Francis Hime comemora 50 anos de carreira
Francis Hime lança o CD Navega Ilumina, pelo Selo Sesc, com letra inédita de Vinícius de Moraes; shows de lançamento serão neste sábado e domingo, 15 e 16 de novembro, no Sesc Pinheiros
- Publicado: 10/11/2014 15:41
- Alterado: 22/08/2023 21:17
- Autor: Redação
- Fonte: Atelier
Ícone e protagonista da geração de compositores surgida nos anos 1960 no Brasil, Francis Hime chega aos 50 anos de carreira em 2014. A comemoração vem com o lançamento de “Navega Ilumina”, pelo Selo Sesc, CD que traz todas as facetas do artista: o músico, o letrista, o arranjador, o compositor popular e o erudito, além do intérprete.
Em 15 e 16 de novembro Hime lançará o CD em shows no Sesc Pinheiros, sábado às 21h e domingo às 18h. Desde seu primeiro lançamento, “Os Seis em Ponto” (de 1964), até “Almamúsica Olivia e Francis Hime” (de 2011), o músico totaliza 24 discos. Foram cinco décadas de produção com importantes nomes da música brasileira, como Vinícius de Moraes e Chico Buarque, e interpretações de sua obra por nomes respeitados nacional e internacionalmente, como Elis Regina, Jair Rodrigues e Tony Bennett.
Feliz ao comemorar meio século de atividades e “com vontade de compor sempre mais e mais”, Francis Hime apresenta agora um CD só com novas músicas: “Queria não só um CD de inéditas, mas também traçar um amplo painel de minha produção, navegando por áreas tão díspares como canção, samba-enredo e música de concerto, com as fantasias para harpa e para violino”. O resultado é “Navega Ilumina”, que entre as 12 faixas inclui parcerias com Olívia Hime (Amorosa, Canção Noturna, Canção Apaixonada), Geraldo Carneiro (Navega Ilumina), Joana Hime (Sessão da Tarde), Thiago Amud (Breu e Graal) e Vinícius de Moraes (Maria da Luz).
Esta última, composta sobre um poema inédito de Vinícius de Moraes, tem história relatada por Hime. “Em março deste ano, ao mexer em meu baú de partituras à procura de meu concerto de harpa ainda inédito, me deparei com uma pastinha que continha o poema Maria da Luz, manuscrito, com a letrinha do próprio Vinícius. O poema fazia parte do balé Polichinelo, de Jean Gabriel Albiccoco (cineasta francês), idealizado nos anos 1970 e que não chegou a ser realizado. Foi planejado para que vários compositores fizessem as músicas. Para Maria da Luz havia a indicação de que ‘Francis fizesse a música’”.
Já em processo de produção do CD, Hime decidiu musicar a letra de Maria da Luz: “Fui para o piano e a música veio imediatamente à mente. Parecia até que Vinícius estava ‘me soprando’ a melodia”, ressalta o compositor.
O musicólogo e jornalista Zuza Homem de Melo foi um dos primeiros a ouvir Navega Ilumina e fez questão de elaborar um texto que relata sua importância (confira mais abaixo o texto completo). “Não é que seus outros discos não sejam igualmente importantes, mas Navega Ilumina desempenha um papel muito especial na obra de Francis Hime, para mim um dos compositores harmônicos por excelência na canção brasileira. Não é um disco que possa ser definido com uma expressão única, por mais abrangente que seja. Efetivamente não é de samba ou de canções, nem de música instrumental, embora estampe tais facetas. Representa um olhar de Francis sobre toda a sua carreira musical, sem distinção de época, de preferência ou de gênero”, relata Zuza.
Segundo Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo, a obra de Hime combina com o desejo do Selo Sesc de construir um catálogo que represente equilíbrio entre a inovação e a tradição da música brasileira. “Francis Hime faz parte do grupo, daqueles artistas que podem ser reconhecidos no primeiro acorde de um tema, ou na primeira frase de uma canção. O trabalho que desenvolveu durante sua diversificada carreira é tão ligado à tal ‘linha evolutiva da música popular brasileira que, mesmo quando nos deparamos com uma melodia inédita, a sensação de deslumbramento diante do novo vem acompanhada de um sentimento de pertencimento, como se aqueles acordes estivessem desde sempre por aí, nos ouvidos de todos”, afirma.
