Grande Dama do Samba, Dona Ivone Lara morre aos 97 anos no Rio
Compositora estava internada em hospital no Leblon e morreu em decorrência de insuficiência respiratória. Nenhuma outra mulher teve tantas vozes cantando suas músicas ou gravadas como ela
- Publicado: 17/04/2018 09:08
- Alterado: 22/08/2023 21:32
- Autor: Redação ABCdoABC
- Fonte: Estadão Conteúdo
Uma das pedras fundamentais do samba carioca, autora de clássicos como “Sonho meu” e “Alguém me avisou”, a compositora Dona Ivone Lara morreu nesta segunda-feira, 16. Ela tinha completado 97 anos no último dia 13. Dona Ivone estava internada na Coordenação de Emergência Regional, anexa ao Hospital Miguel Couto, no Leblon, na zona sul do Rio, e morreu em decorrência de insuficiência respiratória.
Apesar da idade avançada, Dona Ivone, venerada por sambistas de diferentes gerações e chamada de “Rainha do samba” e “Primeira-dama do samba”, fez shows há até pouco tempo atrás. Em 2016, celebrou os 95 anos numa apresentação que contou com outros artistas e seu neto André Lara, uma companhia constante. Em 2010, fora homenageada pelo Prêmio da Música Brasileira.
Dona Ivone se deslocava de cadeira de rodas e era amparada por familiares. Em suas aparições públicas, estava sempre sorridente e alinhada. Onde chegava era ovacionada.
O maior parceiro foi Délcio Carvalho, com quem criou, entre muitos sambas, “Sonho meu”, “Acreditar”, “Minha verdade” e “Em cada canto uma esperança”. Ele era 18 anos mais jovem e morreu em 2013.
A sambista foi gravada por Clara Nunes, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Marisa Monte e outros nomes da MPB. Em rodas de samba cariocas, composições como “Tiê” e “Mas quem disse que eu te esqueço”, esta com Hermínio Bello de Carvalho, sempre são lembradas.
O samba de Ivone Lara tinha uma assinatura. A lista não caberia aqui, mas certamente teria como obrigatórios os sambas Alguém me Avisou; Acreditar; Tendência; Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço; Samba, Minha Raiz; Sorriso de Criança; Sorriso Negro; Sonho Meu e Minha Verdade. Em qualquer uma, fica evidente o faro de Ivone pela frase que será entoada para sempre, pelo refrão que o sambista e o folião levariam para casa mesmo depois que a festa acabasse. Gravada por Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paula Toller, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Mariene de Castro, Roberta Sá e Marisa Monte, Ivone sabia como curar a dor de amor, algo que muito provavelmente tem a ver com outra de suas especialidades: a enfermagem.
Primeira mulher a ganhar uma disputa de samba-enredo numa escola de samba no Rio, em 1965 – “Os cinco bailes da história do Rio” (com Silas de Oliveira e Bacalhau) -, ela era filha de músicos e ligados ao carnaval. Era prima de Mestre Fuleiro, um dos fundadores do Império Serrano, sua escola.
Ivone, formada enfermeira e auxiliar da pioneira psiquiatra Nise da Silveira, nasceu bem antes da agremiação – era de 1921; o Império, de 1947. Ela compôs sambas ainda para o Prazer de Serrinha, escola do qual o Império viria a ser uma dissidência. A Verde-e-branco do bairro de Madureira, na zona norte do Rio, lhe fez um desfile-tributo em 2012.
Seu nome de batismo era com y, Yvonne da Silva Lara, nascida a 13 de abril de 1921 na Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. A mãe era Emerentina Bento da Silva e o pai, José da Silva Lara. Emerentina, costureira, cantava sambas para blocos carnavalescos do Rio de Janeiro. José Lara tocava violão de sete cordas e era integrantes também de blocos, como o Bloco do Africano. Os dois morreram quando ela era muito jovem. Quando fez 12 anos, Ivone já não tinha nem pai nem mãe, mas algo daqueles sambas todos que passou os primeiros anos da vida ouvindo ficariam de alguma forma em sua formação. Ivone Lara estudou enfermagem e especializou-se em terapia ocupacional. Uma função que se dedicou com paixão e a levou a conhecer a doutora Nise da Silveira, a psiquiatra brasileira (morta em 1999) que se dedicou a encontrar formas menos agressivas e desumanas de tratar enfermos mentais nas décadas de 40 e 50. Só quando o samba falou bem mais alto, em 1977, Ivone deixou de trabalhar em hospitais para se dedicar à carreira artística.