Sabesp investe R$ 3 bilhões no ABC, mas onde está esse dinheiro?
ABCdoABC ouviu a Sabesp e procurou todas as prefeituras da região para descobrir como o saneamento no ABC é transformado pelos recursos previstos até 2029
- Publicado: 05/08/2026 17:21
- Alterado: 05/08/2026 17:23
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: ABCdoABC
Durante décadas, o saneamento no ABC cresceu em ritmo inferior ao desenvolvimento urbano da região. Enquanto bairros surgiam, a população aumentava e a demanda por infraestrutura se tornava cada vez maior, redes de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto passaram a operar sob pressão constante. O resultado foi a consolidação de desafios que atravessaram diferentes governos e continuam presentes em cidades que hoje concentram alguns dos maiores polos industriais e populacionais do Estado de São Paulo.
É nesse contexto que a Sabesp anuncia um dos maiores ciclos de investimento já destinados ao Grande ABC. A companhia prevê aplicar R$ 2,97 bilhões até 2029 em obras voltadas à ampliação da oferta de água tratada, expansão da coleta e do tratamento de esgoto, modernização de sistemas existentes e reforço da segurança hídrica. Segundo a empresa, aproximadamente R$ 1,23 bilhão já foi investido entre 2024 e o primeiro trimestre de 2026, distribuído entre Santo André, São Bernardo do Campo, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.
O volume de recursos coloca o saneamento no ABC no centro de uma discussão que vai muito além das obras anunciadas. A universalização dos serviços, prevista para os próximos anos, depende não apenas da execução dos investimentos, mas da capacidade de transformar intervenções de engenharia em melhorias efetivas para uma região marcada por diferentes realidades urbanas, ambientais e sociais. Em alguns municípios, a prioridade é ampliar a segurança no abastecimento. Em outros, acelerar a coleta de esgoto, recuperar áreas de mananciais ou preparar a infraestrutura para acompanhar o crescimento populacional das próximas décadas.
Uma infraestrutura que ultrapassa os limites de cada cidade

Embora os investimentos estejam distribuídos entre diferentes municípios, boa parte das obras possui caráter regional. Sistemas de abastecimento, reservatórios, estações de tratamento e redes de transporte de água e esgoto funcionam de forma integrada, fazendo com que uma intervenção executada em determinada cidade produza reflexos significativos também nos municípios vizinhos. Essa característica ajuda a explicar por que o saneamento no ABC passou a ser planejado em escala regional, buscando equilibrar demandas históricas que deixaram de respeitar fronteiras administrativas há muitos anos.
Essa integração também ajuda a compreender a diferença entre os valores destinados a cada município. Enquanto algumas cidades concentram grandes empreendimentos estruturantes, outras recebem intervenções voltadas à expansão de redes, modernização de equipamentos ou reforço da infraestrutura existente. O conjunto dessas obras forma um mosaico que pretende elevar os indicadores de abastecimento de água e coleta de esgoto até 2029, prazo estabelecido para a universalização dos serviços.
Os quatro eixos que devem transformar o saneamento no Grande ABC

