Redução de jornada ignora a realidade industrial
Setor de máquinas alerta que alteração na carga horária semanal sem evolução tecnológica pressiona financeiramente fábricas brasileiras.
- Publicado: 13/05/2026 12:39
- Alterado: 13/05/2026 12:39
- Autor: José Velloso
- Fonte: José Velloso
O debate sobre o fim da escala 6 x 1 e a redução de jornada máxima semanal ganhou força no Congresso Nacional. Trata-se de um debate legítimo, mas incompleto. Embora a pauta tenha apelo social, a análise dos impactos na economia real exige olhar para os números. O principal desafio apresentado é manter o volume de produção e a viabilidade financeira das indústrias, uma vez que na indústria o tempo de máquina operando define o custo do produto. Se a jornada diminui, a empresa tem apenas duas saídas matemáticas — e ambas elevam o custo final, se constituindo em duas rotas de impacto.
As rotas de impacto no custo de produção
Se tomarmos como base de cálculo que uma empresa hipotética leva 44 horas para a produção de 100 peças, uma das opções seria considerar a manutenção da equipe, reduzindo horas trabalhadas, com uma queda proporcional na produção. Com redução de 18% de tempo vamos ter uma redução de 18% de peças, mas o custo fixo se mantém. A outra rota de impacto seria manter a produção, contratando mais pessoas, com a criação de novos turnos de revezamento, o que representa um aumento direto na folha de pagamento e encargos. Enquanto na primeira opção o resultado é um aumento no custo unitário de cada peça, na segunda é um aumento no custo operacional como um todo.
O fato é que na indústria, menos horas trabalhadas, sem aumento de eficiência significa, obrigatoriamente, repasse de custos ou perda de margem. Menos horas sem ganho de eficiência, é igual a aumento de custo e perda de competitividade. Reduzir horas de trabalho sem equilibrar a produtividade gera um déficit imediato na operação.
O desafio do Custo Brasil e a comparação internacional
Temos que considerar ainda a ilusão da comparação internacional. Defensores da redução citam países desenvolvidos como exemplo de sucesso. Mas essa comparação ignora a métrica mais importante da economia: a Produtividade por Hora Trabalhada. Além disso, há de se considerar nessa conta o peso do Custo Brasil que exerce uma pressão invisível sobre a margem, o que dificulta a competitividade antes mesmo da máquina ser ligada. Se produzir no Brasil custa cerca de 26% a mais do que em outros países, adicionar o custo de uma redução de jornada abrupta pode comprometer a sustentabilidade financeira de uma operação. A indústria brasileira não compete apenas com o mercado externo; ela compete contra o próprio ambiente de negócios do país.
Investimento em educação e modernização
Acreditamos na melhoria contínua das condições de trabalho. Mas, na matemática industrial, a ordem dos fatores altera o produto. A redução da jornada deve ser a consequência do desenvolvimento, não a causa. Precisamos de melhorar a taxa de investimento no Pais. O caminho passa necessariamente pela Educação e Qualificação dos trabalhadores, com um processo intensivo de formação de mão de obra técnica capaz de operar a Indústria 4.0.
Passa ainda pela modernização do Parque Fabril, que requer linhas de crédito acessíveis (como o financiamento de bens de capital) para renovar máquinas. Necessário ainda reformas estruturais que permitam à indústria respirar e investir, resultando necessariamente na redução do Custo Brasil.
Produtividade como base para o diálogo
O resultado dessa implantação será um aumento real de produtividade, a única base segura para discutir jornadas menores. A indústria de máquinas defende a manutenção das atuais 44 horas semanais como um teto flexível e o fortalecimento da negociação individual e/ou coletiva como o caminho para a modernização das relações de trabalho, permitindo que empresas e trabalhadores construam soluções customizadas e flexíveis.
Em vez de focar apenas na jornada, podemos pensar no desenvolvimento de pilares estruturais, uma vez que a evolução das condições de trabalho deve ser fruto de negociação e diálogo, nunca de uma imposição que coloque em risco a sobrevivência de quem produz e emprega no Brasil.
*José Velloso é engenheiro mecânico, administrador de empresas e presidente executivo da ABIMAQ (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos).