Leão Serva e a busca por lucidez em tempos de conflito

No ABC Cast Conexões, Leão Serva analisa polarização, algoritmos, ética e os desafios do jornalismo diante da hostilidade e da pressão das redes sociais

Crédito: O jornalista e escritor Leão Serva (Reprodução/ABCdoABC)

Leão Serva já esteve diante de conflitos em que a violência não era metáfora. Cobriu as guerras na antiga Iugoslávia, passou pela Somália durante a guerra civil e fez da fotografia de guerra um de seus objetos de estudo. Décadas depois, acompanha outro tipo de confronto ganhar espaço no cotidiano brasileiro, com hostilidade política, campanhas marcadas pela disputa de atenção e relações pessoais atravessadas pela agressividade das redes.

Jornalista, escritor e pesquisador, Serva construiu uma trajetória que passou pela Folha de S.Paulo, pela direção de redações como Notícias Populares, Jornal da Tarde e Diário de S.Paulo, além de projetos que participaram da expansão do jornalismo brasileiro na internet. No ABC Cast Conexões, ele parte dessa experiência para discutir até que ponto a violência percebida nas plataformas é realmente nova.

Para Serva, discutir a violência atual exige olhar também para o que já estava presente no país antes das redes sociais. É a partir dessa percepção que ele lembra um episódio ocorrido depois de sua volta da cobertura da guerra na antiga Iugoslávia. “Quando voltei ao Brasil, depois de cobrir as guerras na antiga Iugoslávia, o Serginho Groisman me chamou para o programa dele com outros correspondentes brasileiros que tinham feito coberturas de guerra. Estava do meu lado o jornalista Rosental Calmon Alves, que havia coberto as guerras na América Central. Ele contou que tinha coberto guerras muito violentas, mas que a única vez em que teve um revólver apontado para a cabeça foi num assalto no Rio de Janeiro. Isso é muito chocante muitas vezes”, recorda.

A experiência acumulada em zonas de conflito impede Leão Serva de localizar toda a agressividade contemporânea nas plataformas digitais. Na leitura dele, existe uma história anterior de violência social e enfrentamento político que frequentemente desaparece quando a discussão se concentra apenas no comportamento das pessoas na internet. “Não é só a violência e a agressividade das redes sociais desse nosso tempo. O Brasil é um ambiente muito violento há muitos anos e a gente não se dá conta, às vezes, disso”, afirma.

A mesma perspectiva aparece quando Serva trata da polarização. Ele rejeita a ideia de que a divisão política tenha surgido recentemente e recorre à história brasileira e às próprias memórias familiares para sustentar sua interpretação. O que mudou, em sua avaliação, foi também a maneira como essas diferenças passaram a se manifestar publicamente. “Eu acho que a polarização está no comportamento das pessoas, mas a polarização também explica certos comportamentos. Ela sempre existiu, no meu modo de ver, e está acentuada, está se manifestando de forma menos educada, menos contida. Eu me interessei por história ouvindo pessoas mais velhas, meus pais, meus avós, e tendo curiosidade de ir atrás dessas histórias. Eu não tenho dúvida de que o Brasil sempre foi polarizado como é agora”, diz.

Leão Serva percorre diferentes períodos para sustentar essa leitura, passando pela Greve Geral de 1917, pelas revoltas paulistas da década de 1920, pelo movimento constitucionalista de 1932, pelas divisões políticas de 1964 e pela eleição presidencial de 1989. Documentos do Arquivo Público do Estado de São Paulo registram os bombardeios ocorridos durante a Revolta de 1924 e apontam o constitucionalismo como a principal bandeira pública do movimento paulista de 1932.

