Olfato explica como cães reconhecem tutores após anos

Especialista explica como o olfato, a memória e outros estímulos auxiliam cães a reconhecer tutores após longos períodos de separação

Crédito: Magnific

O filme “A Odisseia”, de Christopher Nolan, voltou a colocar em evidência uma das passagens mais conhecidas do poema épico de Homero: o reencontro entre Odisseu e Argos.

Depois de passar duas décadas longe de casa por causa da Guerra de Troia e da longa viagem de retorno, o herói chega disfarçado, sem ser reconhecido por familiares e súditos. Argos, porém, identifica imediatamente seu tutor. Sem conseguir se aproximar, apenas abana o rabo, encara Odisseu pela última vez e morre.

A cena atravessou séculos como um dos grandes símbolos da fidelidade canina. Mas a história também levanta uma questão que continua despertando curiosidade: seria possível reconhecer alguém depois de tantos anos?

Segundo especialistas, a resposta está menos na visão e muito mais no olfato.

“Para os cães, o cheiro é a principal forma de interpretar o mundo. Enquanto nós usamos a visão como sentido predominante, eles constroem memórias, identificam indivíduos e reconhecem ambientes principalmente por meio dos odores”, explica Vinícius Rodrigues, médico veterinário da WeVets.

O sistema olfativo desses animais é muito mais desenvolvido que o humano. Eles possuem centenas de milhões de receptores olfativos, dezenas de vezes mais do que as pessoas, além de uma região cerebral proporcionalmente maior dedicada à interpretação dos cheiros.

Essa capacidade permite distinguir odores extremamente semelhantes e formar uma espécie de “assinatura olfativa” para cada indivíduo.

“Cada pessoa possui um odor característico formado pela combinação de fatores genéticos, como complexo de histocompatibilidade, principal hipótese estudada para a individualização, microbiota da pele, alimentação, hormônios e ambiente. Mesmo que a aparência mude completamente ao longo dos anos, parte dessa identidade química permanece”, afirma Rodrigues.

Cães usam olfato, audição e memória para reconhecer pessoas

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Embora o cheiro seja o principal elemento, ele não atua isoladamente. Voz, maneira de andar, movimentos e comportamento também podem fazer parte das lembranças associadas a uma pessoa.

“É provável que um cão utilize vários estímulos ao mesmo tempo para reconhecer alguém. O olfato costuma ser determinante, mas sons, postura corporal e padrões de movimentação também contribuem para confirmar essa identificação”, explica o especialista.

Estudos indicam que animais conseguem associar odores a experiências positivas durante muitos anos. Essa memória olfativa ajuda a explicar por que podem reconhecer tutores após longos períodos de separação, mesmo quando ocorrem mudanças físicas significativas.

Envelhecimento, perda ou ganho de peso e alterações na aparência, por exemplo, não necessariamente impedem o reconhecimento quando outras referências sensoriais permanecem.

A memória dos animais pode durar muitos anos?

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A medicina veterinária ainda não estabeleceu um limite de tempo para essa capacidade. Cada situação pode variar de acordo com a intensidade do vínculo, o período de convivência, a idade e aspectos relacionados à saúde cognitiva do animal.

“O que sabemos é que cães possuem memória de longo prazo para pessoas com quem desenvolveram laços afetivos importantes. Existem inúmeros relatos de reencontros após anos de separação em que o reconhecimento acontece rapidamente”, diz o profissional da WeVets.

No caso de Argos, descrito por Homero há quase três mil anos, não é possível determinar exatamente como ocorreu o reconhecimento. Do ponto de vista biológico, porém, a hipótese de que o olfato tenha desempenhado papel central é compatível com o funcionamento desses animais.

Para o veterinário da WeVets, a história continua emocionante justamente porque encontra respaldo em comportamentos observados até hoje.

Os cães criam vínculos profundos com seus tutores. Quando convivem durante anos com uma pessoa, armazenam uma série de referências sensoriais que permanecem por muito tempo. O reencontro entre Argos e Odisseu pode ser uma obra literária, mas retrata uma característica muito presente na relação entre humanos e cães: a capacidade de reconhecer quem faz parte da sua história.”

  • Publicado: 11/08/2026 17:20
  • Alterado: 11/08/2026 17:20
  • Autor: Daniela Penatti
  • Fonte: WeVets