Gilvan busca identidade própria com obras nos bairros

Em entrevista exclusiva ao ABCdoABC, prefeito de Santo André avalia sua gestão com nota 8, detalha investimentos e sua relação com Paulo Serra

Crédito: Foto: Edvaldo Barone

No comando da Prefeitura de Santo André há cerca de um ano e cinco meses, o prefeito Gilvan Ferreira (Cidadania) enfrenta o desafio clássico das lideranças políticas jovens que assumem cidades de grande porte: equilibrar a continuidade de um projeto político vitorioso com a necessidade premente de imprimir sua própria marca. 

Eleito com mais de 60% dos votos válidos em 2024, embalado pela alta popularidade de seu antecessor e padrinho político, Paulo Serra (PSDB), o atual chefe do Executivo andreense agora acelera o passo no varejo da zeladoria urbana para pavimentar seu caminho rumo à consolidação de uma liderança autônoma. Em entrevista exclusiva ao portal ABCdoABC, Gilvan detalha o rumo de sua gestão até 2028.

A busca por uma identidade própria

Gilvan Ferreira tem dado sinais de que sua estratégia é conquistar espaço próprio, saindo da sombra de Serra. A recente troca de partido, voando do ninho tucano para o Cidadania, evidenciou a estratégia para desenhar seu próprio espaço. 

Apesar do novo partido fazer parte de uma federação com o PSDB, a mudança foi vista como um passo calculado de reposicionamento, buscando acomodar novas forças políticas locais sem romper os laços com o grupo que o alçou ao poder. “Fazemos parte do mesmo grupo, tudo foi muito bem conversado e a gente segue aqui trabalhando bastante. Fomos escolhidos pela população para continuar esse trabalho.” 

Questionado sobre governar sob a sombra de uma das gestões mais bem avaliadas da história recente de Santo André, Gilvan é habilidoso ao evitar o tom de ruptura, preferindo adotar uma narrativa de evolução complementar:

“Durante os oito anos do Paulo (Serra, ex-prefeito), ele resolveu muitos problemas. A recuperação das principais avenidas, o resgate do orgulho da cidade foram ações importantes e serviram de base para nossa gestão. O que a gente está conseguindo fazer agora é chegar mais na ponta, porque o grosso, o principal, tá resolvido.”

Gilvan Ferreira, prefeito de Santo André
“Eu dou nota 8 para nossa gestão até aqui”, avalia Gilvan Ferreira (foto: Secom PSA)

A PEC dos Precatórios serviu para destravar o orçamento

A oposição em Santo André costuma apontar o excesso de publicidade em torno dos canteiros de obras. Novos tapumes coloridos desenhados por agência de publicidade e vídeos bem produzidos no estilo digital influencer engrossam o caldo das críticas. Porém, nada disso parece abalar o foco da gestão do prefeito. Gilvan Ferreira vem rebatendo as críticas com planilhas de custos. 

O fôlego financeiro que sustenta o atual ritmo de intervenções viárias e programas sociais da prefeitura não surgiu por acaso, mas sim por uma complexa engenharia fiscal que envolveu forte lobby pela aprovação da PEC dos Precatórios e a capitalização do FMSAI (Fundo Municipal de Saneamento Ambiental e Infraestrutura).

Para o prefeito, esse empenho serviu para organizar a máquina pública e dar previsibilidade ao fluxo de caixa, que resultou na virada de chave necessária para que o município deixasse de apenas apagar incêndios e passasse a planejar o futuro a longo prazo.

Gilvan Ferreira explica que a cidade tinha uma dívida grande de precatórios que se arrastava há anos, criando um descompasso do fluxo de caixa. “Hoje, a gente paga 90 milhões de reais por ano só de precatórios, mas conseguiu colocar isso dentro do orçamento, segurar o gasto público e ter um superávit orçamentário de 57 milhões para colocar o caixa em dia“, celebra.

Assim, com contas equilibradas e a contabilidade do último ano no azul, a prefeitura conseguiu destravar investimentos, mesmo que apelando a recursos do fundo municipal com linhas de financiamento internacional, como os da CAF (Corporação Andina de Fomento), que antes ficavam totalmente sufocados pelo endividamento judicial.

Ter a previsibilidade de caixa da prefeitura serve pra gente planejar investimentos. É mostrar que quando a gente cuida do dinheiro público e faz um planejamento organizado, a cidade ganha“, destaca Gilvan Ferreira.

Do asfalto nos bairros ao plano antienchentes

Os contornos próprios da Gestão Gilvan ganham contraste na zeladoria urbana. Enquanto a administração anterior concentrou esforços na recauchutagem dos grandes eixos viários e corredores centrais da cidade, a ordem do dia agora é entrar com força total no miolo das periferias

Podemos dizer que “dia sim e dia também” é possível ver um vídeo do prefeito anunciando, comentando ou acompanhando alguma intervenção realizada nos extremos da cidade.

Aqui está um exemplo:

O asfalto novo deixa de ser uma intervenção em avenidas isoladas e passa a ser entregue em pacotes que cobrem bairros inteiros, alterando a rotina de comunidades historicamente esquecidas pelo poder público. “O asfalto, o Paulo conseguiu fazer nas principais avenidas. Agora, com os novos programas, a gente tá chegando nos bairros inteiros. Jardim Santo Alberto, Ana Maria, Itapoan... são 40 ruas asfaltadas, todas as ruas de que o bairro precisa. Se você perguntar para a pessoa que mora lá, ela vai falar: ‘olha, fizeram algo que nunca foi feito antes.’

Paralelamente ao asfalto visível, há importantes obras que, apesar de beneficiar a totalidade do município, só são vistas por poucos. A Prefeitura concentra esforços em um pacote bilionário de obras subterrâneas e invisíveis para a maior parte da população: o combate às enchentes. 

Diante das mudanças climáticas que têm castigado a região metropolitana com chuvas cada vez mais concentradas e severas, o município executa um plano de macro e microdrenagem que envolve desde o desassoreamento de rios até mudanças profundas e modernas na legislação urbanística local.

O investimento é alto. Gilvan explica a lógica de aplicação de recursos versus inteligência legal: “Se a gente for olhar as obras que estão em andamento e as que estão para iniciar, é em torno de 300 milhões de reais em drenagem. Nas áreas de várzea, o Plano Diretor determina que fique 15% de área permeável. Só que a área de várzea já é encharcada, não vai absorver. Então, na legislação, estamos pedindo para substituir por microrreservatórios. E naquelas áreas altas, onde precisa segurar a água para não descer para a bacia, estamos aumentando de 15% para 20% a área permeável.

Tarifa Zero em Santo André é diferente

O transporte público é outro nó que a atual gestão tenta desatar. Com a proximidade da nova licitação para o sistema de ônibus da Vila Luzita, um dos eixos mais movimentados e complexos da cidade, o debate sobre a viabilidade da Tarifa Zero voltou à tona. 

Cidades vizinhas, como São Caetano do Sul e Ribeirão Pires, já possuem versões da gratuidade do transporte público. Enquanto a cidade de São Paulo e outros municípios da Região Metropolitana discutem a gratuidade universal, Gilvan adota uma postura cautelosa. 

Para ele, o caminho para Santo André é o subsídio por quilômetro rodado e a aplicação da tarifa zero de forma cirúrgica e focalizada, priorizando o atendimento de saúde e as populações em extrema vulnerabilidade social.

O prefeito tem críticas às propostas que se apresentam: “Tarifa Zero indiscriminada, para todo mundo, tira do orçamento municipal, e é um debate que a gente precisa fazer com a cidade. Agora, essa Tarifa Zero que a gente tá fazendo envolve as áreas vulneráveis, de alguns pontos específicos, começando por atender aquelas pessoas que mais precisam, como foi no Luzitinha, isso a gente deve ampliar.

Gilvan Ferreira, prefeito de Santo André
Gilvan em entrevista exclusiva ao portal ABCdoABC (foto: Secom PSA)

Gilvan autoavalia sua gestão: nota 8

Ao amarrar as pontas entre a justiça social no transporte, o asfalto na periferia e o rigor fiscal que organiza as contas do município, Gilvan Ferreira tenta demonstrar que o pouco tempo na cadeira de prefeito não é sinônimo de uma gestão de improviso. 

Ao fazer um balanço sincero de suas entregas até aqui, ele se esquiva do orgulho perfeito e prefere projetar o ritmo de trabalho que pretende manter nos próximos anos: “Eu dou nota 8 para nossa gestão até aqui. Sabemos que tem bastante coisa para fazer e estamos trabalhando com planejamento para execução. Espero chegar em 2028 com uma nota 10.

Se a estratégia de focar no atendimento mais periférico e em obras invisíveis que resolvem os problemas estruturais da cidade vai funcionar, só o tempo dirá. A cartilha da velha política diz que a  técnica seria insuficiente para consolidar sua liderança e mantê-lo competitivo, mas esse mistério só as urnas em 2028 poderão decifrar. 

Até lá, o ABCdoABC manterá um olhar de lupa sobre a gestão de Gilvan Ferreira. Para você munícipe que acompanhou esse texto até aqui, deixamos o convite para nos informar qual a sua avaliação sobre a atual gestão e quais problemas crônicos de seu bairro que ainda estão fora dos planos da gestão. Entre em contato conosco por email: contato@abcdoabc.com.br.

  • Publicado: 19/05/2026 17:58
  • Alterado: 19/05/2026 17:58
  • Autor: Thiago Quirino
  • Fonte: ABCdoABC