Três Mulheres Altas e a engrenagem implacável

Fernanda Nobre, Helena Ranaldi e Ana Rosa dissecam o labirinto da juventude, a sobriedade da maturidade no CineABC Metrópole

Crédito: CineABC Metrópole

Tic-tac. O som não precisa ecoar nas caixas de som do teatro para ser ensurdecedor. Ele bate no peito de quem assiste, lembrando-nos de uma premissa cruel: o tempo é o único adversário que a humanidade nunca consegue vencer. Ele é uma engrenagem invisível que esmaga as nossas certezas, amadurece as nossas dores e transforma, impiedosamente, quem nós somos. Quando o genial dramaturgo Edward Albee decidiu colocar essa exata engrenagem no centro de um palco, ele criou um clássico absoluto: Três Mulheres Altas.

O texto confina num mesmo quarto três fases distintas em uma única vida — a juventude (aos 26 anos), a meia-idade (aos 52) e a velhice (aos 92) —, obrigando-as a se encararem num acerto de contas sem meias verdades ou rotas de fuga. Um verdadeiro soco no estômago.

Para dar corpo a essa trindade complexa, a montagem de Três Mulheres Altas que desembarca em Porto Alegre para três únicas apresentações no Teatro Simões Lopes Neto não reuniu apenas três atrizes, mas uma verdadeira constelação. Fernanda Nobre, Helena Ranaldi e a recordista mundial Ana Rosa formam as engrenagens de um relógio suíço em cena, promovendo um embate que vai da esperança ao desespero na velocidade de um segundo.

Direto da nossa ponte aérea virtual para o CineABC Metrópole, adentramos o olho do furacão desse sucesso retumbante. Em um papo de fôlego, despido de filtros e ancorado no rigor das tábuas, o trio falou sobre a farsa das idealizações românticas, a coragem de abandonar a estabilidade da televisão, o vício moderno nas telas e sobretudo, a razão do palco continuar sendo um abismo sem paraquedas para o verdadeiro artista.

CAPÍTULO I: O PRIMEIRO TIQUE — A JUVENTUDE E A ILUSÃO DO CONTROLE

Três Mulheres Altas
Fernanda Nobre (Foto: Arquivo pessoal)

O espetáculo Três Mulheres Altas começa pelo frescor, no momento em que a corda do relógio acaba de ser dada. A personagem “C” tem 26 anos, aquela fase em que somos donos de uma convicção quase cega, acreditando que temos o mapa do mundo nas mãos e que jamais cometeremos os velhos erros das gerações passadas. Fernanda Nobre, no auge de sua maturidade artística aos 42 anos, empresta sua inteligência cênica para viver essa juventude que toma um golpe frontal ao se deparar com as faturas que a vida ainda vai lhe cobrar.

JOÃO PEDRO MELLO: A tua personagem representa a juventude, aquela fase em que a gente é dono de uma convicção quase irritante de que tudo vai dar certo. A peça joga essa menina num embate direto com as versões dela de 50 e de 90 anos. O que mais aterroriza: descobrir que não se sabe de nada ou perceber que o tempo vai passar de forma inevitável? E como o texto de Albee dialoga com a mulher de hoje?

FERNANDA NOBRE: Eu olho para essa Fernanda dos 26 e me identifico muito com essa personagem, que é uma personagem que olha para o futuro com muita esperança, com a ideia de que tudo vai dar certo, de que todos os seus sonhos vão se realizar, né? E aí as outras personagens, da Helena Ranaldi e da Ana Rosa, já vivenciaram isso, já têm respostas da vida de que a vida não é tão certinha assim, de que a vida não é exatamente o que a gente imagina, de que acontecem coisas inesperadas. Então tem essa reflexão de que aquilo que a gente imagina, que a gente projeta, que a gente cria como metas, nem sempre vão ser realizados na nossa vida. Na maioria das vezes não.

E essa onda que a gente está agora é a onda da identificação, que é a onda da internet, que é a onda das hashtags. E aí, só para deixar aqui registrado, as hashtags e a internet são muito importantes porque é o que faz com que esse movimento aconteça. A hashtag é a forma de identificação da gente falar sobre uma questão social e individual de cada mulher e conseguir unir outras mulheres para falar sobre a mesma coisa. Antigamente a gente ia para as ruas, em passeatas.

