Marco Buzzi perde cargo após decisão inédita no STJ

Marco Buzzi é punido pelo STJ com perda de cargo após processo disciplinar que apurou acusações de assédio e importunação sexual

Crédito: © SERGIO AMARAL/STJ

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu nesta quinta-feira (6) aplicar a pena de perda de cargo ao ministro Marco Buzzi, de 68 anos, após a conclusão de um processo administrativo disciplinar que apurou denúncias de assédio, importunação sexual e injúria contra duas mulheres. O magistrado nega as acusações e informou que pretende recorrer da decisão.

A punição representa um caso inédito na história do tribunal, já que nunca antes um ministro do STJ havia recebido essa penalidade. O julgamento ocorreu em sessão fechada na sede da corte, em Brasília, e teve duração aproximada de cinco horas.

Os ministros concordaram de forma unânime que deveria haver uma punição, mas divergiram sobre qual seria a medida aplicada. A maioria acompanhou o voto conjunto apresentado pela comissão disciplinar, liderada pelo presidente do grupo, Luis Felipe Salomão.

Caso Marco Buzzi envolve decisão inédita e divergência sobre pena

Marco Buzzi
© Sérgio Amaral/STJ

Os ministros Gurgel de Faria, João Otávio de Noronha, Moura Ribeiro e Regina Helena Costa defenderam a aposentadoria compulsória, mas essa possibilidade havia sido derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para casos de magistrados envolvidos em infrações graves.

Após o julgamento, a advogada Maria Fernanda Saad Ávila, que representa o ministro, afirmou que a defesa respeita a decisão, mas discorda da punição. Segundo ela, os próximos passos serão avaliados conforme a nova regulamentação sobre o tema. O magistrado está afastado das funções desde fevereiro.

Os advogados ainda poderão recorrer ao STF contra a decisão do STJ. A sanção aplicada é chamada de disponibilidade com proposta de perda do cargo. Nesse modelo, o magistrado deixa de atuar, não participa de julgamentos e não exerce funções na corte, mas recebe remuneração proporcional ao tempo de serviço, e não o valor integral do subsídio.

Na terça-feira (4), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) regulamentou a decisão da Primeira Turma do STF que afastou a aposentadoria compulsória como punição para infrações graves. O órgão estabeleceu que a perda do cargo dependerá de um processo em três etapas: análise pelos tribunais locais, pelo próprio CNJ e, posteriormente, pelo Supremo.

Durante a tramitação, os magistrados continuam recebendo valores proporcionais ao tempo de serviço. Ao fim do procedimento, porém, poderá ocorrer o encerramento definitivo do vínculo funcional com o Judiciário.

No caso específico do ministro do STJ, o processo deverá ser encaminhado diretamente à Advocacia-Geral da União (AGU), que poderá ingressar com uma ação no Supremo. A regra definida pelo CNJ será válida para processos novos ou ainda em andamento após sua publicação, sem alterar casos já encerrados.

Denúncias contra Marco Buzzi foram apresentadas por duas mulheres

© Gustavo Lima/STJ

As acusações analisadas pelo tribunal partiram de duas denunciantes. A primeira denúncia foi registrada em janeiro pela filha de um casal de amigos do ministro, que afirmou ter sido agarrada durante um banho de mar no litoral de Santa Catarina.

A segunda acusação foi apresentada por uma funcionária terceirizada que trabalhava no gabinete do magistrado. Segundo o relato, os episódios teriam ocorrido ao longo de três anos em diferentes áreas do gabinete, incluindo sala do ministro, depósito, corredor e biblioteca.

A versão da denunciante recebeu apoio de outros funcionários do tribunal, aos quais ela teria relatado ter sido vítima de importunação sexual.

No julgamento, houve manifestações das defesas das denunciantes e do ministro, além da participação do Ministério Público Federal (MPF). Os representantes das vítimas tiveram 15 minutos cada para apresentar seus argumentos, enquanto o MPF contou com 30 minutos.

Os advogados Paulo Emílio Catta Preta e Maria Fernanda Saad Ávila fizeram a defesa por cerca de uma hora. A defesa de Marco Buzzi negou todas as acusações durante o processo e pediu a absolvição nas alegações finais apresentadas em julho.

Os advogados alegaram que os depoimentos das denunciantes apresentavam contradições e não estavam acompanhados de provas independentes. Também utilizaram registros de entrada no tribunal, agenda oficial, informações de voos e mensagens de WhatsApp para contestar a ocorrência dos fatos.

A defesa ainda apresentou um relatório urológico indicando uma disfunção erétil como um dos argumentos para sustentar a inocência do ministro.

O Ministério Público Federal alterou sua manifestação nesta quinta-feira e passou a defender a perda do cargo para adequar seu posicionamento à regulamentação do CNJ. Antes disso, o órgão havia solicitado a aposentadoria compulsória.

Em parecer apresentado em julho, o MPF afirmou que as provas reunidas indicavam violação de princípios relacionados à integridade pessoal e profissional, além de honra e decoro. O órgão também rejeitou argumentos da defesa sobre condições de saúde do ministro, como mobilidade reduzida e disfunção erétil, que seriam utilizadas para contestar as acusações.

Processo administrativo disciplinar teve participação de 28 ministros

O STJ possui 33 vagas, e 28 ministros participaram do julgamento do processo administrativo disciplinar. Além do ministro investigado, havia outras situações de ausência, como a vaga aberta pela aposentadoria de Antonio Saldanha Palheiro e o afastamento por doença de Og Fernandes.

Isabel Gallotti não participou da análise por ter declarado impedimento devido a vínculos familiares com o ministro. Ela é casada com o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Walton Alencar, cujo irmão possui um enteado casado com uma das filhas do magistrado. Mauro Campbell também não votou por ocupar o cargo de corregedor-nacional de Justiça.

O processo disciplinar foi aberto em 14 de abril. Luis Felipe Salomão, que será o próximo presidente do STJ, buscava concluir a análise antes de assumir a gestão da corte e tinha expectativa de finalizar o caso até a primeira quinzena de agosto.

Durante a apuração, o ministro chegou a ser internado. Antes do afastamento determinado pelos colegas, ele havia solicitado licença de 90 dias para tratamento psiquiátrico e ajustes de medicação.

Nas semanas anteriores ao julgamento, os advogados visitaram gabinetes dos ministros para apresentar memoriais com os principais argumentos da defesa. A estratégia também inclui buscar novas provas negadas durante o processo disciplinar no procedimento criminal que tramita no STF.

Na Suprema Corte, o relator é o ministro Kassio Nunes Marques, que aguarda a conclusão do caso no STJ para dar andamento ao processo que pode resultar em responsabilização criminal de Marco Buzzi.

Paralelamente às investigações sobre assédio e importunação sexual, o ministro do STF Cristiano Zanin autorizou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para apurar suspeitas de venda de decisões judiciais envolvendo o magistrado. A investigação tramita sob sigilo.

  • Publicado: 06/08/2026 15:56
  • Alterado: 06/08/2026 16:06
  • Autor: Daniela Penatti
  • Fonte: FOLHAPRESS