Ao recordar 1964, Serva aproxima a disputa política de uma dimensão familiar que hoje costuma ser associada aos grupos de mensagens e às redes sociais. “A minha família se dividiu diante da perspectiva do golpe ou da perspectiva da continuação do governo João Goulart. Exatamente como os grupos de WhatsApp de hoje, todo mundo estava representado em outro meio de comunicação. Em 1989, o Brasil viveu novamente uma polarização entre esquerda e direita. Então, o Brasil sempre foi polarizado. É assim que isso se manifesta agora”, afirma.

A diferença que Serva passa a examinar está justamente nesse “agora”. A divergência política tem raízes anteriores à internet, mas encontrou plataformas que disputam permanentemente a atenção do usuário e oferecem mecanismos capazes de amplificar comportamentos, aproximar semelhantes e afastar quem pensa de maneira diferente. É nesse ponto que a história da polarização brasileira encontra a lógica das redes sociais.

Quando a atenção premia o excesso

Datena Cadeirada Pablo Marçal
(Reprodução/TV Cultura)

Se a polarização não nasceu na internet, Leão Serva vê nas plataformas um mecanismo capaz de alterar a forma como ela se manifesta. A disputa política passa a conviver com uma lógica em que visibilidade tem valor próprio e comportamentos capazes de interromper o fluxo cotidiano ganham vantagem na concorrência pela atenção.“Você tem isso que nas mídias sociais se chama economia de atenção. A economia de atenção nas redes sociais e no mundo atual você conquista se fizer algo escandaloso, anômalo e bizarro. Então, os candidatos que fazem isso são premiados na conquista de mais tempo da atenção”, afirma.

Serva relaciona essa lógica aos debates da eleição municipal de São Paulo de 2024 e parte de um episódio que viveu diretamente. Em setembro daquele ano, ele mediava, pela TV Cultura, o debate entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo quando José Luiz Datena atingiu Pablo Marçal com uma cadeira, após uma provocação do adversário. Serva interrompeu a transmissão, chamou o intervalo e, na volta, comunicou a expulsão de Datena. O episódio ganhou ampla repercussão dentro e fora das redes sociais.

Na avaliação do jornalista, Marçal havia incorporado a disputa por atenção à própria maneira de se comunicar publicamente. Serva trata essa estratégia como uma tentativa de produzir notoriedade em uma campanha na qual cada intervenção podia continuar circulando depois do encerramento do programa. “O Pablo Marçal, que é um especialista na chamada economia de atenção, sabia que, para a finalidade pretendida por ele, que era a notoriedade, precisava conquistar votos com aquele tipo de comportamento que teve nos sucessivos debates. Isso, para mim, ficou muito claro naquele debate e é representativo de um momento da vida política brasileira que nós precisamos discutir”, diz.

A análise de Leão Serva também relativiza a ideia de que as plataformas tenham tornado a televisão e os veículos jornalísticos irrelevantes. Ele observa que a repercussão digital de determinadas figuras políticas continua dependendo de acontecimentos produzidos ou amplificados por meios tradicionais. No caso que acompanha de perto, os próprios debates televisionados forneciam matéria-prima para a circulação posterior nas redes. “Eu sempre me lembro disso quando vejo essas discussões de jornalistas e analistas políticos dizendo que as redes sociais conquistaram o eleitor, o mundo, a opinião pública. Não é verdade. A rede social depende das mídias convencionais. Ela usa o alicerce de credibilidade das mídias convencionais para poder desenvolver o seu enredo”, afirma.

Essa relação impede, para Serva, uma leitura em que a comunicação digital simplesmente substituiu os meios anteriores. Televisão, jornalismo profissional e plataformas passaram a disputar e, ao mesmo tempo, alimentar a mesma circulação de acontecimentos, imagens e frases. O que muda é a velocidade com que cada fragmento pode ser retirado do ambiente original e transformado em conteúdo para novas audiências.

É nesse circuito que a provocação encontra terreno fértil. O gesto feito diante das câmeras pode alcançar um público muito maior depois que o debate termina, recortado, comentado e distribuído por milhares de perfis. Para Leão Serva, porém, essa capacidade de produzir atenção também encontra limites. “As mídias sociais levaram até um certo momento. Agora, existe um teto. Aquele comportamento bateu num limite. A partir daquele momento, reverteu a tendência de alta”, avalia.