Ela [a personagem] olha pro casamento com muita idealização romântica, como toda jovem. Acho que todos os jovens, seja homem ou mulher, olham pro casamento como um lugar de salvação, de idealização da vida. E a gente é ensinado a isso, de que o casamento é um lugar em que a gente vai encontrar a felicidade e é um ponto de sucesso social. Mas ela olha para isso, e no debate com as outras mulheres, ela vê que o casamento às vezes é feito por outras questões.

JOÃO PEDRO MELLO: Sustentar esse texto tão matemático e tenso durante uma turnê pelo Brasil não deve ser para amadores. Como funciona a dinâmica de vocês três na coxia antes de entrarem para esse embate noturno?

FERNANDA NOBRE: A gente tem uma brincadeira entre nós de que eu sou a mais nova delas, mas eu sou a mais velha, na verdade, a mais cansada. Eu sempre estou exausta, querendo dormir, ir pro hotel. E elas, principalmente a Ana, é a mais serelepe, a que mais sai pela cidade para passear, para ir pras feirinhas, e eu tô sempre exausta. Essa é uma curiosidade. E ali a gente faz uma rodinha com as pessoas que estão no palco com a gente, que é a diretora de palco, a camareira, o nosso produtor, o nosso assistente de direção. E aí a gente faz uma rodinha ali antes de entrar em cena, que é uma forma de se conectar, de sair da loucura do dia a dia, de internet, de WhatsApp, e é a hora que a gente se conecta entre nós e com o público que já tá ali, sentado. A gente já tá ouvindo o público falar… é se conectar para entrar em cena e se concentrar.

CAPÍTULO II: O PÊNDULO NO TOPO — O SANDUÍCHE GERACIONAL E A LUCIDEZ

Três Mulheres Altas
Helena Ranaldi (Divulgação)

Se a juventude sonha, a meia-idade administra o tempo que resta. O pêndulo do relógio atinge o seu ápice. Helena Ranaldi assume o vértice central dessa história aos 52 anos. A personagem “B” perdeu as ilusões românticas de outrora, mas recusa-se a entregar os pontos ao fim iminente. Na vida real, a trajetória de Helena reflete essa mesma lucidez e coragem cirúrgica: após décadas no topo da cadeia alimentar da teledramaturgia brasileira, ela abandonou a zona de conforto para assumir as rédeas da própria narrativa, produzindo e vivendo o teatro em sua essência mais pura.

JOÃO PEDRO MELLO: Helena, a tua personagem vive um verdadeiro “sanduíche geracional” no palco. Ela olha para a juventude com ironia e cuida da velhice com uma paciência quase exausta. Na vida real, a tua trajetória espelha a coragem de quebrar ciclos, como foi a saída de uma vida de estabilidade na TV. O que a coxia do teatro te devolveu que aquele contracheque fixo já não conseguia mais entregar?

HELENA RANALDI: Foram 25 anos de televisão. Claro que nesse meio tempo eu fiz uma peça ou outra, mas muito pouco, porque eu era contratada fixa da Globo. Então eu acabei me acomodando nessa vida, que era uma vida bastante cômoda mesmo, porque eu fazia ali um personagem… eu tive muita sorte porque eu fiz ótimos personagens durante esses anos todos e eu gostava de fazer televisão, mas tinha ali o meu contracheque fixo todo mês. E quando o meu contrato não foi mais renovado porque a política da Globo se modificou, eu levei um susto, porque eu realmente estava acostumada àquele esquema. E quando eu resolvi produzir tanto o teatro quanto o longa-metragem, foi uma experiência que mudou tudo. A minha ótica se transformou completamente em relação ao trabalho, porque eu comecei a perceber o valor que cada coisa tem, cada conquista. Cada copo que tem ali para você tomar sua água foi pensado por alguém, foi adquirido. Então tudo ali tem um valor. Você escolher um texto, chamar uma equipe em que você acredita, escolher o elenco… tudo tem uma grande importância e eu aprendi muito com isso.

JOÃO PEDRO MELLO: Alguns enxergam na tua personagem um cinismo muito duro, mas a gente sabe que ela é o filtro pesado entre o ontem e o amanhã. Essa pretensa acidez é a fortaleza dela? E como funciona o jogo cênico para equilibrar tudo isso com a Ana e a Fernanda ali em cima?

