Vazamentos colocam delação de Mauro Cid em Xeque

Uma suspeita de fuga somada a divulgação de mensagens a serem comprovadas, serviram para abalar a ação sobre golpe de Estado

Crédito: Gustavo Moreno/STF

Após o término movimentado de uma semana dedicada as outivas do processo que apura a tentativa de instauração de um golpe de Estado no Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF), finalizou seus trabalhos, seguido após de uma sucessão de “novos elementos”, que somente uma típica sexta-feira 13 poderia proporcionar.
 
Pelos corredores da base governista, existe a avaliação de que tanto o vazamento de mensagens pela revista “Veja”, quanto a acusação de tentativa de fuga, trata-se de um movimento altamente coordenado, advindo da ala bolsonarista. A investida seria vista como último recurso, utilizando-se de uma artilharia mais contundente contra aquele que é considerado como uma espécie de “pedra fundamental”, das acusações de golpe de Estado, o delator e tenente-coronel, Mauro Cid.
 
A estratégia seria de descredibilizar não apenas a delação de Cid, mas todo o processo, e a deste modo construir uma base sólida para futuras ações de nulidade, apostando assim em uma eventual vitória de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Assim, tão logo os noticiários deram as manchetes, não tardou para que houvesse uma série de manifestações da base bolsonarista sobre o assunto, pedindo a anulação do acordo de colaboração premiada.
 
Com o encerramento de depoimentos dos réus, as defesas correm no prazo (que termina hoje), para novas diligências antes das alegações finais por parte das defesas e Procuradoria-Geral da República (PGR). Até o momento foram requeridas ao ministro Alexandre Moraes, perícias, acareação e acesso a imagens do Alvorada.
 
Tão logo o ministro ordenou a “Meta”, responsável pelo Instagram, o fornecimento de todos os dados — referentes ao perfil chamado gabrielar702, a fim de apurar a veracidade dos depoimentos do delator —, as defesas do ex-presidente Jair Bolsonaro, Mauro Cid e Braga Netto pediram esclarecimentos sobre a referida conta na rede social.
 
Na esteira do assunto, as lideranças de oposição na Câmara também aproveitaram o ensejo na figura dos deputados federais Luciano Zucco (PL) e Ubiratan Sanderson (PL), respectivamente, para protocolar um ofício ao presidente do STF, o ministro Luís Roberto Barroso, com um pedido formal de anulação do acordo de delação do tenente-coronel Mauro Cid, pelo uso indevido de uma rede social.
 
Se todas as solicitações forem recebidas pelo ministro e relator Moraes, pode significar que a conclusão do trâmite seja retardada ainda mais, podendo até entender o tempo de duração do caso, para que dessa forma se possam abarcar a chegada de novas providências.
 
Muito embora não se admita publicamente, por parte do clã bolsonarista, o entendimento é de que a maior parte do colegiado de ministros, está alinhado com a base do atual do governo, o que tornaria improvável uma mudança de posicionamento. Portanto, ainda que fossem anuladas as delações de Mauro Cid, a ala conservadora não cultiva expectativa de que os intentos possam modificar o curso do processo.
 
Em caráter reservado, algumas fontes da Polícia Federal (PF), acreditam que uma anulação do acordo de Mauro Cid, não afetaria o andamento dos trâmites legais da ação, mantendo o processo intacto sem quaisquer danos as provas obtidas até o momento. Entretanto, não como saber acerca de quais garantias seriam comprometidos aos benefícios acordados entre delator e a PF.
 
 
 
“Lula Livre” Bolsonarista 
 
Em 2019, quando o presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT), foi condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro na ação penal envolvendo um tríplex no Guarujá, houve um apoio maciço de sua base aliada, que jamais deixou de alegar a inocência do petista. Na eminência de uma situação muito semelhante, já existem discussões a portas fechadas na cúpula bolsonarista de que se deva adotar a mesma estratégia.
 
Com o avanço do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, a cúpula petista já percebeu a proximidade uma certa “ironia constrangida”, ao testemunhar parte da oposição adotando posturas semelhantes ao ver sua maior liderança na eminência de desabar. O mero histórico de ter sido preso, mesmo alegando perseguição política e um caminhão de injustiças — ainda que contida —, já será motivo de troça utilizado pelos petistas, que agora gozam do privilégio se enxergarem do lado oposto.
 
Com uma base de apoiadores formada por figuras que se baseiam de maneira endêmica em (uma suposta) “moralidade”, nem o mais orgulhoso dos conservadores, imaginou se tornar aquilo que mais dizia combater. Desta forma, existem palavras de ordem que se avizinham, podendo soar mal para uma parcela da ala mais radical dos conservadores. De modo que, a partir de uma eventual condenação, devem estar preparados para gritar jargões como: “Libertem Bolsonaro” ou “Jair Livre”.
 

  • Publicado: 15/06/2025 17:26
  • Alterado: 21/06/2025 18:01
  • Autor: 21/06/2025
  • Fonte: ABCdoABC