Guerra no Irã mostra sinais que a mobilidade será afetada
Quando a guerra está longe, mas o impacto chega ao tanque: o que o conflito com o Irã pode significar para a mobilidade no Brasil e no Grande ABC
- Publicado: 13/03/2026 15:50
- Alterado: 13/03/2026 16:11
- Autor: Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
- Fonte: ABCdoABC
Conflitos internacionais costumam parecer distantes da realidade brasileira. No entanto, quando envolvem regiões estratégicas para a produção de energia, como o Oriente Médio, os efeitos podem chegar rapidamente ao cotidiano das cidades — inclusive na mobilidade, no modo como nos deslocamos.
A guerra envolvendo o Irã reacende uma preocupação recorrente: o impacto geopolítico sobre o preço do petróleo e seus reflexos na mobilidade urbana. Mesmo sendo um país com forte produção de petróleo e grande capacidade de refino, o Brasil ainda não está completamente isolado das oscilações externas.
A mobilidade urbana — que depende diretamente de combustíveis fósseis para o transporte individual, coletivo e de cargas — torna-se um dos primeiros setores a sentir esses efeitos.
Por que o dólar influencia o preço do combustível no Brasil?

Embora o Brasil seja um grande produtor de petróleo, o preço dos combustíveis no país ainda sofre influência direta do mercado internacional. Isso ocorre por dois motivos principais.
O primeiro é que o petróleo é uma commodity global cotada em dólar. Quando há conflitos em regiões produtoras importantes, o preço internacional tende a subir devido à expectativa de redução da oferta ou dificuldade logística nas cadeias de abastecimento.
O segundo fator é que o Brasil ainda depende parcialmente da importação de derivados, principalmente do óleo diesel. Mesmo quando o petróleo é produzido internamente, a formação de preços considera o mercado internacional para evitar distorções de abastecimento.
Assim, quando o dólar se valoriza frente ao real, o custo de importação aumenta e esse movimento acaba sendo refletido nos preços praticados nas refinarias e posteriormente nos postos de combustíveis e na mobilidade urbana. Em outras palavras, não é apenas o petróleo que encarece: a variação cambial também pressiona o preço final pago pelo consumidor.
Há risco de escassez de combustíveis?
Em cenários de tensão geopolítica, também surge o temor de interrupções temporárias na oferta global de petróleo ou derivados. Isso pode ocorrer por diferentes motivos, como bloqueio de rotas estratégicas de transporte marítimo, sanções econômicas, redução da produção em países envolvidos no conflito ou aumento da demanda preventiva por parte de outros países que buscam reforçar seus estoques energéticos.
Ainda que o Brasil possua produção relevante de petróleo, o sistema de abastecimento nacional depende de cadeias logísticas integradas e de parte do mercado internacional de derivados. Isso significa que oscilações externas podem provocar atrasos logísticos, aumento no custo de importação e distribuição mais restrita em determinados períodos.
Na prática, uma escassez absoluta de combustíveis no país é pouco provável, mas episódios de desabastecimento pontual ou aumentos abruptos de preços não podem ser completamente descartados na mobilidade e já dão sinais em algumas regiões.
A volta do trabalho remoto pode reaparecer como estratégia?
Uma possível consequência indireta desse cenário seria o retorno de estratégias que já foram testadas recentemente em situações de crise.
Durante a pandemia, muitas empresas adotaram o trabalho remoto ou híbrido, reduzindo significativamente os deslocamentos diários nas regiões metropolitanas.
Caso ocorra uma elevação expressiva no custo do combustível ou dificuldades temporárias de abastecimento, algumas organizações podem novamente recorrer ao teletrabalho como forma de reduzir custos operacionais e deslocamentos obrigatórios.
Além da economia de combustível, essa estratégia reduz congestionamentos, emissões de poluentes e pressão sobre o sistema viário. Evidentemente, não se trata de uma solução universal, pois muitas atividades exigem presença física. Ainda assim, setores administrativos e corporativos poderiam reativar essa alternativa em momentos de instabilidade energética.
Impactos específicos nos grandes centros urbanos
Grandes regiões metropolitanas, como o Grande ABC, são particularmente sensíveis a variações no custo dos combustíveis. A região apresenta características típicas de áreas urbanas intensamente conectadas: elevado volume de deslocamentos pendulares (ida e volta entre casa e trabalho), forte dependência do transporte rodoviário, grande integração econômica com a Região Metropolitana de São Paulo e presença significativa de atividades industriais e logísticas.
O aumento no preço do óleo diesel, por exemplo, impacta diretamente o custo do transporte público por ônibus, a logística urbana de mercadorias, o transporte por aplicativos e o custo do frete que abastece o comércio e a indústria. Por este motivo, o governo federal zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre o óleo diesel e criou a taxação de 12% na exportação do petróleo, conforme anunciado em 12 de março de 2026 por medida provisória, para evitar aumentos de preços devido a pressões no mercado internacional. Mas todo movimento para manter um preço do óleo diesel artificial tem seu preço no futuro e pode gerar impactos maiores do que o esperado em muitos casos.
Já o aumento da gasolina afeta principalmente o transporte individual, que ainda ocupa parcela relevante dos deslocamentos metropolitanos. Em regiões densamente urbanizadas, esses aumentos tendem a produzir efeitos em cadeia, elevando o custo de vida e pressionando sistemas de mobilidade já saturados.
O que podemos concluir diante de um cenário de guerra incerto?

Diante de um cenário de guerra com desfecho incerto, a principal conclusão é que mobilidade urbana e geopolítica estão mais conectadas do que parece. Mesmo com avanços na produção nacional de petróleo e biocombustíveis, o Brasil permanece inserido em um sistema energético global.
Isso significa que conflitos internacionais podem repercutir rapidamente no cotidiano das cidades. Caso o conflito se prolongue, algumas tendências podem se intensificar, como maior volatilidade nos preços dos combustíveis, pressão sobre os custos do transporte urbano e logístico, retomada parcial do trabalho remoto em determinados setores e necessidade de acelerar políticas de diversificação energética.
Para regiões metropolitanas como o Grande ABC, essa discussão torna-se ainda mais relevante. A dependência do transporte rodoviário e a intensa integração com a economia da capital paulista tornam a mobilidade local sensível a qualquer instabilidade no custo da energia.
O episódio reforça uma reflexão importante: planejar a mobilidade urbana também significa planejar a segurança energética das cidades. Investimentos em transporte coletivo eficiente, eletrificação de frotas, uso de biocombustíveis e políticas que reduzam deslocamentos obrigatórios deixam de ser apenas uma agenda ambiental e passam a representar também uma estratégia de resiliência urbana diante de crises globais.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Agente transformador da mobilidade urbana. Luiz é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Pesquisador do Programa de Pós-doutorado em Engenharia de Transportes e Professor Credenciado da Unicamp – Faculdade de Tecnologia. É doutor em Engenharia Elétrica no Departamento de Comunicação – DECOM – FEEC da Unicamp (2020), mestre em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2009), pós-graduado em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005), possui graduação em Administração de Empresas (2002) e em Engenharia Mecânica (1999), ambas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.