OS SHOWS
Em 15 e 16 de novembro, Francis Hime estará acompanhado no palco pelos músicos Mauricio Carrilho (violão), Jorge Helder (baixo), Jayme Vignolli (cavaquinho), Marcus Thadeu (bateria), Magno Cordeiro (percussão), Dirceu Leite (sax alto, soprano, flauta), Marcelo Bernardes (clarinete, sax soprano, sax tenor), Cristiano Alves (clarinete, clarone), Hugo Pilger (cello) e Eliza Lacerda e Malu von Kruger (coro). O espetáculo terá ainda a participação especial de Olivia Hime, Claudio Cruz (violino) e Liuba Klevtsova (harpa).
O repertório do show inclui, além das composições do CD, as músicas Atrás da Porta, Trocando em Miúdos, Luiza, Embarcação, Passaredo e Amor Barato (parcerias de Hime com Chico Buarque); Minha (parceria com Ruy Guerra), Sem Mais Adeus (com Vinícius de Moraes), Lua de Cetim (com Olívia Hime) e Parceiros (parceria com Milton Nascimento).
10 ANOS DO SELO SESC
O CD “Navega Ilumina” faz parte das comemorações dos 10 anos do Selo Sesc, que neste período divulga o que há de melhor na música brasileira, ao mesmo tempo em que produz um precioso acervo musical.
Neste ano, o Selo Sesc já lançou CDs de Tetê Espíndola (álbum duplo), de Marlui Miranda, do tecladista Renato Neto, um encontro entre o bandoneonista argentino Rodolfo Mederos e o pianista brasileiro Marcelo Ghelfi, o primeiro CD do maestro Olivier Toni e o terceiro registro da “Série +”, homenageando o compositor norte-ameicano John Cage.
Repertório do CD
1- Amorosa
2-Ilusão
3-Maria da Luz
4-Mistério
5-Navega Ilumina
6-Cecília – Fantasia para Harpa e Orquestra
7-Canção Noturna
8-Beatriz – Choro Seresta
9-Sessão da Tarde
10-Breu e Graal
11-Canção Apaixonada
12- Isabel – Fantasia para Violino e Orquestra
SERVIÇO
Shows de Francis Hime – lançamento do CD “Navega Ilumina”
Data: 15 e 16 de novembro de 2014
Horário: Sábado, às 21h, e domingo, às 18h
Local: Teatro Paulo Autran
Ingressos: R$ 50,00 (inteira); R$ 25,00 (usuário inscrito no Sesc e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) R$ 15,00 (comerciários e trabalhadores em empresas do comércio de bens, serviços e turismo). Ingressos à venda a partir de 4/11 (terça-feira) pelo Portal www.sescsp.org.br e a partir de 5/11 (quarta-feira) nas bilheterias das unidades do SescSP (venda limitada a quatro ingressos por pessoa). Não é permitida a entrada após o início do espetáculo.
Sesc Pinheiros
Endereço: Rua Paes Leme, 195.
Horário de funcionamento da Unidade: Terças a sextas, das 10h às 22h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 19h horas.
Horário de funcionamento da Bilheteria: Terça a sexta das 10h às 21h. Sábados das 10h às 21h, domingos e feriados das 10h às 18h.
Tel.: 11 3095.9400
Estacionamento com manobrista. Veículos, motos e bicicletas. Terça a sexta, das 7h às 22h; Sábado, domingo, feriado, das 10h às 19h. Taxas: Para atividades no Teatro Paulo Autran, preço único: R$ 6,00.
TEXTO DE ZUZA HOMEM DE MELLO – SETEMBRO DE 2014
CD NAVEGA ILUMINA
Navegando na obra iluminada pela harmonia
Não é que seus outros discos não sejam igualmente importantes, mas NAVEGA ILUMINA desempenha um papel muito especial na obra de Francis Hime, para mim um dos compositores harmônicos por excelência na canção brasileira.
