Mensagens ligam Flávio Bolsonaro a dono do Banco Master

Mensagens indicam repasses milionários de banqueiro preso para financiar cinebiografia de Jair Bolsonaro sob articulação de Flávio Bolsonaro

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“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou essa mensagem de WhatsApp ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, no dia 16 de novembro de 2025.

O diálogo, revelado em um furo de reportagem do portal Intercept Brasil nesta quarta-feira (13), expõe a engrenagem financeira por trás da produção de “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, orçada em US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões).

A relação entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro atingiu seu ápice de tensão às vésperas da derrocada de Vorcaro. Apenas um dia após as mensagens de lealdade, o empresário foi preso tentando fugir do país, acusado de operar um esquema de fraude que gerou um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC). No dia 18 de novembro, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master.

Confirmação de Intermediação e Repasses

Em complemento às revelações do Intercept, o empresário Thiago Miranda confirmou à CartaCapital que atuou como intermediário direto na negociação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Segundo Miranda, a tratativa visava o repasse de R$ 62 milhões para financiar o filme sobre a vida do ex-presidente.

O empresário revelou ainda à CartaCapital que tentou viabilizar um encontro presencial entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro no dia 11 de dezembro de 2024. O jantar ocorreria na residência de Vorcaro para selar os detalhes do aporte financeiro, mas, de acordo com o relato, Flávio Bolsonaro não compareceu ao compromisso na data prevista.

O Áudio: O Medo do “Calote” Internacional

Daniel Vorcaro - BRB - Banco Master Flávio Bolsonaro
Divulgação

Além das mensagens de texto, a investigação obteve um áudio enviado por Flávio Bolsonaro a Vorcaro. Na gravação, o tom é de intimidade, mas também de desespero. Flávio Bolsonaro demonstra preocupação com o impacto negativo que atrasos nos pagamentos poderiam causar à imagem da família Bolsonaro no exterior, citando nomes do alto escalão de Hollywood, como o ator Jim Caviezel (protagonista de A Paixão de Cristo).

Confira a transcrição completa do áudio enviado:

“Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. Bom, aqui a gente está passando por um dos momentos mais difíceis da nossa vida, né? Não sei como é que vai ser daqui para frente, como é que isso tudo vai, vai acabar, mas está na mão de Deus aí. E você também eu sei que você está passando por um momento dificílimo aí também, essa confusão toda, você sem saber exatamente como é que vai caminhar isso tudo. E apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas enfim, é porque tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou pro filme, né?

Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus [Nowrasteh, diretor do filme], os caras pô, renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim. Todo efeito positivo que a gente tem certeza que vai vir com esse filme pode ter o efeito elevado a menos um aí, cara. Então, se você puder me dar um toque, uma posição aí, Daniel, porque a gente precisa saber o que que faz, cara, da vida, porque eu tem muita já tem muita conta para pagar esse mês e o mês seguinte também. E agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo, cara. Todo o contrato, perde ator, perde diretor, perde equipe, perde tudo. Podendo dar um toque aí, irmão. Desculpa o áudio longo aí, tá? Um abração, fica com Deus, cara.”

A Nota Oficial: “Patrocínio Privado”

Em resposta às revelações do Intercept, o senador Flávio Bolsonaro enviou uma nota oficial defendendo que as tratativas eram estritamente comerciais e privadas. O parlamentar negou qualquer uso de dinheiro público e desafiou o governo atual ao pedir a instalação de uma CPI para investigar o Banco Master.

“Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet”, afirmou Flávio.

O Financiamento e os Intermediários

Mario Frias
Reprodução

A investigação do Intercept aponta que a negociação não foi um esforço isolado. O envolvimento de Daniel Vorcaro, que se tornou uma figura “radioativa” em Brasília após a descoberta do rombo bilionário, teria contado com a participação ativa do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro e do deputado Mario Frias, ex-secretário da Cultura.

Documentos exclusivos revelam que, apesar das negativas públicas da família Bolsonaro sobre vínculos com o Banco Master, pelo menos US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 61 milhões) foram efetivamente transferidos entre fevereiro e maio de 2025. O material inclui cronogramas de desembolso e comprovantes bancários que comprovam que Vorcaro era o principal pilar financeiro de “Dark Horse”.

Contradições e Reação no STF

As provas documentais desmentem falas anteriores de Flávio Bolsonaro. Em março, quando foi noticiado que o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, doou R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro, o senador afirmou à CNN que o gesto ocorreu “sem nenhuma vinculação ou contato pessoal”. Na época, ele classificou as suspeitas como uma “narrativa falsa” e disse que a conta do Banco Master estava “longe de chegar perto da direita”.

Abordado nesta quarta-feira próximo ao Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Bolsonaro manteve a postura de negação. Questionado presencialmente sobre as provas do financiamento de Vorcaro, Flávio riu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”.

O senador então se retirou, ignorando as evidências apresentadas pela reportagem. Até o momento, as defesas de Daniel Vorcaro, Eduardo Bolsonaro e Mario Frias não responderam aos questionamentos formais.

  • Publicado: 13/05/2026 17:07
  • Alterado: 13/05/2026 18:52
  • Autor: Redação
  • Fonte: ABC do ABC