Pabllo Vittar faz da luxúria um idioma em Lost in Lust
No sétimo álbum, Pabllo Vittar cruza eletrônica, pop e ritmos brasileiros em 12 faixas que fazem do desejo, do excesso e da liberdade sua nova linguagem
- Publicado: 02/10/2026 08:45
- Alterado: 02/10/2026 08:46
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: ABCdoABC
A luxúria, no novo disco de Pabllo Vittar, não aparece apenas como sinônimo de prazer. Ela seduz, desorienta, cobra, cria expectativas sobre o corpo e deixa uma fronteira pouco nítida entre aquilo que se deseja e aquilo que pode consumir quem deseja. É nesse território que a cantora instala “LOST IN LUST”, seu sétimo álbum de estúdio, construído como uma experiência contínua de 12 faixas que desloca sua música para o inglês e o espanhol sem romper os vínculos com os sons brasileiros que ajudaram a formar sua identidade.
O projeto marca também uma nova tentativa de expansão internacional. Só que a escolha de outros idiomas não vem acompanhada de um apagamento da origem musical de Pabllo. Techno, dance music, perreo, synth pop, reggaeton e referências ao pop dos anos 2000 convivem com tecnomelody, forró, funk e, no encerramento, com a apropriação musical de um dos símbolos mais reconhecíveis da cultura brasileira, o Carnaval. O resultado aponta menos para uma artista tentando adequar sua música a um mercado estrangeiro do que para uma linguagem que procura ampliar o próprio vocabulário.
Há ainda uma decisão importante nos bastidores. Toda a produção e composição do disco foi realizada por profissionais da comunidade LGBTQIAPN+. Entre os nomes envolvidos estão Rodrigo Gorky, S4tan, PZZS, Chernobruno, Jeska, Ezmehfw, Votú, Eva de LC, Gorfo de Panda, Martinz Beats, LOFIBBGIRL e Carlos do Complexo. Em um projeto protagonizado por uma das artistas LGBTQIAPN+ brasileiras de maior projeção internacional, essa presença não se limita à imagem diante das câmeras e alcança também os espaços onde se decide como o disco deve soar.
Desejo vira matéria musical
O próprio título oferece a chave para entrar no álbum. “LOST IN LUST” pode ser entendido como estar perdido na luxúria ou no desejo, mas Pabllo amplia esse sentido ao associá-lo às pressões exercidas sobre o corpo, às expectativas, à ansiedade e à busca por relações capazes de corresponder à fantasia construída em torno delas. Para a cantora, a luxúria pode ser simultaneamente encantamento e lugar de desorientação.
A escolha também está ligada à maneira como o disco foi pensado para ser ouvido. Pabllo queria duas palavras capazes de traduzir a sensação produzida pelas músicas quando escutadas em sequência. É daí que o formato non-stop ganha importância. Em vez de apresentar apenas 12 faixas que compartilham determinada estética, o projeto procura estabelecer uma continuidade entre estados diferentes do desejo, começando pela expectativa do futuro, atravessando sedução, autoconfiança, sexo, excesso, vulnerabilidade e solidão até desembocar em “CARNAVAL”.
Essa organização transforma a pista de dança em espaço narrativo. O prazer não desaparece, mas deixa de ser a única experiência possível. Há músicas construídas a partir da confiança e do magnetismo, outras interessadas em relações contraditórias, encontros físicos, obsessões e na percepção de que uma conexão pode exigir algo que o desejo imediato não entrega. A dança permanece, mas carrega diferentes tensões conforme o álbum progride.
Entre o eletrônico e os sons do Brasil

Quem recebe o ouvinte é “FUTURE”, uma introdução que coloca um coral de ópera sobre uma base interessada em pop, dance music e música eletrônica. Sua função é menos apresentar uma história fechada do que anunciar que alguma coisa mudou. O futuro mencionado pela faixa funciona como uma porta de entrada para um disco em que Pabllo testa novas combinações sem abandonar a personalidade vocal que atravessa seus trabalhos anteriores.
Em “BAD GOOD”, escolhida como single do lançamento, essa estratégia começa a ficar mais evidente. A produção parte de um beat de Chernobruno e coloca a energia do techno em contato com elementos de tecnomelody e forró. Também na letra a música trabalha com contraste. A atração existe ao mesmo tempo em que o envolvimento ameaça fazer mal, transformando a relação amorosa em um espaço onde prazer e sofrimento já não podem ser separados com facilidade.
A tensão aumenta em “ROCKSTAR”, primeiro encontro do álbum e parceria com a porto-riquenha Villano Antillano. Funk e rock entram na construção de uma faixa guiada pela vida noturna, pela sedução e pelo excesso, enquanto inglês e espanhol passam a dividir o mesmo espaço. A presença da rapper também ajuda a revelar outra dimensão de “LOST IN LUST”, que usa as participações não apenas como atrações colocadas sobre faixas isoladas, mas como conexões entre cenas musicais de diferentes países.
“ATTENTION”, produzida pela norte-americana Ezmehfw, traz o perreo para esse universo e desloca o álbum para uma celebração da autoconfiança. Na sequência, “FRIENDS WITH…” assume uma postura mais debochada sobre um beat pesado de Votú, permitindo que Pabllo brinque com a própria imagem pública e com a persona construída ao longo de uma década em que deixou de ocupar apenas a música pop brasileira para circular em festivais, colaborações e palcos internacionais.