E o que vem a ser compositor harmônico como o são Tom Jobim, Carlos Lyra, Edu Lobo, Dori Caymmi, Marcos Valle, Ivan Lins, Guinga entre outros? São os que têm um talento na arte de saber conduzir uma melodia, no artesanato de lidar com a inspiração, em como prosseguir a partir das primeiras notinhas de uma célula musical. É a bendita sabedoria no ato de criar uma canção completa.
O compositor harmônico tem a capacidade de assobiar uma melodia nova e ao mesmo tempo consegue pensar em sua harmonia, exercendo aquilo que o maestro Villa Lobos chamava de ouvido interno. O compositor harmônico já imagina a partitura antes mesmo de escrevê-la pela primeira vez. Ou, para aproveitar uma linguagem bem atual, ouve a música real quando ela ainda é virtual.
Francis sabe retratar com lucidez essa peculiaridade em sua obra. ”Minha música é baseada na harmonia, apesar de que às vezes sobressai mais a melodia, a comunicação da melodia. Mas a base, o porquê de escolher um caminho e não outro, está ligado ao desenvolvimento harmônico. Uma progressão harmônica pode parecer interessante enquanto outro desenvolvimento me dá a impressão de repetitivo, uma coisa obvia que não me convence. Então eu busco outro caminho. Às vezes é aquele caminho mesmo, outras vezes eu deixo uma música descansar um pouquinho, ou então retomo muito tempo depois e ela vai se desenvolver de outra forma. Às vezes é questão de horas, às vezes de anos. Mas a harmonia para mim é a base de tudo, é como eu gosto de conduzir uma composição.”
Nesse sentido Francis Hime é um compositor privilegiado capaz de criar em qualquer momento de sua vida músicas singularmente sedutoras, aquelas que ao serem ouvidas provocam um arrebatamento interior, revelado pelo esboço de um sorriso, ou uma sensação de alegria furtiva e a necessidade de compartilhar a descoberta. É o caso da “Canção apaixonada” neste CD, exemplarmente bem feita, com a marca de quem domina a arte de compor e de entregar a canção pronta.
Vale a pena explorar neste momento tão especial da trajetória de Francis Hime seu processo de composição no qual reconhece que seu instrumento, o piano, oferece alternativas mais amplas: “No violão você tem aquela levitação das posições e no piano você tem uma amplitude muito maior, a mão vai mais livremente que no violão. Naturalmente o instrumento me leva para outros caminhos no sentido do que eu estou tocando, saboreando a melodia que está nascendo. E aquilo me passa novas ideias. Quando eu faço a música do nada, buscando alguma coisa, que é a harmonia, a mão vai de repente para algum lugar. Antigamente eu era muito mais ligado ao instrumento, praticamente só compunha quando estava procurando no piano, mas hoje em dia componho muito sem instrumento também. Muitas vezes me vem uma frase melódica e eu começo a trabalhar aquilo sem ligação com o instrumento, com a melodia na cabeça; fico imaginando a harmonia e depois vou ao piano para conferir. Eu tenho uma curiosidade com a minha percepção musical, eu vejo muito o som, eu identifico as notas, não sei definir bem como é a forma, mas eu vejo o Si, o Lá, o contorno melódico, eu tenho muito o som da orquestra na minha cabeça, sobretudo o som da melodia e da harmonia, para mim é muito natural compor sem o instrumento.”
NAVEGA ILUMINA não é um disco que possa ser definido com uma expressão única, por mais abrangente que seja. Efetivamente não é de samba ou de canções, nem de música instrumental, embora estampe tais facetas. Representa um olhar de Francis sobre toda a sua carreira musical, sem distinção de época, de preferência ou de gênero. “Uma síntese de tudo que eu fiz, do que eu sinto, com esse meu gosto pela diversidade. Não tem nada que me prenda a um determinado estilo, em certas épocas gosto mais de fazer sambas, em outras, canção. À medida que fui compondo nesses anos todos foram surgindo outras ideias, como a minha atuação na música de concerto. O disco tem essa variedade e eu acho que é uma característica minha, que me dá prazer.”
Uma das facetas em NAVEGA ILUMINA é a de músicas criadas para letras, caso de “Maria da luz” composta sobre um antigo poema de seu parceiro Vinicius de Moraes encontrado no baú. “Quando eu tenho um poema eu penso qual ritmo poderia ser aquilo, qual o tipo de música e a partir daí começo a me concentrar na primeira frase. “Sessão da tarde”, por exemplo, eu me lembro que fiz a música para o poema da minha filha. Então pensei no verso Meu olhar faz cinema nela e numa caminhada pela Lagoa comecei a tentar descobrir o que seria aquela frase ritmicamente, melodicamente, coisas jogadas sem nenhuma ligação, brincando, tentando encontrar o que poderia servir para aquele poema. E não consegui descobrir a composição que viria a ser. Nesse mesmo dia fui para casa, estava deitado no sofá, alguma coisa ficou germinando e me veio um clima, alguns acordes me vieram na cabeça. Então comecei a sentir aquela melodia com a harmonia automaticamente, veio alguma associação que eu fiz com outras músicas, alguma coisa ligada a cinema, e fiz a música depressa, ali, no sofá, sem ligação com o instrumento. Mais tarde fui para o piano e aí comecei a definir a melodia em relação ao poema, acrescentando ou tirando uma palavra e fiz a música completa.” Já completa, “Sessão da tarde” é um primor que remete inevitavelmente à Bossa Nova.
Outra faceta de NAVEGA ILUMINA é a de letras do próprio Francis sobre suas músicas. “Tem duas músicas que eu fiz a letra. Fiz a música e fiquei me perguntando o que seria essa letra. Há muitos anos eu não fazia letra, uma das últimas que eu fiz foi “Choro rasgado” de 97. Eu gosto muito dessas duas músicas do disco, “Ilusão” e “Mistério” e queria que tivessem letra, só que eu não sabia o que. Então comecei a pensar e para o “Mistério” tive ideia de uma viagem, alguma coisa inesperada, falar da vida, do acaso, da sorte um dia. No caso do Ilusão também, o mesmo processo.”
Como nesse disco também há músicas feitas antes da letra, “Amorosa”, “Navega ilumina” e outras instrumentais, pedi a Francis que abordasse uma de suas marcas como compositor, o uso da modulação na própria composição. “A modulação é em si um desenvolvimento da canção, você cria uma célula e tem várias maneiras de desenvolver aquela célula e entre elas está a modulação, um processo que faz parte da composição. Você pode ter músicas mais simples onde não ocorrem modulações, “Meu caro amigo” por exemplo. Não tem modulação. Mas em “Embarcação” você tem modulação o tempo todo. Neste disco, o “Beatriz” um choro canção, tem um outro tipo de modulação, eu toco a música toda em mi bemol, termino num acorde que leva a uma modulação para si maior, depois do final em si maior vai para sol maior e depois no mesmo processo retorno a mi bemol. Aí é um caso mais simples de modulação.” É a descrição do que pode ser esmiuçado tecnicamente nessa linda valsa brasileira à moda antiga.
Em NAVEGA ILUMINA há também duas composições representando as incursões de Francis pela música de concerto, uma fantasia para harpa em ritmo de baião e outra para violino, que poderiam não combinar com o restante do disco. Aí é que se tem pela frente a encrenca de se conseguir um disco de conceito. Pensando na unidade do que vai ser ouvido, como combinar uma peça clássica com um samba enredo? A questão que Francis se impunha era “como harmonizar essas linguagens de formas tão díspares de maneira que o conceito pudesse ser transmitido? O contraste é importante mas ao mesmo tempo você tem que saber como apresentá-lo, trabalhar como se fosse um show com roteiro, contendo uma carga dramática consistente. Pensei que o samba enredo “Navega ilumina” só poderia vir depois do “Mistério”, um samba frenético, alucinado com aquela formação de cordas. Achei que a fantasia de harpa só poderia vir depois do samba enredo, escolhas arbitrarias que para mim faziam um certo sentido justificando conseguir um disco com expressões tão diferentes mas que teriam sentido.”
A conciliação dessa variedade de gêneros resumindo a obra de Francis num único disco poderia ser intitulada pelo seu nome completo, Francis Victor Walter Hime. A decisão final, do casal Francis e Olivia, estava na frente de ambos, contida no verso inicial de Geraldinho Carneiro para o samba enredo: Navega, ilumina com a luz de Oxalá / E a felicidade não vai se acabar.
É só ouvir Francis Hime.