A atenção pode ser conquistada pelo excesso sem que exposição e adesão sejam necessariamente a mesma coisa. É justamente quando essa engrenagem passa do comportamento político para as relações cotidianas que Serva identifica um dos efeitos mais duros das plataformas, a transformação da divergência em hostilidade permanente.

A agressividade que os algoritmos ampliam

Leão serva
(Divulgação)

A disputa pela atenção não permanece restrita às campanhas e aos personagens públicos. Para Leão Serva, as plataformas também interferem na maneira como as pessoas percebem quem está fora de seus círculos de afinidade. Os algoritmos aproximam conteúdos e usuários com interesses semelhantes, enquanto a divergência pode assumir a aparência de uma ruptura muito maior do que aquela encontrada nas relações fora da tela. “Esses caras consomem integralmente a alma dos seus consumidores com algoritmos que criam bolhas, onde só tem gente que pensa como eu. Nós estamos aqui em casa, e quem está fora da bolha é um adversário figadal. Isso chega até a brigas homéricas entre pessoas que se amam, ou se amavam”, afirma.

Essa percepção também nasce de uma experiência pessoal. Em setembro de 2022, Serva havia acabado de mediar um debate entre candidatos ao Governo de São Paulo quando o então deputado estadual Douglas Garcia abordou a jornalista Vera Magalhães, que relatou ter sido hostilizada e ameaçada. Serva interveio, retirou o celular da mão do deputado e o arremessou para longe. O episódio ocorreu após o encerramento do debate promovido pela TV Cultura, Folha de S.Paulo e UOL.

A repercussão chegou diretamente às redes do jornalista. Leão Serva conta que já havia abandonado o X/Twitter por causa da agressividade que encontrava na plataforma. Depois do episódio com o celular, restringiu também o acesso ao próprio perfil no Instagram. “Naquela noite eu recebi 2.100 agressões muito violentas ou ameaças de morte. Eu já não usava mais o Twitter, só usava o Instagram. Fiz um bloqueio das minhas redes sociais e a minha vida ficou superpacífica. De vez em quando tem alguém que reclama de alguma coisa, mas nunca mais vi aquela violência, aquela agressividade. Então, estou convencido. Ela é digital, ela é artificial, ela é incrementada pelos algoritmos”, relata.

O contraste que Serva observa está na distância entre a hostilidade projetada pelas plataformas e relações que ele próprio acompanhou fora delas. Ao longo da carreira, viu adversários políticos sentarem para conversar, negociar projetos e sustentar divergências sem reproduzir o ambiente de confronto permanente que aparece diante de seus seguidores. “Você olha essas figuras nas redes sociais e parece que os seus seguidores são inimigos mortais. A vida acaba se eu não extinguir aquele inimigo. Eu acho que os algoritmos aumentam isso. Não é a vida real, mas criam uma falsa dinâmica nas redes sociais”, diz.

Para o jornalista, essa diferença ajuda a entender por que a percepção de conflito pode se tornar tão intensa para quem acompanha a política apenas pelas plataformas. A bolha não elimina divergências que existem na sociedade, mas organiza a experiência do usuário de maneira que o adversário reaparece continuamente como ameaça, enquanto encontros, negociações e convivências que também fazem parte da vida política dificilmente alcançam a mesma capacidade de circulação.

A experiência de quem participou da chegada do jornalismo brasileiro à internet torna essa transformação ainda mais significativa. Leão Serva viu a rede surgir como espaço de expansão da informação e acompanhou, anos depois, a consolidação de plataformas nas quais credibilidade, opinião, provocação e desinformação passam a disputar a mesma tela. É desse ponto que a conversa chega a outra questão central de sua trajetória, o que ainda distingue o jornalismo quando qualquer pessoa pode publicar e alcançar uma audiência própria.