HELENA RANALDI: Eu acho que a minha personagem é justamente o recheio desse sanduíche. Ela tá ali no meio, e muitas vezes a gente gosta muito mais do recheio do que das partes que estão nas beiras. E eu não vejo essa personagem com esse cinismo todo. Pelo contrário, eu acho que é uma personagem que já conquistou, através da vivência dela dos 52 anos, uma maturidade que a faz estar num lugar de enxergar as coisas com mais tranquilidade, mais clareza. A minha personagem não tem problema em chegar aos 90. O problema é a personagem da Fernandinha, que quando olha a personagem da Ana fala: “Eu não quero virar isso”. Mas é porque ela tem ali um ideal de vida que só o tempo mesmo é que vai mostrar para ela o que é a vida. Eu já passei por tantas coisas que eu sei que não vou precisar passar mais. Não por medo, por simples escolhas. Outros horizontes vão se abrir. Declínios, decadências, peculiaridades, mas tudo muito interessante. Ela ainda fala: “50 é como o topo de uma montanha. Dá para enxergar em todas as direções.”

Olha, eu acho que o nosso jogo ali é mais um frescobol de três, porque na partida de tênis um tem que ganhar do outro. No frescobol, a gente não pode deixar a bola cair pro jogo não acabar. Então a gente tem uma troca muito interessante. Nós nos conhecemos numa novela chamada Despedida de Solteiro. A Ana era minha mãe nessa novela e a Fernandinha tinha 8 anos; ela fazia a filha da Tássia Camargo. Nós nos conhecemos lá, e agora, depois de muitos anos, estamos nós três no palco juntas.

CAPÍTULO III: O ÚLTIMO TAC — O LABIRINTO DA MEMÓRIA E O ABISMO SEM PARAQUEDAS

mulheres
Ana Rosa (Foto: André Furtado/Divulgação)

Por fim, o tic-tac se arrasta. Chegamos ao centro do labirinto. A personagem “A”, do alto de seus assombrosos 92 anos, sobreviveu às amarras do machismo estrutural e agora lida com a traição definitiva: as falhas de seu próprio corpo e os lapsos da memória. Para viver esse monumento dramatúrgico, a produção não buscou apenas uma atriz, convocou a própria história. Aos 84 anos de vida, a recordista mundial Ana Rosa pisa no palco para promover o mais denso acerto de contas com a finitude que o teatro já viu.

JOÃO PEDRO MELLO: Ana, o palco é um animal que você domou a vida inteira. Mas a personagem “A” carrega um peso sufocante. Ela é uma sobrevivente que, na antessala do fim, lida com uma memória fragmentada. O que te atrai nessa fratura dela?

ANA ROSA: A vida dessa mulher, que nasceu no final do século XIX, em 1800 e quase final do século, viveu a sua infância toda numa época em que o machismo era muito grande, as mulheres não tinham voz própria. A mulher vivia para cuidar dos filhos, para parir, para cuidar da casa e do marido. E num determinado ponto, em que de repente ela já não podia mais depender do pai, esse pai arrumava um casamento para que essa mulher continuasse tendo a sua subsistência garantida. Então, é como se ela assistisse a um filme da vida dela passando. Mas com experiências diferentes, a deterioração física natural para qualquer pessoa quando chega nessa idade, alguma perda de memória. E a minha personagem tem consciência de que ela tá realmente tendo esses lapsos de memória. Isso deixa ela muito irritada.

Quem é jovem e ainda não chegou lá e para pra pensar. Tem um pai, uma mãe, uma avó, tia ou uma pessoa mais velha na família. Então começam a fazer essas analogias do que cada uma dessas pessoas idosas da sua família viveu e o que essa mulher tá mostrando no palco. Ele fala diretamente com qualquer pessoa da plateia. E as pessoas de mais idade… a gente teve na plateia uma senhora lúcida com 91, 92 anos, que foi me abraçar muito e disse: “Ah, que maravilha! Me vi lá no palco, você falando.”

JOÃO PEDRO MELLO: Nós consumimos a vida num ritmo frenético hoje, pelo celular. Você, que viu o audiovisual nascer no Brasil de uma época em que a fita era colada com durex, como enxerga essa urgência do palco? E por que o teatro continua sendo o verdadeiro teste de fogo para o artista?

ANA ROSA: No meu tempo não tinha ponto eletrônico. O ator, a primeira obrigação que a gente aprendia era chegar na hora e decorar o texto, porque se a gente esquecesse alguma coisa, o diretor queria comer o fígado do ator. Para fazer uma emenda, era igual a de cinema: era uma fita de videotape muito larga que eles cortavam aquele pedaço, juntavam as outras duas e colavam com a fita durex. Isso dava um trabalho e atrasava o serviço. Hoje em dia, o ator tá ali, “ah, esqueci”, dá um corte e recomeça dali. Mas o palco… você entra, não tem desculpa.

Existe até uma história famosa no nosso meio de uma atriz que recebia um bilhete de um amante em cena, lia, e ela tinha que sumir com aquilo porque o marido ia chegar. Tinha na mesinha de centro um cinzeiro e o isqueiro. Ela queimava aquilo e saía. O marido entrava dali a pouco e dizia: “Que cheiro de papel queimado!”. Bom, aconteceu que um dia o coitado do contrarregra esqueceu de deixar o isqueiro. E a mulher chegou ali, ela tava com o papel na mão, não tinha o que fazer. O que ela fez? Ela picou, rasgou, rasgou, rasgou, jogou no cinzeiro e saiu. O ator que tava fora de cena, vendo para entrar, também tinha que se salvar de alguma forma. Ele entrou, olhou: “Que cheiro de papel rasgado!”.

Quando você chega no palco, é a mesma coisa que você se atirar num abismo sem paraquedas, porque você não tem saída, você entrou ali, acontece o que aconteceu, você tem que se safar. Mas quando o pano fecha e a gente fez um bom espetáculo, a gente sente o retorno do público através dos aplausos, às vezes assobios e gritos. Isso é uma sensação que não há dinheiro que pague. A sensação quando a gente termina o espetáculo é sempre maravilhosa, porque esse retorno, esse carinho que a gente recebe, isso enche a alma da gente.

E para Porto Alegre, eu quero mandar pros gaúchos um abraço todo especial e carinhoso. Meu marido era gaúcho, lá de Quaraí, família dele de Santana do Livramento. Então eu tenho um carinho todo especial pelos gaúchos e espero realmente que eles gostem do nosso espetáculo.

O compasso do relógio é, de fato, implacável. Aquele tic-tac surdo, que dita o ritmo das nossas ilusões, das nossas perdas e das nossas raras certezas, materializa-se de forma magistral no palco. O texto de Edward Albee não oferece conforto; ele exige confronto. E é justamente na carne, no suor e na coragem absoluta dessas três gigantes da nossa dramaturgia que essa fratura existencial ganha fôlego e espelha a nossa própria humanidade. Fernanda, Helena e Ana Rosa nos lembram que a única maneira de suportar a gravidade do tempo é ter a audácia de encará-lo de frente, cara a cara, antes que as luzes se apaguem em definitivo.

E, evidentemente, a engrenagem não para de girar e a cortina sempre volta a abrir. Para continuar acompanhando o pulso da cultura, conferir a entrevista completa sem filtros e desvendar a anatomia das artes na nossa região, acesse sempre o portal ABCdoABC e fique atento para as próximas imersões no CineABC Metrópole.

SERVIÇO DE TRÊS MULHERES ALTAS

  • Espetáculo: “Três Mulheres Altas”
  • Texto: Edward Albee
  • Direção: Fernando Philbert
  • Elenco: Ana Rosa, Helena Ranaldi e Fernanda Nobre
  • Local: Teatro Simões Lopes Neto – Centro Histórico, Porto Alegre (RS)
  • Datas e Horários: Sexta-feira (05/06) e Sábado (06/06) às 20h00 | Domingo (07/06) às 18h00
  • Ingressos: Disponíveis através da plataforma ElevenTickets e na bilheteria física do teatro.
  • Publicado: 03/06/2026 20:02
  • Alterado: 03/06/2026 20:23
  • Autor: João Pedro Mello
  • Fonte: ABC do ABC