O boom das motocicletas
Crescimento recorde nas vendas, avanços tecnológicos e desafios na segurança colocam as motocicletas no centro da mobilidade brasileira
- Publicado: 10/10/2025 16:10
- Alterado: 10/10/2025 16:11
- Autor: Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
- Fonte: ABCdoABC
Em 1949, diante da queda nas vendas dos veículos Chrysler montados pela Brasmotor no Brasil, o presidente da companhia, José de Bastos Thompson, viajou aos Estados Unidos em busca de alternativas.
Em reunião com Charles C. Thomas, então vice-presidente da Chrysler Corporation, ouviu que o futuro da mobilidade brasileira estaria nas motocicletas, mais acessíveis ao poder aquisitivo da época.
Thompson discordou da proposta e defendeu que o país caminhava rumo à motorização em quatro rodas. Diante disso, Thomas apresentou um prospecto da Volkswagen, recém-ressurgida na Alemanha, e entrou em contato com Heinz Nordhoff para viabilizar um acordo que permitisse à Brasmotor importar os veículos alemães.
Assim, no ano seguinte, 1950, chegavam ao porto de Santos as primeiras unidades do Volkswagen Sedan, marcando o início da trajetória da marca no Brasil.
Parece a história da chegada do Fusca ao país, mas o ponto principal aqui está na visão empreendedora de Charles C. Thomas, que, já naquele momento, previa que o Brasil seria o país das motocicletas.
O crescimento estrutural das duas rodas começou nos anos 1970, a popularização massiva ocorreu nos anos 1990, e a explosão definitiva de mercado se deu nos anos 2000, quando o Brasil se tornou um dos maiores produtores e consumidores de motocicletas do mundo.
Virada das duas rodas

Segundo a Fenabrave, a expectativa para 2025 é de que o segmento de motocicletas apresente um crescimento expressivo de 15% nas vendas. A projeção, revisada para cima neste mês, representa um acréscimo de cinco pontos percentuais em relação à estimativa divulgada em julho, que apontava para uma alta de 10% no ano.
Com isso, a federação prevê que o volume comercializado no país avance de 1.875.903 unidades em 2024 para aproximadamente 2.157.288 motocicletas até o final de 2025. Se excluirmos as vendas de veículos utilitários, 2025 pode ser o primeiro ano em que as duas rodas ultrapassem as quatro rodas em volume de emplacamentos.
Transição de modais
As motocicletas têm se consolidado como uma alternativa intermediária entre o transporte público e o automóvel particular, especialmente em contextos urbanos marcados por congestionamentos, custos elevados e limitações de mobilidade.
Elas representam, para muitos brasileiros, um meio de transição entre a dependência do ônibus e a aquisição de um carro, oferecendo maior autonomia com menor custo de aquisição e manutenção.
Paralelamente, o crescimento das plataformas de entrega por aplicativo impulsionou ainda mais a demanda, criando um grande nicho econômico e laboral que transformou a motocicleta em ferramenta essencial para o trabalho e a geração de renda de milhares de pessoas nas cidades.
Nem tudo são glórias
Os dados mais recentes da Plataforma Infosiga, apenas no Estado de São Paulo, indicam que o número de sinistros e mortes envolvendo motociclistas tem crescido de forma consistente nos últimos anos, acompanhando a expansão do uso desse tipo de veículo.

Somente no primeiro semestre de 2025, foram registradas 1.329 mortes de motociclistas, o maior valor da série histórica iniciada em 2015, representando um aumento de aproximadamente 5,5% em relação ao mesmo período de 2024.
A maior parte dessas ocorrências aconteceu em vias municipais, onde há maior convivência entre motos, automóveis e pedestres. Embora alguns meses, como abril de 2025, tenham mostrado reduções pontuais de até 16%, o panorama geral ainda revela uma tendência de alta no número de sinistros fatais.
Leia também: O impacto dos acidentes com motocicletas no Brasil
Futuro promissor dependerá de políticas públicas consistentes
O futuro promissor das motocicletas no Brasil dependerá diretamente da implementação de políticas públicas consistentes e integradas, capazes de equilibrar o crescimento desse modal com a segurança viária.
É essencial que o poder público invista em campanhas educacionais voltadas aos jovens motociclistas, promovendo a conscientização dos riscos e incentivando comportamentos seguros nas vias.
Além disso, torna-se necessário modernizar e facilitar o processo de obtenção da habilitação, com provas práticas mais realistas e atualizadas, que reflitam as condições reais de circulação urbana e o uso profissional das motos.
Por fim, uma fiscalização inteligente e contínua, apoiada em câmeras de monitoramento e sistemas de análise de vídeo, deve garantir, por meio do esforço legal e tecnológico, o cumprimento das normas de trânsito e coibir condutas de risco, criando um ambiente mais seguro e sustentável para todos os modais de transporte.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.