O método que sustenta o jornalismo

Leão Serva
(Divulgação)

Quando notícias, comentários, vídeos e opiniões passam a circular pelo mesmo ambiente, a origem da informação pode ficar menos evidente para quem recebe o conteúdo. Leão Serva chama atenção justamente para essa perda de percepção sobre o caminho que uma notícia percorre até chegar ao público. Para ele, a confiança no jornalismo continua presente mesmo quando o usuário acredita estar consumindo informação diretamente de amigos, perfis ou criadores de conteúdo.“Eu acho que as pessoas não sabem que confiam na imprensa. Elas não sabem ou não se dão conta. Não acreditam nos veículos de comunicação jornalística e, ao mesmo tempo, repostam coisas de pessoas que são amigas. Só que, muitas vezes, lá embaixo está uma notícia de imprensa”, afirma.

Serva lembra de um estudo segundo o qual boa parte das publicações sobre temas de interesse público compartilhadas nas redes carregava algum conteúdo produzido originalmente por veículos jornalísticos. A circulação muda de mãos, recebe comentários e pode perder a marca de origem, mas a informação que sustenta aquela postagem continua vindo de uma redação. “Hoje se lê mais notícia jornalística do que nunca. Só que são notícias carregadas ou transmitidas por rede social. Quando ocorrem problemas importantes, as pessoas correm para a mídia. Na pandemia, todo mundo correu para o jornalismo convencional para ter informações fidedignas, checar informação e entender o que estava acontecendo”, diz.

Na avaliação de Leão Serva, a crise das empresas jornalísticas não equivale a uma perda de interesse pelo jornalismo. Ele distingue a queda da audiência direta dos veículos da demanda por informação produzida com apuração e método. O problema estaria também na dificuldade de construir um modelo econômico capaz de aproximar novamente quem produz notícia de quem a consome. “Há uma fraqueza das empresas jornalísticas e há um interesse crescente por notícias jornalísticas. Está faltando a oferta encontrar a demanda, um modelo econômico que renove a capacidade do jornalismo de falar com seus espectadores. Caiu a audiência direta das empresas jornalísticas, não do jornalismo”, avalia.

A transformação também afetou as próprias redações. Serva relaciona a redução de equipes e da capacidade de apuração ao crescimento do espaço ocupado por colunas e análises. Nas plataformas, esse conteúdo costuma circular isoladamente, separado da edição que originalmente reunia reportagem, contexto e opiniões diferentes. Para ele, esse recorte pode fazer com que o posicionamento de um colunista seja confundido com a identidade editorial inteira de um veículo.

A relação de Leão Serva com essa mudança vem de antes da consolidação das redes sociais. Ele participou da criação do iG e ajudou a desenvolver o Último Segundo, numa geração que levou o jornalismo brasileiro para a internet. A escolha, recorda, foi fazer da produção jornalística um dos pilares do novo portal, mesmo diante de uma tecnologia que já permitia experimentar outros formatos de conteúdo e relacionamento com a audiência. “Nós trabalhamos com jornalismo ali, foi a nossa opção. O diagnóstico era de que os grandes grupos de mídia de sucesso no Brasil tinham como alicerce o jornalismo. Então coube a mim, junto com a equipe, criar e nortear o Último Segundo. Hoje talvez um portal pudesse crescer com um ou dois blogs de grande influência, com algum influenciador popular. Mas isso não é jornalismo”, afirma.

É nessa distinção que Serva localiza o papel dos influenciadores dentro do ecossistema informativo. Popularidade e capacidade de mobilizar audiência sempre fizeram parte dos meios de comunicação, ainda que os personagens e as plataformas tenham mudado. O jornalismo, porém, depende de procedimentos próprios para produzir e verificar informação.“Eu acho que os influencers vão adotar os vícios dos jornalistas para poder continuar sendo jornalistas. Sucesso midiático sempre existiu, e o jornalismo estava num lugar dentro desse panteão. Os influencers estão nas redes sociais. As redes sociais são meios de comunicação, mas elas não são jornalísticas. Agora, dão audiência”, diz.

A popularidade do próprio jornalista também cria uma tensão. Leão Serva reconhece que profissionais com grande audiência podem se tornar personagens públicos, mas considera decisivo preservar a hierarquia entre quem conta a história e aquilo que está sendo apurado. A fama pode aproximar leitores e espectadores; o trabalho jornalístico continua dependendo da capacidade de colocar o fato, a fonte e o personagem no centro da narrativa. “O jornalista muito famoso se torna um personagem. Mas, a partir de certo momento, se ele é o personagem, ele não tem o que apurar jornalisticamente. Se ele tem muita credibilidade popular e continua sendo jornalista, as histórias dele vão ficar famosas. É um equilíbrio. Se a fama domina, a pessoa pula para uma outra órbita”, afirma.

Para Serva, é justamente essa disciplina que diferencia a produção jornalística em um ambiente no qual qualquer perfil pode alcançar milhares ou milhões de pessoas. Audiência amplia a circulação de uma mensagem. Jornalismo exige método para transformá-la em informação.

A ética permanece quando a plataforma muda

Leão Serva
(Reprodução)

A velocidade das transformações tecnológicas colocou formatos, linguagens e modelos de distribuição em movimento, mas Leão Serva rejeita a ideia de que cada nova plataforma exija um conjunto inteiramente novo de princípios. Depois de décadas também dedicadas ao ensino de ética jornalística, ele defende que as mudanças atingem práticas e costumes da profissão sem eliminar compromissos básicos como a honestidade com o público, a identificação da publicidade e a separação entre interesses comerciais e produção editorial. “Nós estamos no meio de uma revolução. A ética está ali, mas estamos no meio de uma revolução e a moral pode ser provisória. A ética é mais universal. A minha opção é sempre voltar para a ética. Eu falo da ética do jornalismo. A gente tem que encontrar, nos novos meios, o jeito de recuperar e manter essa ética”, afirma.

Essa permanência aparece em situações bastante concretas. Leão Serva cita a fronteira entre jornalismo e publicidade como uma regra que continua necessária mesmo quando a notícia deixa a página impressa e circula em vídeo, rede social ou transmissão esportiva. Ele critica situações em que profissionais envolvidos no conteúdo jornalístico passam a apresentar anunciantes sem uma separação clara entre as duas funções. “A mesma divisão que tem na página do jornal, que diz ‘aqui é o anúncio e aqui estão as notícias’, tem que existir no jornalismo, seja ele de que natureza for. Digital, eletrônico, uma nota na rede social, não pode carregar junto, no meio, confundindo um anúncio”, explica.

A mudança de suporte, portanto, exige adaptações sem dispensar referências acumuladas pela própria profissão. Serva defende que dilemas surgidos nas plataformas digitais também sejam confrontados com princípios construídos durante décadas de prática jornalística, inclusive quando ainda não existe uma resposta pronta para determinada tecnologia ou formato. “Como dizia o Paulinho da Viola, ‘Na hora do nevoeiro, leva o barco devagar.’ Vamos olhando. Tem essa tendência aqui, deixa eu ver no manual de ética jornalística tradicional o que eu posso aprender. Não é porque eu inventei uma nova mídia que tenho que mudar as leis e as regras. Havemos de entender como é, eventualmente com uma moral provisória num momento de transição”, diz.

