Putin evita cúpula do Brics no Brasil por temor de prisão internacional
Mandado do Tribunal Penal Internacional impede presença do líder russo no encontro de chefes de Estado no Rio de Janeiro
- Publicado: 06/07/2025 16:53
- Alterado: 06/07/2025 16:54
- Autor: Redação
- Fonte: FolhaPress
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, optou por não comparecer à cúpula dos Brics realizada neste fim de semana e na segunda-feira (7), no Rio de Janeiro, por causa de um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). A ausência do líder russo se deu em meio às acusações de deportação ilegal de crianças ucranianas durante o conflito com a Ucrânia, um processo que o Kremlin nega.
Como o Brasil é signatário do TPI, teria a obrigação legal de prender o mandatário caso ele pisasse em solo brasileiro. A delegação russa já havia informado previamente que Putin não viria por conta de “dificuldades no contexto dos requisitos do TPI”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a convidá-lo formalmente para o encontro, que reúne os principais países emergentes do planeta.
Expansão do Brics e discurso político de Moscou
Mesmo ausente fisicamente, Putin participou por meio de vídeo e aproveitou o espaço para reforçar o papel geopolítico crescente do bloco. O presidente russo elogiou o Brics como “uma das organizações-chave do mundo com enorme potencial político, econômico e tecnológico” e fez críticas ao que chamou de hegemonia ocidental. “A ordem unipolar centrada nos EUA está sendo substituída por um mundo multipolar mais justo”, afirmou.
No vídeo, Putin também agradeceu a atuação do Brasil na presidência temporária do bloco. “É importante que nossos colegas brasileiros tenham se aprofundado nas iniciativas apresentadas durante a presidência da Rússia no ano passado e proposto trabalhar em sua implementação”, pontuou.
Além dos países fundadores, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o Brics agora conta com novos integrantes: Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã, Indonésia e Arábia Saudita. A ampliação reforça o bloco como contraponto ao G7, grupo das maiores economias ocidentais.
Pautas do encontro incluem guerra, saúde e meio ambiente
Durante o encontro no Rio de Janeiro, diversas pautas globais foram debatidas. A presidência brasileira do Brics defendeu uma declaração conjunta com foco no multilateralismo, na reforma de instituições globais — como o Conselho de Segurança da ONU — e na criação de parcerias para pesquisa em saúde e combate a doenças relacionadas à pobreza, como desnutrição e enfermidades em áreas com moradias precárias.
A declaração final da cúpula também se posicionou sobre os conflitos geopolíticos, condenando ações militares contra o Irã, membro recente do bloco, e criticando Israel por ofensivas na Faixa de Gaza, Líbano e Síria. Em relação à guerra na Ucrânia, o texto poupou críticas diretas à Rússia e condenou fortemente as ações ucranianas contra civis e infraestrutura em território russo.
Outro tema central foi a inteligência artificial. Representantes chineses pressionaram por diretrizes éticas para o uso da tecnologia, com atenção ao papel de liderança global que a China busca assumir no setor, especialmente após o lançamento de sua própria IA, a DeepSeek.
No campo ambiental, a cúpula serviu de preparação para a COP30, que acontecerá em novembro, no Pará. O Brasil propôs uma nova liderança climática baseada na solidariedade entre os povos, com o objetivo de enfrentar de forma equitativa os impactos das mudanças climáticas, priorizando os países do chamado Sul Global.
Tensão diplomática e protagonismo brasileiro
A ausência de Putin e do presidente chinês Xi Jinping, representado pelo primeiro-ministro Li Qiang, não esvaziou o evento, mas acentuou o papel do Brasil como anfitrião e articulador político do grupo. Para o governo Lula, o foco foi consolidar o Brics como uma frente unificada na defesa do multilateralismo e da paz global, além de destacar a relevância da América Latina nas decisões estratégicas internacionais.
A cúpula reforçou ainda o papel do Brics como fórum alternativo às potências tradicionais e como espaço de construção de novas soluções para os desafios do século XXI, de forma mais inclusiva e plural.