Um disco atravessado por encontros
O meio do álbum começa a expor outras tonalidades dessa busca. “BETTER THAN A FEELING” recorre ao synth pop dos anos 1980 e trata o desejo como ação, recusando que aquilo que se quer permaneça somente no campo da fantasia. Logo depois, “BODY TYPE”, parceria com Urias, desloca a discussão para o corpo. Embora se mantenha dançante e sensual, a música procura uma conexão que não termine na atração física.
A escolha de Urias ganha importância também por estabelecer dentro do disco um encontro entre duas artistas brasileiras cujas trajetórias dialogam com novas possibilidades de representação na música pop. Em “LOST IN LUST”, esse movimento se amplia geograficamente. Mahmood, artista italiano de ascendência egípcia, aparece em “POLIZIA”, enquanto o venezuelano La Cruz participa de “BIG BANG”. Ao lado de Villano Antillano, eles dão ao álbum um desenho de circulação que ultrapassa o eixo tradicional entre Brasil e Estados Unidos.
Com Mahmood, Pabllo encontra uma música construída em torno de liberdade, festa e excesso, enquanto a combinação das vozes sustenta a sensualidade de “POLIZIA”. Logo depois, “SKIN” recua no tempo para recuperar códigos do pop dos anos 2000. Produzida por Martinz Beats, a faixa realiza um desejo antigo da cantora de trabalhar com referências de uma década que ajudou a definir parte do imaginário pop consumido por sua geração.
Já “BIG BANG” volta a lançar o álbum para a frente. A participação de La Cruz se apoia em uma mistura de rock e reggaeton de orientação futurista, com produção da paraense LOFIBBGIRL. O encontro reforça uma característica recorrente do projeto, que prefere colocar linguagens em contato a permanecer dentro de fronteiras rígidas de gênero.
Quando a pista encontra a vulnerabilidade
É perto do fim que o disco apresenta um de seus contrastes mais interessantes. Em “ALONE”, Pabllo explora diferentes recursos vocais e chega ao screamo, técnica distante da imagem mais convencional associada à sua discografia. A faixa concentra alguns dos elementos eletrônicos mais intensos do projeto, mas escolhe tratar de vulnerabilidade, solidão e da possibilidade de encontrar no amor algum tipo de abrigo.
A escolha impede que “LOST IN LUST” seja resumido como um disco dedicado ao hedonismo. O desejo que atravessa as faixas também produz ausência, contradição e fragilidade. Essa oscilação entre controle e entrega é uma das ideias que organizam o projeto e ajuda a explicar por que tantas referências musicais convivem no mesmo espaço. O álbum não procura um único estado emocional porque a luxúria que o inspira também não é apresentada dessa forma.
E então vem “CARNAVAL”. Depois de uma trajetória construída majoritariamente em inglês e espanhol e orientada para uma circulação internacional, Pabllo escolhe encerrar o álbum justamente com uma faixa que busca o repertório rítmico e simbólico da maior festa popular brasileira. Não é uma simples volta para casa depois de uma viagem ao exterior. É a indicação de que a internacionalização pretendida pela artista não exige abandonar aquilo que torna sua música reconhecível como brasileira.
O fechamento também carrega uma promessa. A equipe apresenta “LOST IN LUST” como o primeiro projeto de uma nova fase, e “CARNAVAL” funciona como pista para aquilo que ainda será desenvolvido. Se “FUTURE” abre o disco anunciando uma nova dimensão, a última faixa parece responder de onde esse futuro continuará sendo construído.
Pabllo Vittar amplia o próprio território
Depois de sete álbuns, o desafio de Pabllo Vittar já não está em provar que sua música pode atravessar fronteiras. A cantora construiu uma trajetória capaz de colocá-la em diálogo com públicos e artistas de diferentes países. “LOST IN LUST” parte de outra pergunta e tenta descobrir que tipo de Pabllo pode ocupar esse espaço internacional sem neutralizar o que existe de particular em sua origem musical.
É por isso que as combinações mais reveladoras do álbum talvez não estejam simplesmente no idioma estrangeiro ou nos convidados internacionais. Elas aparecem quando techno encontra tecnomelody e forró, quando perreo divide espaço com uma artista brasileira, quando o pop dos anos 2000 é reconstruído por produtores contemporâneos e quando um álbum que começa olhando para o futuro termina diante do Carnaval.
A presença de uma equipe criativa formada integralmente por profissionais LGBTQIAPN+ também insere o projeto em outra discussão. Pabllo chegou a um estágio da carreira em que representatividade pode significar não apenas estar no centro do palco, mas participar da formação de redes capazes de movimentar compositores e produtores dentro de uma indústria historicamente mais restritiva a essas identidades. Rodrigo Gorky, parceiro de longa data da cantora, define o álbum como resultado de uma necessidade de buscar novos caminhos depois de uma década de trabalho conjunto e, ao mesmo tempo, abrir espaço para uma nova geração.
“LOST IN LUST” nasce justamente desse movimento entre permanência e mudança. Pabllo reconhece elementos que fizeram sua música chegar até aqui, mas evita tratá-los como fórmula. O sétimo álbum coloca o desejo no centro, desmonta sua aparência de prazer simples e deixa que o eletrônico carregue contradições que vão da euforia à solidão.
No fim, talvez o gesto mais internacional do disco seja justamente não tentar apagar o Brasil para chegar ao mundo. Entre inglês, espanhol, techno, reggaeton, funk, forró, tecnomelody e Carnaval, Pabllo Vittar transforma a luxúria em idioma comum sem falar musicalmente uma língua só. Se o futuro anunciado na primeira faixa realmente começa aqui, ele surge menos como ruptura e mais como expansão de um território que a artista ainda parece interessada em tornar maior.