A experiência de Serva também inclui decisões tomadas sem o conforto de muito tempo para reflexão. Ele começou no jornalismo aos 18 anos e, aos 66, reconhece uma carreira formada por acertos e erros. Para ele, a pressão não desaparece quando os princípios estão claros, porque a rotina profissional frequentemente exige que uma decisão editorial seja tomada antes que todas as consequências possam ser conhecidas. “Eu vivi muitas cenas desse tipo e certamente também muitas decisões erradas que depois olhei e pensei ‘que pena’. A nossa experiência, em grande medida, é feita por acertos e erros. Uma qualidade do bom jornalista, do bom editor, é tomar decisões rápidas, porque o jornalismo é muito rápido. Eu tomo decisões muito rapidamente, algumas erradas e outras certas”, afirma.

Como se proteger de uma granada

Como se proteger de uma Granada - Leão Serva
(Divulgação)

Parte dessas reflexões está reunida em Como se proteger de uma granada, cujo subtítulo é Sobrevivência em um mundo de guerras, disputas políticas e redes sociais, lançado em 21 de setembro e disponível para compra na Amazon. O livro parte das cinco décadas de carreira de Serva e de situações vividas em coberturas de conflitos, treinamentos para atuação em zonas hostis, sequestros, explosões e episódios em que decisões precisavam ser tomadas sob risco real.

A obra, porém, não se restringe ao jornalismo de guerra. Serva aproxima essas experiências de situações contemporâneas em que medo, adrenalina, impulsividade e pressão também moldam comportamentos. As memórias de coberturas em Angola, Somália e Bósnia dividem espaço com reflexões sobre polarização política, redes sociais, agressividade e os mecanismos que entram em ação quando uma pessoa se sente ameaçada. Os debates eleitorais que mediou na televisão também aparecem nesse percurso, aproximando conflitos armados de outras formas de tensão que atravessam a vida pública.

Misturando memória autobiográfica e reflexão, o livro acompanha o mesmo movimento presente na entrevista. Serva sai de episódios concretos para discutir como indivíduos e sociedades reagem quando a pressão aumenta e a capacidade de julgamento é colocada à prova. A granada do título aparece, assim, tanto como experiência literal de quem esteve em zonas de guerra quanto como imagem para um cotidiano marcado por confrontos políticos e bombardeios digitais.“É uma reflexão, um livro de crônicas, num sentido de ser um texto mais leve e procurando aspectos curiosos, às vezes engraçados, às vezes menos, para a gente poder discutir o jornalismo de um jeito mais leve do que em outros livros que eu escrevi, que são mais ensaísticos”, explica Serva.

Ao olhar para uma profissão atravessada por crises econômicas, mudanças tecnológicas, redes sociais, desinformação e novas formas de consumo, Leão Serva evita encerrar essa trajetória em chave pessimista. A história que ele próprio acompanhou inclui sucessivas rupturas, da transformação das redações à chegada da internet, e nenhuma delas eliminou a necessidade de produzir informação com método e responsabilidade. “A gente tende sempre a olhar o momento que vive como pior do que os momentos anteriores, que lembra ou ouviu falar como melhores. E, na verdade, não é. O melhor momento da sua vida é agora. Talvez venha a melhorar depois. A capacidade de perceber isso é muito importante porque, do contrário, a gente fica pessimista. Os momentos podem dar margem a pessimismo, mas tudo vai dar certo, por mais que seja difícil a passagem”, conclui.

Equipe e convidados do ABC Cast Conexões

O jornalista e escritor Leão Serva - Edvaldo Barone - Thiago Quirino
Leão Serva, Edvaldo Barone e Thiago Quirino (Reprodução/ABCdoABC)

A entrevista com Leão Serva foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação de Edvaldo Barone, jornalista especializado em cultura e também editor-chefe do ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do portal, e a edição do episódio leva a assinatura de Lucas Lima.

Confira a entrevista completa com Leão Serva:

Além do canal no YouTube, o episódio com Leão Serva pode ser acessado pelo Amazon Music, Spotify, Deezer e também no Apple Podcasts.

  • Publicado: 03/10/2026 08:00
  • Alterado: 03/10/2026 08:00
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC