Menos deputados, mais desafios para o Grande ABC

Após eleição marcada pela força das redes, região discute articulação por investimentos; Luiz Fernando e Átila defendem união em torno das demandas locais

Crédito: (Divulgação/Montagem/Edvaldo Barone/ABCdoABC)

O Grande ABC chega à próxima legislatura com um deputado federal e oito estaduais eleitos com vínculos regionais. A redução da representação coloca em discussão a capacidade das sete cidades de defender investimentos em saúde, transporte, segurança e desenvolvimento econômico. O número de cadeiras, porém, não determina sozinho quanto dinheiro chegará aos municípios: a articulação entre os mandatos, as prioridades dos governos e a execução dos projetos também fazem parte dessa disputa.

Em entrevistas ao ABCdoABC, os deputados estaduais reeleitos Luiz Fernando (PT) e Átila Jacomussi (PRD) defenderam a construção de uma agenda regional, com demandas compartilhadas entre parlamentares de diferentes posições políticas. As propostas incluem a definição de prioridades com o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e a atuação conjunta em serviços e obras que atendem moradores de mais de uma cidade.

As declarações acrescentam uma perspectiva ao debate aberto pelo deputado Alexandre Leite (União Brasil), que não se elegeu para a Assembleia Legislativa de São Paulo. Após o resultado, Leite criticou o crescimento de candidatos com forte presença nas redes sociais e questionou quem receberá os pedidos de prefeitos e vereadores. Sua avaliação expõe uma disputa sobre representação política, mas não demonstra que a mudança nas urnas provocará redução dos repasses municipais.

Uma agenda regional entre partidos diferentes

Para ambos os deputados, a articulação aparece como proposta de trabalho. Luiz Fernando, a atuação dos deputados do Grande ABC precisa acompanhar a dimensão regional dos problemas. O parlamentar cobrou que os mandatos não se restrinjam às cidades onde concentram suas bases e destacou a circulação de moradores entre os municípios em busca de serviços públicos. “Eu não me elejo por São Bernardo do Campo, eu me elejo pelo Grande ABC”, afirmou. Ao tratar do atendimento médico, acrescentou: “A saúde não é a saúde de Santo André, de Mauá, de Diadema. É a saúde do Grande ABC, porque um morador sai daqui e vai ser atendido ali.”

O deputado propôs a definição de um conjunto de prioridades com o Consórcio e defendeu a participação de entidades empresariais e da imprensa no acompanhamento dos compromissos. Entre os assuntos que apresentou estão transporte, segurança, saúde e desenvolvimento econômico. Também declarou que pretende disputar espaço nas comissões responsáveis por temas metropolitanos, transportes e infraestrutura na nova legislatura.

Átila, por sua vez, defendeu uma bancada regional capaz de atuar em assuntos comuns, preservadas as diferenças entre os partidos. “Eu acho que é importante, independente das questões partidárias, ideológicas que cada deputado tem, cada bandeira que defende de forma individual, nós temos que ter bandeiras coletivas”, disse.

Deputado estadual Átila Jacomussi (PRD) (Divulgação)

O parlamentar citou a atração de indústrias e a geração de empregos como temas para discussão com o Consórcio e o governo estadual. Na saúde, apresentou propostas de descentralização da dispensação de medicamentos de alto custo, ampliação do atendimento às famílias atípicas e discussão sobre a estadualização do Hospital Nardini, em Mauá. São objetivos defendidos para o mandato, ainda dependentes de negociação e decisões administrativas e orçamentárias. “Eu defendo, sim, uma bancada regional de interesse comum na região do ABC, até porque a gente é eleito para ser deputado do Estado”, afirmou Átila.

Redes sociais mudam a disputa por representação

A cobrança de Alexandre Leite foi dirigida a Lucas Pavanato, Erika Hilton e Campopiano, citados nominalmente por ele. “Quando esses problemas locais baterem à porta, vão ao gabinete do Pavanato, da Erika Hilton, da Campopiano. Vão entregar os ofícios lá em nome dos munícipes”, declarou. O deputado também associou sua saída à diminuição da equipe e de atendimentos realizados pelo gabinete. A redução de uma estrutura parlamentar pode interromper relações mantidas com moradores, entidades e gestores. Isso, entretanto, precisa ser distinguido de uma perda de financiamento público.

