Sarampo volta a SP e reforça urgência da vacinação
A queda na vacinação contra o sarampo abre espaço para complicações graves e surtos; entenda os riscos e veja quem precisa se imunizar
- Publicado: 07/08/2026 17:13
- Alterado: 07/08/2026 17:13
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: ABC do ABC
O Brasil confirmou 24 casos de sarampo em 2026. Desses, 23 foram registrados na Região Metropolitana de São Paulo, 20 na capital, dois em São Bernardo do Campo e um em Guarulhos. O outro caso ocorreu no Rio de Janeiro.
O aumento dos registros levou o estado de São Paulo a enfrentar um surto ativo apenas dois anos depois de o país recuperar o certificado de eliminação da doença, em 2024. A situação acendeu o alerta das autoridades de saúde, que iniciaram uma campanha de vacinação de bloqueio até 1º de setembro.
A preocupação está ligada à queda na cobertura da vacina tríplice viral. No estado de São Paulo, a primeira dose alcançou 77,5% do público-alvo, enquanto a segunda ficou em 65,5%, bem abaixo da meta de 95% estabelecida pelo Ministério da Saúde.
Os casos também revelam quem está mais vulnerável. A maioria dos pacientes é formada por bebês de até 2 anos e adultos entre 20 e 50 anos. Entre os diagnosticados no estado, 16 não haviam sido vacinados ou estavam com o esquema vacinal incompleto.
Para o infectologista docente de Medicina do Centro Universitário Max Planck (UNIMAX), Fernando Monti, o retorno da doença está diretamente relacionado à redução da cobertura vacinal.
“Essa quantidade de casos é um sinal de alerta super importante porque não estávamos tendo mais a ocorrência de sarampo. Quando controlamos uma doença e surgem novos registros, ela se torna uma ameaça, pois indica a circulação ativa do vírus.”, alerta o médico.
Queda na vacinação favorece a circulação do vírus

A médica infectologista e orientadora da pós-graduação em Doenças Infecciosas e Saúde Global da FMUSP, Dra. Thaís Guimarães, explica que a falsa ideia de que adquirir imunidade após contrair a doença seria melhor do que vacinar é um dos fatores que contribuem para a queda nas vacinações.
“O sarampo é uma doença prevenível por vacina e com uma vacina eficaz, então não tem por que esperar ter a imunidade natural e sofrer com uma doença que pode ter complicações graves. Esse racional de buscar imunidade natural não condiz com nenhuma doença prevenível por vacina”, afirma a infectologista.
Fernando Monti reforça que a vacinação continua sendo a forma mais segura de desenvolver proteção.
“A ideia de que pegar a doença é melhor não faz nenhum sentido. Se a imunidade natural funcionasse para controle populacional, muito antes das vacinas as doenças teriam sido eliminadas. Além disso, não faz sentido alguém passar por todo o transtorno e risco de ter a doença quando se tem o recurso da vacinação.”
A facilidade de transmissão é outro motivo de preocupação. O sarampo é uma das doenças infecciosas mais contagiosas conhecidas e pode ser transmitido pelo ar por meio de gotículas respiratórias. Em uma população sem imunização, uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para até 18 outras.
“A alta cobertura vacinal serve justamente para impedir que o vírus circule. Se eu tenho uma pessoa doente e o vírus encontra pessoas suscetíveis, a doença ocorre em formas de surtos. Mantendo a população imune, mesmo que surja um caso esporádico, o vírus não alcança novas pessoas”, explica Thaís Guimarães.
Doença pode causar complicações graves
Embora muitas pessoas associem o sarampo apenas a febre e manchas pelo corpo, a doença pode evoluir para quadros graves, principalmente em crianças pequenas.
Segundo Thaís Guimarães, as complicações mais frequentes incluem pneumonia, encefalite e desidratação grave.
“A porta de entrada são as narinas, a faringe e o pulmão. A complicação mais frequente é a pneumonia viral, que pode evoluir para uma infecção bacteriana e levar à insuficiência respiratória. A outra complicação é a atração do vírus pelo sistema nervoso central, podendo causar encefalite [inflamação no cérebro], além da desidratação grave.”

Monti destaca que, além do risco de morte, alguns pacientes podem desenvolver sequelas permanentes.
“Tanto crianças quanto adultos podem evoluir com sequelas definitivas, como a surdez provocada pela encefalite. Na era pré-vacinação, a quantidade de crianças que morriam de sarampo era altíssima. Além do prejuízo individual, a baixa cobertura desprotege justamente as pessoas vulneráveis que não podem ser vacinadas por razões médicas.”
Os dois especialistas também alertam que a queda na vacinação pode abrir espaço para o retorno de outras doenças já controladas.
“A probabilidade de voltarmos a conviver com doenças superadas existe se relaxarmos. A pessoa pensa: ‘Se a doença não existe mais, por que me vacinar?’. Ela não existe justamente porque fomos vacinados. O sarampo é o melhor exemplo: foi só a cobertura cair que ele reapareceu. A poliomielite é outro risco real se as pessoas deixarem de se vacinar”, afirma Monti.
Quem deve tomar a vacina?
Com o surto em andamento, as autoridades de saúde orientam a vacinação de pessoas entre 6 meses e 59 anos, conforme a situação vacinal de cada grupo.
- Bebês de 6 a 11 meses: devem receber a chamada dose zero em áreas com circulação do vírus.
- Crianças de 12 a 15 meses: seguem o calendário regular, com duas doses, aos 12 e aos 15 meses.
- Pessoas de 1 a 29 anos: precisam comprovar duas doses da vacina.
- Adultos de 30 a 59 anos: devem ter pelo menos uma dose registrada.
- Profissionais de saúde: precisam ter duas doses, independentemente da idade.
Quem não deve receber a vacina
A tríplice viral é produzida com vírus vivos atenuados e, por isso, possui contraindicações.
Não devem receber a vacina:
- gestantes;
- bebês com menos de 6 meses;
- pessoas com imunossupressão grave, como pacientes em quimioterapia, recém-transplantados ou pessoas vivendo com HIV em estágio avançado.
Mulheres que estejam amamentando podem ser vacinadas normalmente. Já pessoas com mais de 60 anos, em geral, não fazem parte das campanhas de bloqueio por terem adquirido imunidade antes da introdução da vacina.
Onde se vacinar
A vacina está disponível gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e postos de vacinação do SUS.
Para receber a dose, é recomendado apresentar:
- documento oficial com foto;
- CPF ou Cartão Nacional de Saúde (CNS);
- carteira de vacinação, se disponível.
Quem não tiver a caderneta deve procurar uma UBS da mesma forma para que os profissionais avaliem a situação vacinal e indiquem a necessidade de imunização.