Uso de vape entre adolescentes sobe e acende alerta para o câncer

Avanço dos dispositivos eletrônicos reverte queda do tabagismo jovem e médicos temem explosão de doenças pulmonares nas próximas décadas.

Crédito: Magnific

O consumo de vape disparou entre adolescentes brasileiros e reverteu décadas de combate ao tabagismo tradicional. O avanço acelerado dos cigarros eletrônicos preocupa especialistas em saúde pública. A falsa percepção de segurança atrai a Geração Z para uma dependência severa de nicotina e expõe os jovens a graves riscos oncológicos futuros.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, indicam um salto vertiginoso no consumo. O percentual de estudantes de 13 a 17 anos que já experimentaram o dispositivo passou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024. O uso recente nos 30 dias anteriores à pesquisa saltou de 8,6% para 26,3%.

O surgimento dessa alternativa moderna colocou décadas de combate ao tabagismo em xeque. Ainda não sabemos completamente quais serão os efeitos de longo prazo dos cigarros eletrônicos, mas já existem indícios preocupantes de que eles podem ser tão ou mais nocivos que o cigarro convencional”, alerta o oncologista William Nassib William Jr., líder da especialidade de tumores torácicos da Oncoclínicas.

Alta concentração de nicotina no vape vicia rapidamente

A formulação baseada em sais de nicotina facilita a absorção pelo organismo e intensifica a dependência química. A Associação Médica Brasileira (AMB) aponta que um único vape equivale à carga de nicotina de um maço inteiro de cigarros convencionais, com alguns modelos superando essa proporção.

A nicotina não é diretamente responsável pelo câncer, mas é ela que provoca dependência. Esses dispositivos conseguem entregar concentrações extremamente elevadas da substância, fazendo com que o vício se estabeleça rapidamente”, explica William.

O impacto atinge diretamente o desenvolvimento cerebral e a saúde mental dos adolescentes. A substância interfere nas áreas de atenção, memória e aprendizado, elevando o risco de ansiedade e depressão. Médicos relatam casos de jovens que acordam durante a madrugada para inalar o vapor devido às severas crises de abstinência.

Lesões pulmonares e o falso vapor de água

A indústria vende uma imagem de consumo limpo e tecnológico. Os usuários inalam milhares de compostos tóxicos disfarçados por aromas adocicados. Os vapores carregam metais pesados como níquel, chumbo e zinco, misturados a substâncias comprovadamente cancerígenas como o formaldeído e a acroleína.

Os danos respiratórios agudos incluem a bronquiolite obliterante, o chamado “pulmão de pipoca”. A doença rara e irreversível surge pela inalação contínua do diacetil, um aromatizante presente nos líquidos dos aparelhos. Os sintomas envolvem tosse persistente, falta de ar progressiva e redução drástica da capacidade respiratória.

Especialistas registram o avanço global da EVALI, uma lesão pulmonar aguda e severa associada diretamente ao uso dos dispositivos. A condição gera inflamações agressivas e levou milhares de pacientes a internações em unidades de terapia intensiva nos últimos anos.

Porta de entrada para o tabagismo tradicional

A promessa de que o vape ajuda a abandonar o vício fracassa completamente entre os mais novos. Um estudo da Universidade de Michigan revelou que jovens usuários frequentes do dispositivo eletrônico têm risco 30 vezes maior de iniciar o consumo de cigarros convencionais.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) confirma essa mesma tendência no Brasil. A experimentação do produto eletrônico triplica a chance de o jovem provar o cigarro tradicional e quadruplica o risco de uso regular e contínuo.

Fatores culturais e forte publicidade digital impulsionam a crise. O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), da Unifesp, mostra que 86,3% dos adolescentes consideram fácil obter os aparelhos, mesmo com a proibição rigorosa de venda e importação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Há uma construção cultural em torno desses produtos que dialoga diretamente com o universo adolescente. O produto é apresentado como moderno, inofensivo e até sofisticado. Essa percepção é extremamente perigosa”, ressalta o oncologista da Oncoclínicas.

Ameaça oncológica projetada

O tabagismo causa pelo menos 12 tipos de câncer, afetando pulmão, laringe, esôfago, fígado, pâncreas e bexiga. O cenário liga um sinal de alerta máximo no sistema de saúde brasileiro, que projeta registrar 781 mil novos casos de tumores anuais entre 2026 e 2028, conforme estimativas recentes do INCA.

“Não sabemos ainda até que ponto os cigarros eletrônicos irão reproduzir ou superar os danos do cigarro convencional. A ideia de que existe uma fumaça limpa é falsa. O que vemos hoje é uma geração exposta precocemente à nicotina sem conhecer plenamente as consequências”, conclui William.

Interromper a escalada do vape exige ações imediatas de fiscalização de fronteiras, bloqueio de publicidade velada nas redes sociais e conscientização contínua. O poder público precisa desconstruir a aura tecnológica do dispositivo para proteger a juventude de um ciclo letal de dependência.

  • Publicado: 28/05/2026 14:31
  • Alterado: 28/05/2026 14:31
  • Autor: Thiago Antunes
  • Fonte: Oncoclínicas&Co