Pescaria ou gestão de riscos: quem lê melhor o cenário vence
Falhas em projetos raramente são acaso, são resultado direto da incapacidade de antecipar riscos e ler o ambiente
- Publicado: 10/04/2026 15:20
- Alterado: 10/04/2026 15:20
- Autor: Leandro Roberto de Oliveira
- Fonte: ABCdoABC
Imagine a seguinte cena: você acorda cedo, organiza as “tralhas”, escolhe o ponto certo, analisa o clima, a pressão atmosférica, a maré, o tipo de peixe e a isca mais adequada. Ainda assim, não há garantia de sucesso.
Projetos são exatamente assim: não se trata de controle absoluto, mas de preparação diante das incertezas e é justamente nesse ponto que a gestão de riscos em projetos, assim como na pescaria, separa amadores de profissionais, uma diferença que, no mundo corporativo, pode custar milhões.
Os números não deixam dúvidas. Apenas 31% dos projetos são considerados plenamente bem-sucedidos, entregues no prazo, dentro do orçamento e com o escopo definido, ou seja, a maioria das iniciativas ainda navega em águas turbulentas, com desvios, retrabalho e perda de valor.
Agora, observe o ponto central: 41% das falhas estão diretamente relacionadas à má gestão de riscos. Não é falta de metodologia. Não é falta de ferramenta. É falta de antecipação.
O erro clássico: pescar sem ler o ambiente
Na pescaria, quem ignora o ambiente volta de mãos vazias. Em projetos, o equivalente é iniciar iniciativas com cronogramas “otimistas”, orçamentos subestimados e riscos tratados como formalidade. O resultado? Projetos que nascem com aparência de viabilidade, mas que carregam, desde o início, as sementes do fracasso.
Segundo o PMI (Project Management Institute – Pulse of the Profession), organizações de alta performance, aquelas que entregam consistentemente resultados, colocam apenas 3% do orçamento em risco, enquanto organizações de baixo desempenho expõem até 27% do budget. Isso não é detalhe. É estratégia.
Gestão de riscos: não é controle, é leitura de cenário

A experiência leva a entender que risco não é problema, é informação! A gestão de riscos eficaz funciona como um sonar em águas profundas. Ela identifica onde estão os perigos, mas também onde estão as oportunidades.
E aqui está um ponto pouco explorado: risco não é apenas ameaça. É também oportunidade. Ignorar isso é limitar o potencial estratégico do projeto.
Empresas maduras fazem quatro coisas de forma consistente:
- Identificam riscos continuamente, não apenas no início
- Priorizam com base em impacto real no negócio
- Criam planos de resposta acionáveis
- Monitoram e ajustam ao longo da execução
O custo invisível da negligência
Existe um mito recorrente nas organizações: “não temos tempo para gerir riscos”. A realidade é outra: não se programar para a gestão riscos é o que realmente consome tempo.
Projetos sem disciplina nessa frente entram em ciclos de: Retrabalho, Renegociação, Replanejamento e Desgaste com stakeholders. E o impacto financeiro é direto. Estudos mostram que, em média, um terço do orçamento de projetos fracassados é perdido definitivamente. Em outras palavras: Risco ignorado vira prejuízo.
A ilusão do “Happy Path”
Voltemos à pescaria. Planejar um dia perfeito, com clima ideal e peixe abundante, é confortável. Mas é ilusório. O pescador experiente planeja sempre considerando o pior cenário. Em projetos, isso se traduz em abandonar o chamado happy path — aquele cronograma perfeito que só funciona no PowerPoint.
A análise de risco aplicada ao cronograma mostra que uma pequena parcela de atividades pode concentrar a maior parte da exposição do projeto. Em alguns casos, 34% das tarefas representam mais de 50% do risco de atraso. Ou seja: não é sobre controlar tudo. É sobre saber onde olhar.
O papel do C-Level: sair da teoria e entrar na decisão

Aqui está o ponto crítico para executivos: gestão de riscos não é responsabilidade operacional. É decisão estratégica. Quando o tema fica restrito ao PMO, ele perde força. Quando sobe para a agenda executiva, ele muda o jogo.
Empresas que tratam a gestão de riscos como parte da estratégia:
- Tomam decisões mais rápidas
- Ajustam prioridades com mais precisão
- Protegem margem e reputação
- Aumentam previsibilidade de entrega
Não por acaso, organizações mais maduras em gestão apresentam diferenças de até 28 pontos percentuais em entrega no prazo e 24 pontos em orçamento, quando comparadas às menos maduras.
Pescar melhor, não pescar mais (+ qualidade – quantidade)
O mercado não recompensa esforço. Recompensa resultado. E resultado, em ambientes complexos, é consequência direta da capacidade de navegar incertezas. A gestão de riscos não é um seguro contra falhas. É vantagem competitiva.
Assim como na pescaria, não se trata de lançar mais linhas na água. Trata-se de entender onde, quando e como lançar. Porque, no fim, os melhores resultados não vêm de quem trabalha mais. Vêm de quem lê melhor o cenário.
Leandro Roberto de Oliveira

Leandro Roberto é especialista em gestão estratégica de projetos, portfólio e riscos, com mais de 25 anos de experiência em consultoria, auditoria e transformação organizacional, incluindo atuação em empresas como Allianz, KPMG e Ernst & Young. Reconhecido por sua expertise em PMO, governança corporativa e metodologias ágeis, destaca-se na conexão entre estratégia e execução, priorização de portfólio e gestão de riscos baseada em padrões internacionais. É graduado em Administração de Empresas e possui MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC/SP.