Questionado pelo ABCdoABC sobre a preocupação com o atendimento às demandas municipais, Luiz Fernando concentrou sua resposta na necessidade de adaptação dos próprios mandatos à comunicação digital. “Eu acho que tem certo fundamento no sentido de nos mostrar, sobretudo a nós, que somos mais analógicos, a importância de nós entrarmos mais de cabeça na rede”, afirmou.

Deputados estaduais do ABC reeleitos para o novo mandato
Deputado Estadual Luiz Fernando (PT) (Divulgação)

O petista atribuiu parte das dificuldades eleitorais à influência das plataformas e reconheceu a necessidade de profissionalizar sua comunicação. “Isso acende uma luz vermelha para nós que temos que nos profissionalizar”, disse.

No Grande ABC, o desempenho de candidatos sem trajetória política concentrada nas sete cidades já integra o novo quadro eleitoral. Lucas Pavanato foi o candidato a deputado federal mais votado em cinco municípios da região. Esse apoio também permite cobrar do eleito compromissos com os problemas locais, independentemente de onde esteja sua base política original.

Presença digital e atuação regional não são características incompatíveis. Para avaliar a representação exercida por um mandato, será necessário acompanhar sua participação nas decisões legislativas, as prioridades orçamentárias, os canais de interlocução com as cidades e os resultados apresentados à população. A votação, isoladamente, não responde a essas questões.

Menos cadeiras não significa corte automático de verbas

Paulo Serra inicia os planos na Câmara com Hugo Motta
Deputado federal Paulo Serra (PSDB) (Divulgação)

Na Câmara dos Deputados, Paulo Serra (PSDB) foi eleito com 132.866 votos, tornando-se o único deputado federal eleito com base política no Grande ABC. Na Alesp, foram eleitos Ediane Maria, Ana Carolina Serra, Luiz Fernando, Carla Morando, Teonilio Barba, Rômulo Fernandes, Thiago Auricchio e Átila Jacomussi. Com esse resultado, a representação regional passou de dez deputados estaduais eleitos em 2022 para oito em 2026.

A identificação regional considera trajetórias e vínculos políticos. Não existe uma reserva de cadeiras para o Grande ABC, e os municípios podem buscar investimentos com parlamentares de outras bases. No orçamento federal, as emendas individuais permitem indicar recursos para projetos e programas, enquanto as emendas de bancada estadual e de comissão oferecem outros caminhos de participação do Legislativo nas prioridades de gasto.

Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo - Alesp
Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Divulgação)

Em São Paulo, os deputados estaduais também apresentam emendas impositivas ao orçamento. Segundo a Alesp, a execução financeira é responsabilidade do Poder Executivo, e os dados de transparência permitem acompanhar os valores autorizados, empenhados, liquidados e pagos. Uma indicação anunciada por um parlamentar, portanto, precisa ser acompanhada até sua efetiva execução.

As receitas municipais incluem ainda transferências estabelecidas pela Constituição e pela legislação, como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e os repasses vinculados ao Fundeb. Esses mecanismos seguem critérios próprios de distribuição e não dependem da manutenção de um deputado com base eleitoral na cidade. A troca de representantes não elimina esses recursos.

A saída de parlamentares pode exigir novas negociações e a reconstrução de canais de interlocução. Os eleitos, por outro lado, podem incorporar demandas de cidades onde receberam apoio, mesmo sem uma estrutura política anterior nesses locais. Nas entrevistas ao ABCdoABC, Luiz Fernando e Átila assumiram a defesa de uma atuação regional; a concretização dessa proposta dependerá dos acordos que conseguirem estabelecer e dos projetos que levarem adiante.

O acompanhamento dos próximos quatro anos terá de distinguir propostas, recursos indicados, pagamentos realizados e serviços entregues. É nessa sequência que será possível verificar se a bancada menor reduziu a capacidade de articulação do Grande ABC ou se os mandatos conseguiram construir novas formas de atender às sete cidades.

  • Publicado: 21/10/2026 18:45
  • Alterado: 21/10/2026 18:53
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC