Mudanças climáticas ameaçam abelhas e polinizadores
Mudanças climáticas podem alterar habitats e afetar abelhas, polinização e biodiversidade, com impactos sobre plantas, florestas e produção de alimentos
- Publicado: 03/10/2026 13:02
- Alterado: 03/10/2026 13:02
- Autor: Carlos Enriki
- Fonte: Assessoria
Alterações na temperatura e no regime de chuvas, associadas a mudanças no uso da terra, podem modificar os locais onde plantas e abelhas vivem e os períodos em que estão ativas.
Desmatamento, expansão agrícola e fragmentação de habitats podem alterar a floração das plantas e reduzir a disponibilidade de néctar e pólen. Com isso, algumas espécies de abelhas podem ter mais dificuldade para encontrar os recursos dos quais dependem.
No Dia das Abelhas, celebrado em 3 de outubro, o tema ganha destaque diante da importância dos polinizadores para a manutenção dos ecossistemas.
Projeções climáticas até 2060 indicam respostas diferentes entre espécies do gênero Melipona. Enquanto algumas podem encontrar novas áreas favoráveis, outras podem manter ou perder parte dos locais adequados à sua ocorrência.
“O clima pode alterar não apenas onde as espécies vivem, mas também quando e onde as interações entre elas acontecem. Uma planta e seu polinizador podem responder de maneiras diferentes às mesmas mudanças ambientais”, explica Ana Lúcia Assad, coordenadora de Projetos, Inovação e Desenvolvimento do Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA).
Abelhas têm papel central na Amazônia
Um estudo publicado em 2026 na revista científica Communications Biology reuniu informações sobre 5.201 espécies de árvores amazônicas e identificou as abelhas como o grupo mais frequente de visitantes.
Segundo o levantamento, as abelhas aparecem associadas a 74% dos gêneros de árvores estudados.
O trabalho também aponta que quase 80% das espécies de árvores analisadas dependem de diferentes espécies da fauna para processos como polinização e dispersão de sementes.
Essas interações participam da reprodução das plantas e da renovação da floresta. Por isso, mudanças nas relações entre espécies podem afetar processos que vão além de uma única população.

“As mudanças não afetam todas as espécies da mesma maneira. Por isso, acompanhar também as interações entre plantas e polinizadores pode revelar alterações que nem sempre aparecem quando observamos cada espécie isoladamente”, afirma Ana Lúcia.
Impactos podem chegar à produção de alimentos
A importância dos polinizadores também aparece em cadeias produtivas. O açaí, por exemplo, depende da visita de diferentes insetos às flores, entre eles as abelhas.
Uma pesquisa publicada no Journal of Applied Ecology registrou 194 espécies de insetos visitando flores de açaí. As abelhas sem ferrão foram o grupo mais abundante, correspondendo a 29,1% das visitas observadas.
Os dados indicam que alterações nas comunidades de polinizadores podem ter efeitos sobre a reprodução das plantas e, consequentemente, sobre a formação de frutos, sementes e alimentos.
Pesquisas recentes também apontam forte dependência das comunidades de plantas das Américas em relação às abelhas, independentemente do bioma ou da diversidade local desses polinizadores.
Dados ajudam a acompanhar transformações
O trabalho do CRIA com informações sobre abelhas começou com a organização e digitalização de conhecimentos produzidos sobre espécies neotropicais.
Uma das primeiras iniciativas foi o apoio à transformação das fichas de descrição elaboradas pelo pesquisador Padre J. S. Moure no Catálogo Moure de Abelhas Neotropicais, disponibilizado online desde 2008.
A partir desse trabalho, também foi desenvolvido o infoABELHA, iniciativa voltada à organização e divulgação de informações sobre diferentes espécies de abelhas, especialmente as sem ferrão. O projeto resulta de uma parceria com a Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A.).

Atualmente, o cruzamento de registros de biodiversidade com dados climáticos e de uso da terra permite acompanhar de forma mais ampla como as espécies respondem às transformações ambientais.
Esse conjunto de informações pode contribuir para identificar áreas vulneráveis, refúgios climáticos e regiões prioritárias para ações de conservação e restauração.
“Quanto mais informações tivermos sobre as espécies e suas interações, melhor conseguimos identificar áreas que precisam de atenção e orientar ações de conservação. Proteger os polinizadores é também cuidar das relações que sustentam a biodiversidade e parte da nossa produção de alimentos”, completa Ana Lúcia.