Saiba por que a vacina da gripe não é sua inimiga
Ampliação da campanha de vacina da gripe para pessoas acima de 6 meses ocorre enquanto internações por influenza dobram no país e redes sociais seguem tomadas por dúvidas e comentários antivacina
- Publicado: 20/05/2026 19:15
- Alterado: 20/05/2026 19:15
- Autor: Suzana Rezende
- Fonte: ABCdoABC
Com a ampliação da campanha da vacina da gripe para todas as pessoas acima de 6 meses nas cidades do ABC Paulista, as prefeituras da região intensificaram campanhas para aumentar a cobertura vacinal antes do inverno. Apesar disso, as publicações oficiais nas redes sociais continuam recebendo comentários de desinformação e resistência à imunização, como “pode tomar a minha dose”, “não vou tomar, não quero morrer” e dúvidas sobre supostos efeitos colaterais graves.
O cenário preocupa autoridades de saúde porque ocorre justamente em um momento de crescimento expressivo dos casos graves de influenza. Dados analisados pelo Instituto Todos pela Saúde apontam que as ocorrências de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) associadas ao vírus influenza mais que dobraram em relação ao mesmo período do ano passado.
Nas primeiras 11 semanas epidemiológicas de 2026, encerradas em 21 de março, foram registrados 3.681 casos graves no país. No mesmo intervalo de 2025, foram 1.838 notificações — aumento de 100,3%.
A SRAG é um quadro respiratório grave que exige hospitalização e pode evoluir para complicações severas, especialmente entre idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas com doenças crônicas.
O que é a gripe e por que ela preocupa
Segundo o Ministério da Saúde, a gripe é uma infecção aguda do sistema respiratório provocada pelo vírus influenza, com alto potencial de transmissão. Existem quatro tipos de vírus influenza: A, B, C e D.
Os vírus influenza A e B são os responsáveis pelas epidemias sazonais. O tipo A também está associado às grandes pandemias registradas ao longo da história.
Entre os subtipos do influenza A que atualmente circulam entre humanos estão o A(H1N1)pdm09 e o A(H3N2). Já os vírus influenza B circulam em duas principais linhagens: B/Yamagata e B/Victoria.
O Ministério da Saúde explica ainda que diferentes vírus respiratórios podem provocar sintomas semelhantes aos da gripe, o que gera confusão frequente entre gripe e resfriado.
A médica infectologista Dra. Angela Carvalho Freitas, pesquisadora colaboradora do Departamento de Infectologia e Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP, afirma que a distinção é importante para entender a função da vacina.
“A gripe apresenta-se de início mais súbito com os sintomas já citados acrescidos de febre alta, calafrios, dor de cabeça, prostração/fadiga, dor muscular intensa, e tem o potencial de evoluir com pneumonia viral e necessidade de uso de oxigênio”, explica.
Ela ressalta que o resfriado costuma ser mais leve e gradual, geralmente causado por outros vírus respiratórios, como rinovírus, adenovírus, vírus sincicial respiratório (VSR) e coronavírus sazonais.
“Na realidade é comum as pessoas confundirem gripe com resfriado. A vacina protege contra os casos graves, de gripe causados pelo vírus influenza”, afirma.
Como funciona a vacina da gripe

A vacina oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde é a vacina trivalente produzida pelo Instituto Butantan. Segundo a infectologista, o imunizante foi desenvolvido e testado em ensaios clínicos monitorados e aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
“As vacinas para a gripe funcionam ativando nosso sistema de defesa (sistema imunológico) a combater os vírus influenza que entram em contato com o nosso corpo”, explica Dra. Angela.
A composição do imunizante é atualizada anualmente conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), levando em consideração as cepas com maior circulação no ano anterior.
Neste ano, a vacina protege contra os vírus influenza tipo A H1N1, tipo A H3N2 e influenza tipo B.
A necessidade de vacinação anual, segundo a especialista, ocorre por dois fatores principais: as constantes mudanças dos vírus influenza e a redução gradual da proteção oferecida pela vacina ao longo dos meses.
“A necessidade de ser anual é por dois motivos: a variabilidade dos vírus que circulam a cada ano; e a diminuição da proteção conferida pela vacina, que diminui bastante após aproximadamente 6 meses do recebimento”, afirma.
Vacina não causa gripe, diz especialista

Entre as dúvidas mais recorrentes nas redes sociais das prefeituras do ABC está a crença de que a vacina pode causar gripe. A infectologista explica que isso não acontece.
Segundo ela, o que ocorre é que muitas pessoas podem apresentar resfriados causados por outros vírus respiratórios mesmo após a vacinação.
“No entanto como vários vírus podem causar resfriado comum, e a vacina não foi desenvolvida para proteger contra esses vírus, é comum as pessoas apresentarem episódios de resfriado apesar de terem se vacinado contra a gripe”, esclarece.
A médica reforça que o principal objetivo da imunização é evitar formas graves da doença, reduzindo internações, pneumonias e mortes.
“Tomar a vacina é importante para diminuir a chance de ter infecção respiratória grave pelo vírus influenza, que evoluem como pneumonia e necessidade de internação”, destaca.
Ela também afirma que há diversos estudos comprovando que a vacinação reduz significativamente o número de internações, pneumonias bacterianas secundárias, sequelas pulmonares e mortes durante os períodos de maior circulação de vírus respiratórios, especialmente no fim do outono e inverno.
Fake news sobre trombose preocupam especialistas

Outro ponto que vem gerando comentários nas redes sociais é a falsa associação entre a vacina da gripe e casos de trombose ou doenças cardiovasculares.
A infectologista rebate categoricamente essa informação.
“Nenhuma vacina contra gripe apresentou episódios associados de trombose ou outros problemas cardiovasculares associados à vacina, durante os estudos de aprovação ou posteriormente durante todos os anos em que utilizamos a vacina como medida de prevenção de saúde pública”, afirma.
Segundo Dra. Angela, o efeito observado é justamente o contrário: pessoas com doenças cardiovasculares tendem a se beneficiar ainda mais da vacinação porque fazem parte dos grupos mais vulneráveis às complicações respiratórias graves.
“Na realidade, a vacina contra influenza diminui complicações e óbito em pessoas que possuem doenças cardiovasculares, pois são pessoas mais suscetíveis a complicação e óbito durante episódios de infecções graves, incluindo pneumonias”, explica.
Baixa adesão preocupa com chegada do inverno
A ampliação da campanha de vacinação no ABC busca justamente aumentar a cobertura antes da chegada do inverno, período em que tradicionalmente há maior circulação de vírus respiratórios.
Especialistas alertam que a combinação entre baixa adesão vacinal e aumento de casos graves pode pressionar hospitais e unidades de saúde da região.
Mesmo assim, a resistência à vacinação continua evidente nos comentários de redes sociais, onde publicações oficiais frequentemente acumulam mensagens de desconfiança, ironias e informações falsas sobre o imunizante.
A situação expõe um desafio crescente para os municípios: combater a desinformação em um momento em que os casos de influenza avançam e os riscos de complicações respiratórias aumentam.
Enquanto isso, autoridades de saúde reforçam que a vacinação continua sendo a principal ferramenta para evitar formas graves da gripe, reduzir internações e preservar vidas durante o período de maior circulação viral.