Operação apura suspeitas contra dono da Betnacional

Operação investiga grupo dono da Betnacional por suspeitas de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal

Crédito: Marcelo Camargo - Agência Brasil

O Ministério Público Federal (MPF) e a Receita Federal deflagraram, nesta sexta-feira (28), uma operação para investigar possíveis crimes financeiros e tributários atribuídos ao grupo NSX, responsável pela Betnacional.

A ação, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), cumpre seis mandados de busca e apreensão em João Pessoa, Recife e São Paulo. Segundo o MPF, a plataforma movimentou mais de R$ 5 bilhões ao longo de 2025.

Também foi determinado o bloqueio de aproximadamente R$ 191 milhões em bens. A operação recebeu o nome de Jogo das Sombras.

Em nota, a NSX Brasil confirmou que uma equipe da Receita Federal realizou uma diligência no escritório da empresa em Recife, dentro de uma investigação conduzida pelo MPF.

A companhia afirmou que seus advogados ainda não tiveram acesso aos autos e, por isso, não poderia comentar o conteúdo da apuração neste momento. A empresa também declarou que pretende colaborar integralmente com as autoridades e que já entregou documentos e informações solicitados.

Empresa segue autorizada a funcionar

Betnacional
Reprodução

A Betnacional é subsidiária da Flutter, companhia escocesa com ações negociadas na Bolsa de Nova York. A multinacional desembolsou R$ 2 bilhões para adquirir 56% da empresa brasileira, apontada pela consultoria H2 Gambling Capital como uma das dez maiores do setor no país.

Segundo Daniele Cardoso, secretária de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, a empresa continua autorizada a operar, pelo menos neste momento.

Existem, porém, dois processos sancionadores em andamento contra a companhia. Os procedimentos podem resultar, eventualmente, na suspensão de suas atividades. A secretária informou ainda que o Ministério da Fazenda aguarda o compartilhamento das provas relacionadas à operação realizada nesta sexta.

Os primos João Guilherme Monte Studart e Eduardo Lima Monte, fundadores da Betnacional, continuam à frente da operação no Brasil, que mantém obrigações de prestação de contas à sede internacional. Eles são netos de Léo Monte, considerado pioneiro do setor hoteleiro no Nordeste.

Receita aponta suposta operação irregular antes da regulamentação

De acordo com o MPF, as possíveis irregularidades tributárias e financeiras investigadas podem ter ocorrido tanto antes quanto depois da regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil.

Nesta etapa da operação, nenhuma pessoa física é alvo das medidas judiciais.

A Receita Federal afirma ter identificado indícios de que os investigados criaram uma empresa de fachada em Curaçao, no Caribe, com o objetivo de aparentar que as atividades da plataforma eram realizadas fora do território brasileiro antes da regulamentação do mercado.

Segundo o órgão, empresas nacionais ligadas ao grupo seriam, na realidade, responsáveis pela operação da atividade no país.

Também foram encontrados indícios de contas em fintechs que, conforme a Receita, poderiam ter sido utilizadas para dificultar a identificação do caminho percorrido pelos recursos e dos beneficiários finais.

O Fisco afirma ainda que há sinais de que a exploração das apostas já ocorria no Brasil antes da autorização obtida pelo grupo para atuar no setor, em 2025, sem o devido recolhimento de impostos.

Entre os pontos investigados está a possível declaração de despesas fictícias às autoridades fiscais.

Fisco prevê recuperação de R$ 300 milhões

A Receita Federal informou que abriu outros 11 procedimentos fiscais para aprofundar a análise dos indícios encontrados. O órgão estima potencial de recuperação de aproximadamente R$ 300 milhões aos cofres públicos.

O secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, afirmou, durante coletiva de imprensa, que a empresa teria explorado ilegalmente jogos no território brasileiro. Segundo ele, existem indícios de que possíveis irregularidades tenham continuado mesmo depois da regulamentação do setor.

A Receita deverá cobrar cerca de R$ 300 milhões em tributos da companhia, conforme a apuração apresentada pelo órgão.

Antes da regulamentação do mercado brasileiro, em 2025, empresas de apostas atuavam por meio de licenças obtidas em jurisdições como Malta e Curaçao. A Betnacional, assim como a Pixbet, investigada em outra ação da Receita, estava inserida nesse modelo.

Em razão das exigências dessas licenças, os depósitos realizados em sites de apostas deveriam ser processados no exterior.

Segundo Leonardo Baptista, CEO da Pay4Fun, instituição de pagamentos especializada no segmento, era comum que empresas brasileiras direcionassem depósitos para companhias offshore por meio de remessas internacionais ou stablecoins, criptomoedas com valor vinculado ao dólar.

O executivo explicou que uma das dificuldades desse modelo estava na retirada dos lucros e no pagamento de fornecedores brasileiros, incluindo contratos de marketing firmados com empresas estrangeiras.

Nesta primeira etapa, a operação Jogo das Sombras concentrou-se no conglomerado NSX Brasil e não teve fornecedores como alvos. No caso da Pixbet, prestadores de serviços, entre eles o advogado Nelson Wilians, também foram incluídos na investigação.

  • Publicado: 28/08/2026 10:02
  • Alterado: 28/08/2026 14:50
  • Autor: Daniela Penatti
  • Fonte: FOLHAPRESS