Morre Sônia Carneiro, referência no jornalismo político
Sônia Carneiro, jornalista que cobriu a Constituinte e a redemocratização, morreu neste domingo (20) em Brasília, aos 74 anos
- Publicado: 20/09/2026 21:00
- Alterado: 20/09/2026 21:00
- Autor: Gabriel de Jesus
- Fonte: R7
A jornalista Sônia Carneiro, que acompanhou de perto alguns dos principais capítulos da redemocratização brasileira e fez da cobertura política em Brasília uma parte central de sua trajetória profissional, morreu neste domingo (20/9), aos 74 anos. Segundo o filho, Terence Zveiter, ela morreu dormindo, em casa, após um mal súbito.
Nascida em 15 de outubro de 1951 no Rio de Janeiro, Sônia Maria Dunshee de Abranches Carneiro — Soninha, como era conhecida — começou na Rádio Jornal do Brasil em 1971 e trabalhou por 32 anos no hoje extinto Jornal do Brasil, onde acompanhou os principais assuntos políticos no Congresso e no Palácio do Planalto.
Sônia Carneiro foi testemunha da Assembleia Nacional Constituinte
Sônia Carneiro esteve no Congresso durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte e acompanhou o processo que resultou na Constituição de 1988. Em depoimento à série Testemunha da História, da TV Senado, ela contou que os trabalhos consumiam dias e noites dos profissionais que acompanhavam as discussões.
“Sacrificou muito minha vida pessoal, minha vida familiar. Eu passo praticamente o dia inteiro aqui no Congresso. E, ultimamente, até às noites, nós temos ficado aqui debatendo as emendas populares”, relatou.
Entre os personagens que acompanhou de perto estava Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, cujas movimentações pelos corredores da Câmara ela seguia quase passo a passo em busca de informações sobre as negociações políticas.
Perguntas diretas marcaram a trajetória de Sônia Carneiro
Nos corredores do poder, Sônia Carneiro construiu fama pelas perguntas diretas e pela capacidade de extrair dos políticos respostas que outros jornalistas nem sempre conseguiam obter. O jornalista Jorge Bastos Moreno chegou a descrevê-la como “intrépida”.
Foi dela a pergunta que levou o então presidente João Figueiredo a responder publicamente que não haveria prévias no PDS em meio às articulações para a sucessão presidencial. Em 1992, já como repórter veterana, ela indagou ao então presidente Fernando Collor, em entrevista coletiva, se ele estava com aids — pergunta feita em meio a um cenário de mortes de personalidades infectadas pelo vírus e de pressão sobre Collor às vésperas do processo de impeachment. “Presidente, o senhor está com aids?”, questionou. Collor respondeu: “Que é isso, Soninha?”.
A proximidade conquistada com as fontes também lhe rendeu uma alcunha curiosa: Tancredo Neves costumava chamá-la de “sobrinha”, embora não houvesse parentesco entre os dois.
O papel da imprensa, segundo Sônia Carneiro
Para a jornalista, a cobertura não se restringia a registrar o que ocorria dentro do Congresso. “A Constituinte não começou azeitada. Ela começou fria. A população ainda não tinha visão do que estava acontecendo. Quando a imprensa começou a fazer as matérias, começou a mostrar os trabalhos, a população, quando viu, aí começou a participar”, recordou.
Família e legado de Sônia Carneiro
A história do país se misturou à história da própria família de Sônia Carneiro. No dia da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988, o filho mais novo, Daniel, quis acompanhar de perto o momento e foi levado por ela ao Congresso, sentando-se ao seu lado na bancada da Rádio Jornal do Brasil.
Divorciada na década de 1980, ela precisou conciliar a rotina intensa da profissão com a criação dos dois filhos, Terence e Daniel Zveiter, e nunca tratou uma coisa como impedimento para a outra. “Se precisasse botar filho no colo, se ela estava de plantão e precisava ir para o Planalto, para a Câmara, ela levava”, contou Terence, que resumiu o legado da mãe: “A maior das lições que ela deixou é a perseverança, a luta dela. Nunca deixou a peteca cair”.
O senador Jaques Wagner (PT-BA), para quem Sônia Carneiro trabalhou como assessora de imprensa após deixar as redações, lamentou a morte em nota publicada em seu perfil no X: “Falar de Soninha é falar de confiança, teimosia, competência e ousadia. Uma jornalista excepcional, que acreditava, insistia e fazia acontecer, sempre com a convicção de que era possível fazer mais e melhor”.
Reconhecimentos e últimos anos
Ao longo da carreira, Sônia Carneiro também cobriu o movimento das Diretas Já, a retomada das eleições presidenciais e o impeachment de Fernando Collor. Em 2013, foi uma das jornalistas homenageadas pela Câmara dos Deputados com a Medalha Assembleia Nacional Constituinte. Depois de deixar as redações, atuou em comunicação institucional no Ministério do Trabalho, na representação do governo da Bahia em Brasília e no Ministério da Defesa.
A família ainda não divulgou informações sobre o velório.