IA nas eleições: impacto é menor do que se imaginava, diz estudo

Pesquisa de Oxford relativiza o peso da inteligência artificial na política enquanto o Brasil endurece regras para o pleito de 2026.

Crédito: Via IA

A popularização de ferramentas generativas capazes de sintetizar voz, áudio e vídeo alimentou previsões alarmistas sobre a integridade do processo democrático global. No entanto, estudos acadêmicos recentes apontam que o impacto direto dessa tecnologia pode estar superestimado. As Eleições continuam sendo decididas por fatores políticos, sociais e econômicos tradicionais, e não por conteúdos manipulados em redes sociais.

A conclusão é de Felix Simon, pesquisador do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo e do Instituto de Internet de Oxford, da Universidade de Oxford. Em análise sobre disputas recentes, o especialista argumenta que a dificuldade de capturar o interesse do público impõe uma barreira física ao alcance das campanhas de persuasão digital.

O principal desafio para influenciar o voto das pessoas ou persuadi-las de uma forma ou de outra é conseguir que elas prestem atenção — e isso é muito, muito difícil”, pontuou Felix Simon. O pesquisador destaca que, sobrando apenas cerca de 4 horas diárias para entretenimento e interação, a disputa pela atenção do eleitor ocorre em um ambiente saturado de estímulos.

Mídia sintética e a bolha de confirmação dos eleitores

Urna -Voto governador
José Cruz – Agência Brasil

A desinformação propagada via inteligência artificial encontra limites na própria psicologia do eleitorado. A maioria dos conteúdos criados para redes sociais atinge indivíduos que já possuem convicções partidárias sedimentadas. Esses eleitores utilizam materiais manipulados apenas para chancelar visões de mundo pré-existentes.

Para ser eficaz, seria necessário que houvesse algum tipo de demanda não atendida por mais desinformação, e isso não existe“, afirmou Felix Simon. Ele reforça que grupos suscetíveis ao engano não exigem montagens hiper-realistas para acreditar em narrativas falsas, o que torna o avanço técnico da tecnologia menos decisivo do que se especula.

A eficácia limitada da inteligência artificial decorre da existência de mecanismos de vigilância epistêmica nos cidadãos. Para fatias menos polarizadas do eleitorado, o grau de confiança depositado na fonte de uma mensagem sobrepõe-se à sofisticação estético-visual da peça publicitária.

Fatores políticos tradicionais definem o resultado das Eleições

Um estudo publicado por Felix Simon e pelo psicólogo Sacha Altay, da Universidade de Zurique, sob o selo da Universidade de Columbia, mapeou o ecossistema eleitoral global entre 2023 e 2024. A pesquisa concluiu que o uso de ferramentas generativas não provocou desvios massivos na conduta das urnas em relação às variáveis sociológicas consagradas.

Identidade partidária consolidada na juventude, vínculos comunitários e a situação econômica individual continuam atuando como os filtros primários de decisão do eleitor. A conduta de lideranças políticas reais ao infringir normas institucionais causou estragos consideravelmente maiores ao debate público do que a criação de vídeos sintéticos.

A professora Mariana Malta, mestra e doutoranda em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP) e docente de Relações Internacionais na Universidade Anhembi Morumbi, enxerga a questão sob o prisma das disputas de poder.

A inteligência artificial redefiniu a comunicação e a propaganda política. Contudo, esse avanço acompanha um aumento significativo da desinformação, exemplificado por deepfakes de áudio, vídeo e imagem envolvendo candidatos“, analisou Mariana Malta.

A especialista defende que o foco do debate público deve migrar da simples medição do volume de notícias falsas para o controle estrutural da tecnologia. “O ponto crítico é que a inteligência artificial virou um ativo de disputa geopolítica e partidária. Mais do que analisar seus efeitos imediatos, a prioridade deve ser questionar quem controla a tecnologia, a serviço de quais interesses ela está operando e sob quais regras será submetida”, destacou a docente da USP.

O ‘equilíbrio armamentista’ e a desconfiança generalizada

Redes sociais - Proibição de redes sociais - Instagram
(Marcello Casal jr/Agência Brasil)

A disseminação de plataformas generativas universais neutralizou a vantagem estratégica de grupos isolados. Quando um espectro político adota a tecnologia para automatizar produções, os adversários absorvem o método rapidamente, restabelecendo o ponto de equilíbrio nas campanhas eleitorais.

O risco real da automação em massa reside no desgaste da confiança institucional. A constante exposição a alertas sobre conteúdos falsos induz a população ao ceticismo generalizado, levando eleitores a duvidar de registros fotográficos e em áudio autênticos.

  • Erosão da credibilidade: O conhecimento sobre a existência de deepfakes faz o eleitor rejeitar provas reais.
  • Sobrecarga de checagem: Jornalistas e peritos enfrentam dificuldades para desmentir boatos na mesma velocidade em que são gerados.
  • Aumento da cinismo político: O eleitorado passa a encarar todo o processo de comunicação como uma peça manipulada.

Regulação no Brasil: o novo marco do TSE para 2026

Marcelo Camargo/Agência Brasil

No cenário nacional, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alterou a Resolução nº 23.610/2019 por meio da Resolução nº 23.755/2026. O texto atualizado impõe restrições severas às equipes de comunicação que atuarão nas disputas estaduais e federais.

A norma obriga a rotulagem explícita de qualquer elemento sintético inserido em textos, fotos ou áudios de propaganda. O uso de deepfakes para prejudicar ou favorecer candidaturas foi banido do pleito, sob pena de multas entre R$ 5 mil e R$ 30 mil, além da cassação do registro do candidato em infrações graves.

Restrições no calendário de publicação

A legislação eleitoral brasileira implementou um período de silêncio digital nas 72 horas anteriores ao pleito e nas 24 horas posteriores. O bloqueio proíbe a veiculação de novos conteúdos gerados por inteligência artificial, mesmo que apresentem as etiquetas de identificação exigidas.

Para Renato Asse, especialista em automação e fundador do ibe.IA (Instituto Brasileiro de Educação em Inteligência Artificial), o tribunal brasileiro delimitou fronteiras jurídicas cruciais para a indústria de marketing político.

“O TSE acertou ao diferenciar o uso produtivo da inteligência artificial da manipulação por meio de deepfakes. O problema é que ainda existe uma enorme falta de preparo de quem produz conteúdo. A tecnologia não é o risco. O risco está em utilizá-la sem transparência e sem compreender os limites estabelecidos pela legislação“, afirmou Renato Asse.

O especialista pondera que agências, assessorias e profissionais de mídias sociais terão de revisar seus fluxos operacionais com antecedência para evitar penalidades severas durante o período ostensivo de propaganda.

Não basta produzir conteúdo com inteligência artificial. Será necessário documentar processos, garantir a rotulagem correta e adaptar o calendário para respeitar as restrições. Quem entender essas regras poderá usar a inteligência artificial como ferramenta de produtividade. Quem ignorá-las assume riscos jurídicos e reputacionais bastante elevados“, concluiu Renato Asse.

O principal desafio será encontrar um equilíbrio entre reconhecer os riscos reais da inteligência artificial e evitar que previsões exageradas criem uma percepção de que nenhuma informação é confiável. Nas Eleições 2026, essa disputa pela confiança pode ser tão importante quanto a própria batalha pela atenção do público.

  • Publicado: 27/08/2026 15:59
  • Alterado: 27/08/2026 16:00
  • Autor: Thiago Antunes
  • Fonte: ABCdoABC