O plano de investimentos da Sabesp para o saneamento no ABC não está concentrado em uma única obra nem se resume à expansão das redes de água e esgoto. A estratégia foi estruturada para atuar em diferentes frentes da infraestrutura regional, combinando obras de abastecimento, modernização de sistemas antigos, ampliação da coleta e do tratamento de esgoto, recuperação ambiental e aumento da segurança hídrica. São intervenções de grande porte que se conectam entre si e que, segundo a concessionária, deverão permitir que a região alcance as metas de universalização previstas para 2029.
Segurança hídrica concentra as maiores obras
Garantir água disponível mesmo em períodos de estiagem é uma das prioridades do novo ciclo de investimentos. Entre os principais empreendimentos está a modernização da Estação de Tratamento de Água (ETA) Rio Grande, considerada uma das estruturas mais importantes do sistema de abastecimento da região. Com investimento de R$ 95 milhões, a obra pretende ampliar a capacidade operacional da unidade, aumentar a confiabilidade do sistema e oferecer maior estabilidade no fornecimento de água para milhares de moradores.
Outro projeto considerado estratégico é a implantação do Sistema de Transferência de Água Bruta Billings-Taiaçupeba. Orçada em aproximadamente R$ 1,4 bilhão, a intervenção permitirá maior flexibilidade entre reservatórios que integram o Sistema Integrado Metropolitano, ampliando a capacidade de resposta em momentos de redução da disponibilidade hídrica. Segundo a Sabesp, cerca de 22 milhões de pessoas serão beneficiadas pelo empreendimento, incluindo, óbvio, municípios atendidos pelo saneamento no ABC.
Coleta e tratamento de esgoto recebem expansão inédita
Uma parcela significativa dos recursos será direcionada à ampliação da infraestrutura de esgotamento sanitário. O plano contempla novas redes coletoras, estações elevatórias, sistemas de bombeamento e estruturas responsáveis pelo transporte do esgoto até as unidades de tratamento.
Entre as intervenções previstas estão obras em bairros como Rudge Ramos, Baeta Neves, Ferrazópolis, Vila Santa Luzia, Casa Grande, Vila Prudente e Vila Cecília Maria, além da implantação do Sistema de Tratamento de Esgotos Rio Grande. A expectativa é ampliar a capacidade da rede existente, reduzir sobrecargas em sistemas antigos e acelerar a expansão da cobertura de esgoto tratado, um dos principais indicadores utilizados para medir a evolução do saneamento no ABC.
Recuperação ambiental integra o pacote de investimentos
As obras também possuem impacto direto sobre a preservação dos recursos hídricos da região. Parte dos investimentos está concentrada em áreas próximas à Represa Billings, onde a ampliação das redes de coleta permitirá encaminhar para tratamento o esgoto que hoje ainda representa risco aos mananciais.
Segundo a Sabesp, além da implantação de novas ligações domiciliares e da regularização de imóveis, essas intervenções contribuirão para reduzir o lançamento de efluentes em córregos e reservatórios utilizados no abastecimento público. A recuperação ambiental aparece, assim, como um dos pilares da estratégia para fortalecer o saneamento no ABC, conciliando infraestrutura urbana e preservação dos mananciais.
Infraestrutura preparada para as próximas décadas
Além das grandes obras, o pacote inclui dezenas de intervenções menos perceptíveis para a população, mas consideradas essenciais para o funcionamento do sistema. Estão previstas a renovação de tubulações antigas, modernização de equipamentos operacionais, recuperação de estações elevatórias, implantação de novos reservatórios e substituição de redes que já apresentam desgaste após anos de utilização.
Em Mauá, por exemplo, a implantação de um novo Centro de Reservação, novas estações elevatórias e do Reservatório Anchieta ampliará a capacidade de armazenamento em cerca de 10 milhões de litros de água, aumentando a estabilidade do abastecimento para aproximadamente 240 mil moradores. Outras intervenções seguem a mesma lógica, preparando a infraestrutura para acompanhar o crescimento urbano e reduzir perdas operacionais.
Ao apresentar esse conjunto de obras, a Sabesp afirma que o objetivo vai além do cumprimento das metas estabelecidas pelo novo marco legal. A proposta é criar uma estrutura mais resiliente, capaz de responder ao crescimento populacional, enfrentar eventos climáticos extremos e ampliar gradativamente a cobertura dos serviços. Na prática, trata-se de um plano que pretende reorganizar a infraestrutura responsável pelo saneamento no ABC e criar as condições necessárias para que os investimentos anunciados se traduzam em resultados permanentes para a população.
O retrato do saneamento no ABC
Embora os investimentos façam parte de um mesmo plano regional, a percepção sobre seus impactos varia entre os municípios. Enquanto algumas administrações avaliam que as obras representam um avanço importante para ampliar a cobertura dos serviços e aproximar a região da universalização, outras defendem novos aportes para acelerar intervenções consideradas prioritárias.
Confira quanto a Sabesp vai investir em cada município
| Município | Investimento anunciado |
|---|---|
| Santo André | R$ 491 milhões |
| São Bernardo do Campo | R$ 440 milhões |
| Diadema | R$ 127 milhões |
| Mauá | R$ 105 milhões |
| Ribeirão Pires | R$ 50 milhões |
| Rio Grande da Serra | R$ 16 milhões |
Santo André aposta na continuidade das intervenções

Cidade que concentra o maior volume de investimentos anunciados pela Sabesp entre 2024 e o primeiro trimestre de 2026, Santo André afirma que as obras vêm contribuindo para ampliar a infraestrutura de abastecimento e esgotamento sanitário. A administração municipal destaca que intervenções do programa Integra Tietê somam mais de R$ 210 milhões e incluem aproximadamente 35 quilômetros de novas redes, além da implantação de cinco estações elevatórias de esgoto no Recreio da Borda do Campo.
Na avaliação da Prefeitura, o objetivo é acelerar o processo de universalização do saneamento, reduzindo a poluição dos cursos d’água, fortalecendo a saúde pública e ampliando a proteção ambiental. O município também ressalta que acompanha a execução do contrato por meio do Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André (Semasa) e participa da Unidade Regional de Serviços de Abastecimento de Água Potável e Esgotamento Sanitário (URAE), responsável pelo monitoramento regional das metas estabelecidas para a concessionária.
Diadema destaca expansão da infraestrutura

Em Diadema, a Prefeitura informa que mais de 18 intervenções executadas pela Sabesp já foram concluídas ou permanecem em andamento, beneficiando cerca de 28,8 mil moradores. Outros 18 projetos estão em fase de elaboração e deverão ampliar a infraestrutura nos próximos anos.
Segundo a administração municipal, a melhoria do abastecimento de água e da coleta e tratamento de esgoto produz reflexos diretos na saúde, na qualidade de vida, nas condições de moradia e na preservação ambiental, fatores considerados essenciais para a evolução do saneamento no Grande ABC.
Ribeirão Pires reconhece avanços, mas cobra novos investimentos

A posição mais cautelosa veio de Ribeirão Pires. A Prefeitura reconhece os investimentos realizados pela Sabesp na ampliação das redes de água e esgoto e na substituição de hidrômetros, mas avalia que os recursos ainda não acompanham a urgência das demandas ambientais enfrentadas pelo município.
Segundo a administração, a recuperação do Rio Grande e da Represa Billings exige investimentos contínuos e fiscalização permanente para que a meta de universalização prevista para 2029 seja efetivamente alcançada. O município informou ainda que o plano de metas foi elaborado em conjunto com técnicos da concessionária, seguindo as diretrizes estabelecidas pelo Plano Municipal de Saneamento.
Rio Grande da Serra aguarda definição dos próximos investimentos

Rio Grande da Serra informou que mantém reuniões periódicas com representantes da Sabesp para acompanhar o planejamento das obras e a compatibilização dos projetos dentro do município. A administração afirmou, no entanto, que aguarda a consolidação do cronograma e a confirmação oficial dos investimentos previstos para os próximos anos antes de fazer uma avaliação definitiva sobre sua suficiência.
Segundo o município, a expectativa é que os novos aportes permitam ampliar a cobertura dos serviços e contribuir para o fortalecimento do saneamento local, objetivo que dependerá da execução das obras previstas até 2029.
São Caetano não integra o pacote da Sabesp

Embora São Caetano do Sul não tenha sido contemplada pelo pacote de investimentos da Sabesp, por não integrar a área de concessão da companhia, o município segue um modelo próprio de gestão do saneamento. O serviço de abastecimento de água, coleta de esgoto e saneamento ambiental é operado pela autarquia municipal SAESA (Sistema de Água, Esgoto e Saneamento Ambiental). Ainda assim, a cidade poderá receber até R$ 412,6 milhões em investimentos por meio do programa estadual UniversalizaSP, voltado à segurança hídrica, drenagem urbana, modernização da infraestrutura e enfrentamento de enchentes até 2060.
*As prefeituras de Mauá e de São Bernardo do Campo foram consultadas pelo ABCdoABC durante a apuração, mas, até o fechamento desta reportagem, não se manifestaram sobre os investimentos anunciados pela Sabesp para seus municípios.
Universalização será medida pelas obras, não pelos anúncios

Os investimentos anunciados pela Sabesp fazem parte do compromisso firmado com o novo marco legal do saneamento básico, que estabelece metas para ampliar o acesso à água tratada e à coleta e tratamento de esgoto em todo o país. No caso da região atendida pela companhia, a expectativa é que, até 2029, 99% da população tenha acesso à água tratada e 90% seja atendida pela coleta de esgoto. Cumprir esses índices, entretanto, depende de uma sequência de etapas que vai além da divulgação dos investimentos e da assinatura de contratos.
Cada empreendimento previsto possui cronogramas próprios, processos de licenciamento, desafios de engenharia e necessidade de acompanhamento permanente durante sua execução. Obras dessa dimensão costumam ser realizadas ao longo de vários anos e exigem integração entre concessionária, administrações municipais, órgãos reguladores e instâncias responsáveis pela fiscalização do contrato. A conclusão dentro dos prazos previstos será determinante para que as metas estabelecidas para o saneamento no ABC possam ser efetivamente alcançadas.
Outro aspecto relevante é que os benefícios dessas intervenções não se limitam ao abastecimento de água ou à expansão da rede de esgoto. A ampliação da infraestrutura sanitária possui impacto direto sobre a saúde pública, reduz a contaminação de rios e mananciais, fortalece a preservação ambiental e cria condições para o desenvolvimento urbano de forma mais organizada.
O acompanhamento da execução das obras passa a ter importância semelhante ao anúncio dos investimentos. A população, os municípios e os órgãos responsáveis pela fiscalização deverão acompanhar a evolução física das intervenções, o cumprimento dos cronogramas e o atendimento das metas estabelecidas para os próximos anos. A expectativa criada pelos quase R$ 3 bilhões previstos somente será confirmada à medida que reservatórios forem concluídos, novas redes entrarem em operação, sistemas forem modernizados e o acesso aos serviços de água e esgoto se ampliar de forma consistente.
Depois de décadas em que a expansão da infraestrutura ficou aquém do crescimento das cidades, o Grande ABC passa a conviver com um volume de investimentos sem precedentes. Se o planejamento for executado conforme previsto, os próximos anos poderão representar uma mudança estrutural na forma como milhões de moradores se relacionam com um serviço que, muitas vezes, só é percebido quando falha. Até lá, a principal medida de sucesso não estará nos bilhões anunciados, mas na capacidade de transformar projetos em obras concluídas e obras concluídas em melhorias permanentes para a população.