de soluções fora do formato tradicional. Luiz Vicente explica, “Essa solução não concorria com o ônibus tradicional. Ela tirava pessoas do automóvel e oferecia uma alternativa mais confortável dentro do transporte coletivo. Mesmo assim, não ganhou força por causa de conflitos contratuais, licitações e concessões já existentes”, afirma. Infelizmente a experiência acabou interrompida antes de ganhar escala. O sistema que já estava estabelecido manteve sua estrutura, e a proposta não avançou.
Tecnologia avançou, mas o sistema segue no mesmo formato

Nem tudo é retrocesso, a mobilidade urbana passou por mudanças importantes nos últimos anos, impulsionadas principalmente pelas plataformas digitais. Aplicativos de transporte, navegação em tempo real e sistemas de geolocalização criaram um novo padrão de expectativa para quem se desloca, baseado em previsibilidade, controle e informação imediata. Esse avanço, no entanto, não chegou ao transporte coletivo com a mesma intensidade. O usuário que depende de ônibus ou de sistemas públicos ainda enfrenta rotinas pouco flexíveis, com horários fixos, pouca informação em tempo real e dificuldade de adaptação aos fluxos da mobilidade do dia a dia. O resultado é um sistema que continua operando dentro de uma lógica mais lenta, distante do comportamento atual de quem circula pelas cidades.
Luiz Vicente aponta essa diferença ao observar, “Se eu perguntar para uma empresa de ônibus quantas pessoas usaram o sistema no último mês, ela precisa montar um relatório. Se eu perguntar para um aplicativo, ele me responde em tempo real quantas pessoas estão se deslocando e por onde. Essa diferença de tecnologia, ocupando o mesmo espaço, acaba ampliando ainda mais o transporte individual”, esclarece Luiz, evidenciando que o uso da tecnologia no transporte coletivo ainda não se traduz em reorganização do serviço, enquanto isso, o transporte individual continua absorvendo esse movimento, oferecendo respostas mais rápidas para quem precisa se deslocar.
A mobilidade é coletiva

A rotina de deslocamento atravessa histórias, hábitos e a forma como cada pessoa se relaciona com a mobilidade e a cidade. O caminho entre casa e trabalho, a volta para casa no fim do dia, os pequenos percursos que se repetem ao longo da semana acabam construindo uma experiência que vai além do trânsito ou do tempo gasto. Porém, o aumento das distâncias, a dependência do carro e a necessidade de se proteger dentro do próprio deslocamento afastam as pessoas do espaço urbano. O trajeto se tornou mais rápido em alguns momentos, mais lento em outros, mas quase sempre mais distante. A cidade segue ali, mas muitas vezes sem ser percebida, sem ser vivida.
Ainda assim, é nesse mesmo deslocamento que permanece uma possibilidade de reconexão. A mobilidade também carrega a capacidade de aproximar, de permitir encontros e de reconstruir a relação com o entorno. Quando o percurso deixa de ser apenas um tempo a cumprir e passa a ser parte da experiência urbana, a cidade volta a existir de outra forma, mais próxima, mais presente.
Pelos olhos e nas palavras de um apaixonado pela mobilidade, essa conexão entre espaço urbano e convivência coletiva se constrói todos os dias, dentro desses trajetos que parecem repetitivos, mas que moldam a forma como as pessoas vivem e se encontram. “Quando você anda a pé, você conhece a cidade, você vê as pessoas, você entende o comportamento. O transporte público permite isso também. Ele aproxima, cria convivência. A gente precisa sair dessa lógica de isolamento, dessa blindagem de quatro rodas, porque a mobilidade é coletiva. Todo mundo precisa se locomover, e isso precisa acontecer de forma mais equilibrada, mais humana e mais conectada entre as pessoas”, finaliza Luiz Vicente.
Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

A entrevista com Luiz Vicente Figueira de Mello Filho, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação do jornalista João Pedro Mello, também repórter e apresentador dos poscasts ABC Cast e CineABC Metrópole no ABCdoABC. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal. A direção geral é de Alex Faria, fundador do veículo, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.
Assista ao episódio completo:
Além do canal no YouTube, a entrevista pode ser acessada pelo Spotify, Deezer, Amazon Music e também no Apple Podcasts.
As análises de Luiz Vicente também podem ser acompanhadas semanalmente no portal ABCdoABC, no caderno Mobilidade em Foco, onde o especialista aprofunda temas que atravessam o dia a dia das cidades. Nesta semana, por exemplo, ele analisou a possível mudança nas placas do Mercosul e os impactos financeiros que a medida pode gerar.